Oposição no terreno não reconhece legitimidade à Coligação Nacional Síria

"É incontestável que responsáveis [da Coligação] não assumiram as suas responsabilidades", diz carta. Assad estará na quinta-feira na televisão do Hezbollah.

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Os grupos de oposição ao Presidente Bashar al-Assad que operam dentro da Síria já não reconhecem legitimidade à Coligação Nacional Síria, que representava a revolta para derrubar o regime. Quatro grupos emitiram um comunicado que é claro: "As forças revolucionárias que assinaram esta declaração não podem continuar a reconhecer legitimidade a um grupo político que trai a revolução e que não tem em conta o sacrifício do povo sírio", diz o documento, citado pela AFP.

Os quatro grupos são a Comissão Geral da Revolução, os Comités Locais de Coordenação, a União dos Coordenadores da Revolução e o Conselho Supremo para a Direcção da Revolução. "É incontestável que responsáveis [da Coligação] não assumiram as suas responsabilidades e não interiorizaram a revolução do grande povo sírio do ponto de vista organizacional, político e humanitário", diz o documento.

Estes grupos são constituídos por opositores que estão dentro da Síria, dando conta do que se passa no terreno a nível de combates, vítimas e direitos humanos. São eles que fornecem as informações que o Observatório Sírio dos Direitos Humanos divulga, em Londres.

A Coligação resultou da união de uma série de grupos, sendo o maior deles o Conselho Nacional Sírio, que junta os principais opositores no exílio. São os interlocutores dos países ocidentais e árabes envolvidos na tentativa de resolução da guerra síria e foram convidados para participar na conferência de paz que os Estados Unidos e a Rússia querem organizar em Genebra, na Suíça.

A ruptura entre a oposição dentro e fora do país deu-se, precisamente, devido à reunião preparatória da conferência de Genebra. O encontro dura já há sete dias e não há conclusões porque se tornou claro que há forças externas — Arábia Saudita, Qatar e Estados Unidos — a pressionarem as suas próprias agendas. Não decidiram se a estrutura deve ser alargada para incluir mais membros ou sequer se irão a Genebra.

A conferência de paz de Genebra deveria realizar-se em Junho, mas de momento não foi confirmada — apenas o Governo do Presidente Bashar al-Assad fez saber ter a "intenção" de estar presente uma vez que não se trata de decidir o futuro da Síria mas de preparar o cessar-fogo para, depois, se conversar sobre paz.

"O verdadeiro problema desta Coligação é a intervenção da Arábia Saudita a seu favor", confirmou nesta quarta-feira o conhecido opositor sírio Michel Kilo, um intelectual marxista e laico que foi recentemente convidado a integrar a estrutura. "Ora nós nunca dependemos de embaixadores, de estados ou de dinheiro político", frisou.

Empenada que está — a seu favor — a frente diplomática, Assad pôs em campo todos os seus recursos para avançar no terreno. Na manhã desta quarta-feira, começaram a chegar a Qusair, cidade junto à fronteira com o Líbano, reforços constituídos por tropas da milícia xiita libanesa Hezbollah e unidades de elite do Exército sírio. O director do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, Abdel Rahman, disse que está em preparação o assalto final à cidade. "Percebe-se que vai ser uma operação de grande envergadura."

Uma fonte do Hezbollah disse à agência noticiosa francesa que Qusair já está controlada "a 80%" pela força conjunta exército sírio-Hezbollah e que, na manhã desta quarta-feira, realizaram bombardeamentos "na zona norte e noroeste da cidade", onde se concentram as forças da oposição.

"Apesar do [nosso] forte poder militar, os rebeldes continuam a oferecer resistência", referiu a fonte que disse terem visto sunitas libaneses a combaterem ao lado da oposição síria.

A guerra civil na Síria, que entrou no terceiro ano, sectarizou-se. Apesar de serem confissões muçulmanas, sunitas (a maioria da população síria) e xiitas não se entendem — o cisma deu-se após a morte de Maomé, em 632 a.C. devido a uma disputa sobre a identidade do sucessor do profeta. Assad e a sua entourage são xiitas (do ramo alauita) e contam com o apoio da milícia libanesa e do Irão (xiita), que não quer perder um país numa região onde a maioria dos estados são sunitas.

Qusair é uma cidade estratégica a vários níveis, mas perdê-la neste momento é muito mais prejudicial à oposição. É uma cidade importante na passagem de armas e combatentes entre o Líbano e a Síria e se os soldados ao serviço de Assad a recuperarem ficarão galvanizados. A oposição, pelo contrário, pode ir-se abaixo, dizem os analistas.

Bashar al-Assad vai ser entrevistado na quinta-feira na estação de televisão do Hezbollah, a Al-Manar. Será às 21h de Damasco, sete da tarde em Lisboa.
 
 
 

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