O Conselho de Segurança da ONU "condenou firmemente" o golpe na Guiné-Bissau e pediu o regresso do poder civil, depois de os militares terem detido o primeiro-ministro, o Presidente e outros membros do Governo.
O primeiro-ministro e candidato presidencial, Carlos Gomes Júnior, o Presidente interino, Raimundo Pereira, e o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, António Indjai, estão detidos, tal como alguns ministros. E há membros do Governo refugiados nas delegações da União Europeia e da Cruz Vermelha.
“Os militares estão a ir às casas dos ministros para os deterem e, em alguns casos, a vandalizá-las quando não os encontram”, disse ao PÚBLICO uma fonte que acompanha no terreno o golpe da Guiné. A mesma fonte adiantou que os militares em rebelião estão claramente a tentar concentrar os representantes dos órgãos de soberania, muitos dos quais na Fortaleza Amura, que é hoje a sede do Estado Maior das Forças Armadas.
Quase um dia após o golpe, os membros do Conselho de Segurança da ONU condenaram a acção militar e pediram "o restabelecimento imediato das autoridades civis", para além da "libertação imediata dos detidos". A declaração condena ainda “a ingerência de militares na política” do país. A embaixadora norte-americana na ONU, Susan Rice, sublinhou que a situação no terreno "evoluiu rapidamente".
Paulo Portas, ministro dos Negócios Estrangeiros, pediu uma “posição firme” da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que deverá reunir sábado, em Lisboa, para discutir a situação em Bissau. “A comunidade internacional aposta na constitucionalidade e quem põe [isso] em causa paga um preço, que é o isolamento internacional”, disse Portas à margem da Comissão de Negócios Estrangeiros na Assembleia da República, que teve a Guiné Bissau como único ponto da agenda. “Não podemos condescender com um golpe militar que acontece a meio de um processo de eleição de um Presidente da República.”
Depois de 24 horas intensas de contactos, informação e contra-informação — e muitos rumores —, uma fonte em Bissau sublinhou ao PÚBLICO a ideia de que o golpe “está no início e os cenários estão muito abertos”.
Os olhos estão postos sobre Kumba Ialá. Porque o candidato às presidenciais do mês passado rejeitou os resultados das eleições (entre os cinco que contestaram), porque lançou várias ameaças públicas na sequência dos resultados e porque os golpistas serão maioritariamente da sua etnia, balanta.
Um comando militar, cujos membros não foram referidos inicialmente, divulgou sexta-feira um comunicado no qual justificou a sua actuação com um "acordo secreto" entre as autoridades da Guiné-Bissau e o Governo de Angola "para aniquilar as forças armadas da Guiné-Bissau". No documento, os militares referiram não ter "qualquer ambição de poder", e justificaram o golpe com a missão militar angolana (Missang) que está na Guiné-Bissau desde 2011 com um mandato de capacitação, e que inclui a reforma das forças armadas.
Mais tarde, os golpistas reuniram com partidos da oposição e propuseram a criação de um governo de unidade nacional, adiantaram à AFP membros das formações políticas que participaram na reunião. "Os militares pediram-nos para reflectir sobre um governo de união nacional e a sua composição, mas exigem os cargos de ministro da Defesa e do Interior", disse um dos responsáveis políticos que pediu anonimato.
Estiveram na reunião o vice-chefe de Estado-Maior, general Mamadu Turé Kuruma, os chefes do Exército, Marinha e Força Aérea, o porta-voz do Exército e outros quatro coronéis. Foi notada a ausência do chefe de Estado-Maior da Guiné-Bissau, António Indjai. Pouco depois, um comunicado dos golpistas anunciava a sua detenção. O Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC), ao qual pertence o primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior, não esteve no encontro.
O comando militar garantiu que o primeiro-ministro e o Presidente interino Raimundo Pereira estão "sãos e salvos".
Ao início da noite de quinta-feira, no espaço de meia hora, militares da Guiné-Bissau detiveram o Presidente interino e atacaram com granadas e armas de fogo a residência do primeiro-ministro e candidato às presidenciais.
O Presidente interino, Raimundo Pereira, foi detido às 20h30 (21h30 em Lisboa) na fortaleza de Amura.
