Na sua primeira grande entrevista televisiva sobre o dia que marcou a sua presidência, George W. Bush não diz nada que não soubéssemos. Mas seria legítimo esperar outra coisa?
Há uma questão muito importante a pairar sobre a entrevista de George W. Bush que o National Geographic Channel exibe hoje no âmbito de uma programação especial marcando o décimo aniversário do 11 de Setembro. Não é a primeira aparição pública do 43.º presidente dos EUA desde que ele "passou a pasta" a Barack Obama, nem é a primeira vez que ele fala publicamente da sua presidência, mas é a primeira vez que ele se pronuncia frente a uma câmara sobre aquele que (para o bem ou para o mal) foi o momento-chave dos oito anos que passou à frente dos destinos do seu país.
A questão que paira sobre a "Entrevista do 11 de Setembro" é muito simples. É possível vê-la apenas como um documento neutro sobre o modo como um presidente em exercício enfrentou uma situação de emergência? Como o simples registo do confronto de um político com uma situação que escapa a todas as previsões? É possível, ao vê-la, afastarmos da cabeça as divisões que a presidência Bush significaram para a política e para a sociedade americanas, atiçando uma polarização e uma partidarização que mudou (mais uma vez, para o bem ou para o mal) o discurso político e a própria prática da política nos EUA?
A sobriedade do programa, onde não existe editorialização nem voz off de espécie nenhuma, apenas o depoimento de George W. Bush sobre o modo como viveu os dias 11 e 12 de Setembro, em modo de história oral cronológica intercalada com imagens de arquivo, desenha cuidadosamente essa procura de neutralidade. Aqui não se fala do que aconteceu antes (a controversa eleição que foi decidida nos tribunais), nem do que veio a seguir (a "guerra contra o terror", as invasões do Iraque e do Afeganistão, o furacão Katrina, o escândalo de Abu Ghraib).
Aqui, George W. Bush limita-se a contar como viveu os dias 11 e 12 de Setembro, do modo simples, terra-a-terra, que lhe conhecemos e que polarizou tanta gente, exemplo perfeito do americano conservador médio. Uns vê-lo-ão a arvorar a arrogância daqueles que acham terem sempre razão a cem por cento; outros olhá-lo-ão como um herói conservador que geriu o melhor que pôde as cartas que lhe foram dadas; outros ainda verão aqui confirmada a sua opinião de um homem que achavam não ter "arcaboiço" para ser presidente. Curioso como, pelo meio de opiniões e preconceitos radicalmente polarizados, nos esquecemos (não só em relação a Bush) da existência de um homem com sentimentos, emoções, dúvidas, certezas, e não nos perguntamos: será que teríamos feito melhor no lugar dele?
Mas isso pouco importa, porque a polarização que Bush trouxe à política americana (e, de certo modo, mundial) é agora inescapável, e ela colorirá forçosamente a relação que muitos espectadores irão ter com este objecto. Para os mais dados aos pormenores de bastidores, não ajudará o facto desta entrevista ser dada ao National Geographic Channel, parceria entre a National Geographic Society e o grupo Fox propriedade de Rupert Murdoch, conotado abertamente com a direita conservadora americana (não são poucos os que olham para a Fox News como braço propagandístico do Partido Republicano). Isso chegará para alguns atacarem o programa como apologia ou defesa das decisões de Bush no dia fulcral da sua presidência, decisões que afectaram todo o planeta ao longo dos dez anos que entretanto passaram.
História oral
No entanto, esta entrevista não é apologia nem denúncia, apenas uma história oral do modo como um homem - o Presidente dos Estados Unidos da América - viveu um dia: o dia em que quatro atentados terroristas em solo americano atacaram edifícios icónicos da Costa Leste. Não ilumina nem esclarece pormenores, contorna todas as questões-chave da presidência Bush, não aspira a ser mais do que a "história oficial" do 11 de Setembro de George W. Bush. Isso confere-lhe o valor histórico de registo, mas decepcionará, sem dúvida, todos aqueles que esperariam do programa uma discussão moderada dos efeitos do 11 de Setembro na política e na sociedade americana. É verdade: o National Geographic não é um canal de notícias, nem um canal político. Talvez seja precisamente por isso que Bush aceitou a entrevista - porque sabia que não ia ter de defender as suas decisões, o que aliás enquadra com o perfil discreto, apagado, que manteve deliberadamente desde que abandonou a política activa, recusando-se a ser arrastado para controvérsias ou discussões políticas.
Esta é uma emissão consensual, bem aparada, deliberadamente anónima, mais próxima do documentário que do jornalismo, mas demasiado jornalística para ser puramente documental. À imagem de muita da programação actual do National Geographic e de outros canais semelhantes, este é um documentário light, mais fachada que conteúdo, que se limita a reembalar a informação que já todos conhecemos. Mas talvez não devêssemos esperar outra coisa.
A entrevista de George W. Bush é emitida hoje no National Geographic Channel às 21h30, repetindo amanhã às 05h30, 08h35, 13h30 e 18h10.

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