O primeiro-ministro italiano, Mario Monti, pediu ontem que o próximo governo italiano – que sairá das eleições marcadas para Fevereiro – prossiga as reformas económicas que iniciou e que tenha uma tendência europeísta. Falando aos jornalistas em Bruxelas, recusou comentar o regresso à política de Silvio Berlusconi.
Na semana passada, Berlusconi (centro-direita) lançou a Itália para uma nova crise política ao anunciar que seria candidato ao cargo de primeiro-ministro. Retirou o apoio do seu partido Povo da Liberdade (PdL) ao governo tecnocrata de Monti (indigitado depois de o próprio Berlusconi, que chefiava o governo, não ter sido capaz de começar a solucionar a crise italiana e ser afastado), provocando a antecipação das legislativas.
Na quarta-feira, e criando ainda maior confusão, Berlusconi disse que se manteria afastado da política se Monti fosse candidato a estas novas eleições, chefiando uma coligação de centro-direita – este dissera que não o faria. Mas à noite, e de acordo com o que tem sido o seu percurso ziguezague dos últimas dias, SIlvio Berlusconi declarou: "Ainda sou candidato". "Neste momento sou candidato a primeiro-ministro na eleição prevista para Fevereiro".
Monti foi violentamente atacado por Berlusconi no início da semana, com o antigo primeiro-ministro (Berlusconi chefiou o Governo por quatro vezes) a responsabilizá-lo pela crise financeira italiana e acusando-o de ser um seguidista em relação às ordens da chanceler alemã, Angela Merkel.
Monti, que expressou o desejo de voltar ao seu lugar de Senador – tem um lugar vitalício –, preferiu dizer, em Bruxelas, que é essencial a Itália aprovar um orçamento antes do final do ano e que o novo governo siga o rumo traçado por esse orçamento e pela União Europeia. No fundo, foi uma resposta às declarações do populista Berlusconi, que atirara para a UE a maior parte da culpa pelo mau estado em que a Itália se encontra.
Vaticano defende Monti
O anúncio do regresso de Berlusconi enervou os governos europeus e agitou os mercados bolsistas (caíram, seguindo a praça de Milão). E enervou muitos sectores. Por exemplo a Igreja Católica, com o Vaticano a defender agora Monti, quando no passado defendera Berlusconi (o seu populismo e o seu discurso anticomunista.)
"A Igreja ficaria muito satisfeita se Monti sucedesse a si próprio como primeiro-ministro, ou mesmo se aceitasse desempenhar um papel no próximo governo", disse à Reuters Andrea Tornielli, escritor e autor do influente blogue o Vatican Insider. "Podiam torcer o nariz [a Berlusconi], mas sabiam que estavam descansados em matérias como o casamento homossexual, a eutanásia ou questões bio-éticas como a fertilização in vitro".
Esperam-se clarificações. As pressões europeias poderão fazer Mario Monti mudar de ideias? Que força eleitoral conseguirá o centro-esquerda de Pier Luigi Bersani? E o que fará realmente Silvio Berlusconi, que ontem foi tema de um editorial do jornal espanhol El País? Dizia assim: "O regresso de Berlusconi à primeira linha da política italiana deixou a Itália e a Europa em fibrilhação. As suas declarações populistas agitaram os mercados e inquetaram os parceiros da UE; a sua nova condição de candidato a primeiro-ministro entorpece os processos legais contra ele; o abrupto fim do Governo Monti deixa inconcluídas reformas importantes que estavam em curso. Mas entre esta – e muitas outras – consequências negativas deste regresso de Il Cavaliere, há uma oportunidade para a Itália: fechar este capítulo cinzento da sua História nas urnas. Sepultá-lo debaixo de montanhas de boletins de voto".

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