Todo o arsenal que o atirador do Colorado usou para atirar sobre os espectadores de uma sala de cinema de Aurora - uma espingarda de assalto semiautomática AR-15, uma espingarda Remington de calibre 12 e duas pistolas Glock de calibre 0,40 - foi comprado legalmente em lojas de armas do Colorado, sem qualquer tipo de impedimento, registo ou supervisão, dois meses antes do massacre durante a estreia do filme de Batman.
O "cavaleiro das trevas" James Holmes também não teve dificuldade em adquirir, na Internet, as munições necessárias para todo esse armamento: 300 balas para a caçadeira e mais de 6000 cartuchos de balas para as pistolas e para a semiautomática (a AR-15 encontrada no local do crime tinha um tambor de cem balas, podendo disparar até 60 tiros por minuto).
Inevitavelmente, a facilidade com que Holmes teve acesso a todo este material bélico ressuscitou o debate, recorrente após tiroteios indiscriminados, sobre o direito ao uso de armas, consagrado na Constituição dos Estados Unidos. Mas trata-se de uma discussão inquinada à partida: apesar do drama e da emotividade associada, ocorrências anteriores - o ataque a tiro à congressista Gabrielle Giffords do Arizona ou o massacre na universidade Virginia Tech, só para mencionar as mais recentes - não conduziram a uma mudança de opinião ou de atitude, quer do público quer dos agentes políticos.
Mas a inacção não impediu o mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg, de levantar a questão. Em vez de falar em orações, os dois homens que vão disputar a presidência deviam explicar aos americanos se estão ou não dispostos a tomar medidas para restringir o acesso às armas, considerou Bloomberg, que lidera uma campanha nacional nesse sentido. "Nós não queremos solidariedade nem compaixão, queremos acção", sublinhou Dan Gross, presidente do Centro Brady para a Prevenção da Violência com Armas.
Contudo, o Presidente candidato à reeleição, Barack Obama, e o seu rival republicano, Mitt Romney, resistiram ao apelo e concentraram as suas declarações após a tragédia na dor causada por um ataque incompreensível e injustificado: ambos sabem que a questão das armas é matéria potencialmente explosiva para as suas pretensões políticas.
E não é só porque a National Rifle Association, organização que promove as armas, é um dos mais poderosos grupos de lobby dos EUA, com um orçamento anual de mais de 250 milhões de dólares para distribuir por campanhas políticas. As sondagens mostram que a maioria dos americanos defende a manutenção do seu direito constitucional ao uso de armas: a Gallup mostra que a percentagem que apoia maiores restrições no acesso às armas caiu de 78% em 1999 para 44% em 2010.
"Forças poderosas na política americana, com a NRA à cabeça, têm tido grande sucesso nos últimos anos em impedir qualquer alteração de leis relacionadas com o controlo de armas", observou o analista Cal Jillson, da Southern Methodist University do Texas, à Reuters. Como aconteceu antes, "o incidente [do Colorado] vai dar a alguns candidatos liberais a oportunidade de falar do assunto num ambiente em que as pessoas prestam mais atenção, mas no longo prazo isso não muda nada", acrescentou.
Sem menosprezar a capacidade de influência política do Presidente, no que diz respeito à legislação, a responsabilidade reside mais nos estados (com a regulamentação por vezes a ficar a cargo dos condados ou mesmo das municipalidades) do que em Washington. No Colorado, o regulamento permanece tão lasso e permissivo hoje como em 1999, data do massacre do liceu de Columbine.

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