Mitt Romney, o candidato republicano às presidenciais americanas, esforçou-se na quarta-feira por contrariar uma percepção que nos últimos dois dias colocou a campanha dele em risco: a de que não está preocupado com quase metade do país, que não deverá votar nele mas em Barack Obama.
Num fórum televisivo na maior estação de língua espanhola dos Estados Unidos, Univision, onde durante cerca de uma hora respondeu a perguntas em directo dos moderadores, da plateia e do Facebook, Romney assegurou que a sua campanha “é sobre os 100 por cento” dos americanos, numa referência implícita ao que já é conhecido como “o vídeo dos 47 por cento”. No início desta semana, a revista Mother Jones divulgou um vídeo filmado sem o conhecimento do candidato num evento privado com financiadores da sua campanha, em que Romney disse que não estava preocupado com 47 por cento dos eleitores, que vão votar em Obama “independentemente de tudo” e que descreveu como pessoas dependentes do Estado.
Desde que o vídeo foi revelado, Romney nunca corrigiu as suas afirmações originais – apenas admitiu que se tinha expressado “de forma deselegante”, mas defendeu os comentários, dizendo que eles tinham a ver com a sua mensagem eleitoral de que o governo é o inimigo da iniciativa individual. As suas declarações na quarta-feira à noite de que pretende “ajudar os 100 por cento” – Romney disse “100 por cento” quatro vezes – soaram como a primeira tentativa de recuo em relação ao seu comentário sobre os 47 por cento de americanos. “Eu estou preocupado com 100 por cento da América. Preocupa-me que nos últimos quatro anos a vida se tenha tornado mais difícil para os americanos”, disse.
Foi uma mensagem que o ex-governador do Massachusetts tentou ensaiar durante todo o dia, num esforço para conter os danos causados pelo vídeo que até membros do seu partido admitem que lhe pode ter custado a eleição. Num evento de campanha em Atlanta, no estado da Geórgia, horas antes do fórum na Univision, Mitt Romney dissera: “A questão nesta campanha não é quem se interessa pelos pobres e pela classe média. Eu interesso-me, ele também”, notou, referindo-se ao Presidente Obama. “A questão é quem pode ajudar os pobres e a classe média. Eu posso, ele não – como provou nos últimos quatro anos.”
A sua aparição na Univision, que irá entrevistar o Presidente Obama esta noite, num modelo semelhante, visava cortejar o voto da população hispânica, um grupo cada vez mais influente no resultado das eleições presidenciais e que Romney tem tido dificuldades em convencer (nas sondagens, a distância entre Obama e Romney neste particular grupo de eleitores é de 68 por cento contra 26 por cento). Romney respondeu a perguntas da assistência, do Facebook e dos jornalistas-moderadores da Univision, que se dirigiram ao candidato em espanhol. “Para o caso de estarem a pensar por que é que demoro tanto tempo a responder: a pergunta está a ser traduzida no meu ouvido”, gracejou Romney, que não fala espanhol.
Questionado sobre a sua posição relativamente à imigração – um tema caro aos hispânicos que vivem nos Estados Unidos – o candidato republicano notou que o Presidente Obama falhou a promessa de avançar uma reforma no primeiro ano do seu mandato. “Ele nem sequer apresentou uma proposta de lei”, disse, garantindo que, se for eleito, irá reformar o sistema de imigração e “pô-lo a funcionar”, sem oferecer detalhes. Os moderadores confrontaram-no com a sua defesa do conceito de “auto-deportação”, durante a campanha das primárias republicanas, como a solução para lidar com os 11 milhões de imigrantes ilegais nos Estados Unidos. “Nós não vamos reunir todas essas pessoas e deportá-las”, disse. “Precisamos de uma solução de longo-prazo.” Quando foi pressionado por um dos moderadores para clarificar a sua posição, o público na sala reagiu com apupos, sancionando o jornalista. Romney soltou um riso nervoso e disse: “Parece que tenho alguns amigos na sala”.
No intervalo, uma jornalista da Univision explicou que os apupos resultaram do facto de Romney ter requisitado a presença de simpatizantes do seu partido como condição para participar no fórum. Obama fez o mesmo.

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