Nações Unidas condenam em bloco o ataque sírio a cidade turca

Tanques turcos em patrulha perto da cidade de Akcakale Murad Sezer/Reuters

Todos os 15 membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas condenaram a Síria pelo ataque de artilharia contra uma cidade fronteiriça em território turco. No ataque morreram cinco civis. O conselho entende que o bombardeamento “revela com clareza o grave impacto que a crise na Síria tem na segurança dos países vizinhos e na paz e estabilidade na região”.

A declaração foi objecto de demoradas negociações até que a Rússia – principal e já quase único apoiante do regime de Damasco na comunidade internacional – concordasse com o texto. Moscovo opôs-se, por exemplo, a que a condenação falasse em riscos para a “paz e segurança internacionais”, terminologia que poderia servir de justificação a um maior envolvimento das Nações Unidas no conflito.

Nesta condenação é ainda defendido que se pare com “tais violações das leis internacionais imediatamente e que não voltem a ser repetidas”. Exige-se igualmente que o regime do Presidente sírio, Bashar al-Assad, “respeite totalmente a soberania e integridade territorial dos seus vizinhos” e que revele "contenção".

A Rússia terá ainda tentado que a declaração incluísse referências e linguagem que visava correlacionar e equilibrar o ataque da Síria – na quarta-feira, contra a cidade turca de Akcakale, em que morreram duas mulheres e três crianças – com a resposta militar feita pela Turquia, no dia seguinte, que disparou a sua artilharia contra a cidade síria de Tal al-Abyad.

Horas antes, o Parlamento turco autorizara o exército a lançar raides transfronteiriços, até dentro de território sírio, em qualquer altura durante o próximo ano. Esta aprovação foi obtida com 320 votos a favor e 129 contra e gerou uma vaga de manifestações contra uma eventual guerra entre os dois países.

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, frisou então que a Turquia não ter travar uma guerra com a Síria, mas também que o seu Governo está determinado a proteger as fronteiras e a população do seu país. “A Turquia é perfeitamente capaz de proteger o seu povo e as suas fronteiras. E ninguém deve testar a nossa determinação nesta questão”, avisou.

Erdogan sugeriu de resto que o bombardeamento de Akcakale não foi acidental, mencionando que já em outras sete ocasiões anteriores desde o início do conflito na Síria, em Março de 2011, tinham sido feito disparos contra território turco.

Por seu lado, o enviado da Síria às Nações Unidas, Bashar Jaafari, repetiu que Damasco não pretende uma escalada de tensões com a vizinha Turquia, aproveitando ainda para criticar as Nações Unidas pelo “silêncio sobre os ataques terroristas suicidas que atingiram a cidade de Alepo” – referindo-se aqui aos atentados em que dezenas de sírios morreram na passada quarta-feira.

A relação entre a Turquia e Síria – antigos aliados que partilham 900 quilómetros de fronteira – azedou drasticamente ao longo do último ano, com Ancara a colocar-se na linha da frente das críticas internacionais ao regime de Assad pela repressão violenta com que reage ao movimento de contestação no país, há mais de 18 meses.

Com o balanço de vítimas mortais sempre a aumentar no conflito sírio, ultrapassando já mais de 25 mil pessoas, e alertas de vários líderes mundiais de estar aberta uma guerra civil naquele país, o antigo aliado e parceiro político e económico de Damasco começou a pedir, como muitas capitais ocidentais, a partida de Assad do poder.

A Turquia é também um dos mais importantes portos de refúgio para dezenas de milhares de refugiados da guerra e também de desertores do exército sírio, incluindo o chefe do Exército Síria Livre (braço armado da revolta), Riad al-Assaad – o que provocou a fúria de Damasco, que acusa a Turquia de armar os rebeldes.

Os dois países estiveram em Julho numa outra situação de tensão, quando um caça turco F-4 entrou no espaço aéreo sírio sobre o Mediterrâneo e acabou por ser abatido pela artilharia síria. Na altura, Ancara manteve que o avião “cumpria uma missão de reconhecimento e treino”, sem qualquer armamento a bordo, quando “inadvertidamente, poderá ter passado a fronteira”.

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