No Egipto todos apelam à unidade, mas cada grupo quer uma unidade diferente

Morsi ratificou a Constituição de inspiração islamista. Hamdeen Sabahi propõe um pacto à oposição para derrotar a Irmandade nas legislativas.

A assinatura da polémica Constituição Reuters

Esta quarta-feira, no Egipto, foi o dia dos apelos de unidade. O Presidente Mohammed Morsi pediu que se trabalhe em conjunto pela estabilidade e segurança do país. A oposição liberal e laica pediu a criação de uma frente unida para acabar com a maioria islamista de Morsi.

Foi ao início da noite (hora local) que o Presidente falou ao país e começou por dar os parabéns aos egípcios por terem aprovado, em referendo, a nova Constituição de tendência islamista.

O texto, aprovado por 63% dos votos expressos, foi redigido por uma Assembleia Constituinte de maioria islamista, reflectindo o Parlamento saído das primeiras eleições após revolução de 2011 que depôs Hosni Mubarak, ganhas pela Irmandade Muçulmana.

Morsi disse que o referendo foi “totalmente transparente”, pelo que o texto reflecte a vontade da maioria do povo. Referiu, num discurso na televisão pública, que aceita que os opositores a critiquem, mas condenou o recurso à violência. Nesta quarta-feira, depois de a câmara alta do Parlamento (a Shura) ter dado a sua aprovação ao texto e de Morsi o ter ratificado, houve motins no Cairo — começaram, aliás, logo após o anúncio oficial dos resultados, na terça-feira à noite. Grupos de manifestantes que gritavam frases contra o Presidente barricaram ruas, provocaram alguns incêndios e enfrentaram a polícia.

O líder da Irmandade Muçulmana, Mohamed Badie, falara antes do Presidente e também pedira unidade aos egípcios para que seja possível “reconstruir o país” com a participação de todos, “homens, mulheres, muçulmanos, cristãos”. O Egipto vive uma crise financeira e económica graves, mas o Presidente tentou desvalorizá-la pondo a tónica na unidade política, que, disse, ficou expressa no referendo.

De acordo com a nova Constituição, devem realizar-se legislativas no Egipto no prazo de dois meses. Perdida a batalha do referendo, é nelas que se concentra a oposição.

O líder da ala liberal, Hamdeen Sabahi, que ficou em terceiro lugar nas presidenciais pós-revolução (ganhas pelo islamista Morsi), disse em entrevista à Associated Press (AP) que a maioria dos egípcios não são islamistas. “A Irmandade Muçulmana é uma minoria — e isto é uma certeza. Mas teve a maioria dos votos devido às divisões na oposição. Se houver transparência [nas próximas legislativas] e unidade nos grupos civis, a Irmandade perde [as eleições]”, disse à AP.

Sabahi acusou a Irmandade Muçulmana e Morsi de quererem “roubar” a revolução, mas prometeu dar luta. “Não deixaremos”, disse no seu apelo de unidade e entendimento com o objectivo de retirar a maioria à Irmandade.

Nas legislativas será eleita a câmara baixa — e talvez alguns representantes da Shura —, sendo esta e não a câmara alta o verdadeiro órgão legislativo do Egipto. Porém, até às eleições, e uma vez que a câmara baixa foi dissolvida, a Shura tem plenos poderes para legislar. O que Sabahi propôs foi uma aliança entre as forças políticas e os grupos civis mais liberais e laicos de forma a equilibrar os poderes, repartindo-os — neste momento, a Irmandade domina os poderes executivo e o legislativo.

Hamdeen Sabahi disse que este movimento de unidade laico e liberal deve ter um líder e sugeriu uma personalidade com prestígio, mas que se manteve de fora da luta política, Mohamed ElBaradei, que recebeu o Prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho na Agência Internacional de Energia Atómica. A AP não conseguiu obter um comentário de ElBaradei a este apelo.

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