Pouco antes, militares forçaram a entrada na casa do primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior, que ficou então sob coacção de armas de fogo, disseram as mesmas fontes.
A mulher do chefe de Governo, Salomé, veio entretanto denunciar que os soldados enfiaram o marido numa carrinha e o levaram "para destino desconhecido". "Ele foi preso ontem [quinta-feira]. Depois levaram-no para uma carrinha que partiu", afirmou, citada pela agência noticiosa francesa AFP.
Pela 1h30 (2h30 em Lisboa) a situação estava calma no país, não se registando qualquer incidente, segundo o PÚBLICO apurou junto de fontes na Guiné.
Este ataque ocorreu um dia depois de a segunda volta das eleições presidenciais, que opõe Carlos Gomes Júnior (62 anos) e Kumba Ialá (59 anos), ter sido convocada para 29 de Abril. O actual primeiro-ministro venceu por larga margem a primeira volta - 48,97% contra 23,26% para Kumba Ialá, que tem recusado participar na segunda volta. Um diplomata disse à Reuters que "é bem conhecido que o Exército não gosta de Carlos Gomes Júnior, que está prestes a ser eleito, por isso pretenderá assassiná-lo ou garantir que não será eleito".
Um polícia que se encontrava junto à residência de Carlos Gomes Júnior contou à AFP que o local foi atingido por granadas. "Fomos obrigados a retirar", disse, sem referir qual a situação do primeiro-ministro. Vários tiros foram ouvidos na noite de quinta-feira em Bissau, houve pessoas a correr em pânico nas ruas, sendo visível o aparato militar, constatou a agência Lusa.
Um jornalista da AFP relatou também que se ouviram tiros e que cerca de uma dezena de militares entraram na Rádio Nacional. Pelas 21h locais já a televisão e sete rádios estavam silenciadas. Esta manhã, a principal estação de rádio do país voltou a emitir música e comunicados dos militares.
Enquanto isso, outros soldados ocuparam a avenida que passa em frente à residência do ainda primeiro-ministro e candidato a Presidente, Carlos Gomes Júnior, e a sede do partido no poder, o PAIGC, tendo sido lançados morteiros, adiantou a AFP.
A Rua Combatentes da Liberdade da Pátria, onde fica a casa de Carlos Gomes Júnior, foi bloqueada pelos militares, e junto à Presidência da República os soldados impediram a passagem de veículos. Várias embaixadas, incluindo a portuguesa, passaram a ser vigiadas por militares.
"Os militares estão por todo o lado", disse à AFP uma fonte diplomátixa em Bissau. Nos hospiais não houve notícias de feridos na sequência dos disparos.
Apelo ao boicote de Kumba Ialá fez aumentar a tensão
Horas antes do ataque tinha havido um apelo ao boicote às eleições por parte de membros da oposição e do candidato e ex-Presidente Kumba Ialá.
Cinco candidatos da oposição, entre eles Kumba Ialá, pediram “aos militantes e simpatizantes para não votarem a 29 de Abril”, e adiantaram: “Quem se aventurar a fazer campanha assumirá a responsabilidade por tudo o que aconteça”.
Kumba Ialá tinha denunciado fraudes na primeira volta e pediu que a votação fosse anulada. Mas as suas pretensões foram rejeitadas pela comissão eleitoral e pelo Supremo Tribunal. Os observadores internacionais consideraram também que a primeira volta foi justa.
A Comissão Nacional de Eleições acabou por convocar a segunda volta do escrutínio para 29 de Abril, mas a recusa de Kumba Ialá em participar fez crescer o receio de regresso da violência a um país marcado pela instabilidade político-militar. A tentativa de golpe militar de hoje criou um cenário de incerteza quanto à realização da segunda volta.
O candidato também rejeitou a mediação proposta pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que designou o Presidente da Guiné-Conacri, Alpha Conde, para encontrar uma saída para o impasse.
Esta acção militar resulta de uma escalada da tensão na Guiné-Bissau que já se verifica desde o passado sábado, dia 7, disse ao PÚBLICO fonte diplomática. Na altura circularam em Bissau rumores sobre movimentações militares e pessoas ligadas ao poder dormiram fora das suas casas, sinal de que levaram os rumores seriamente.
Há menos de um mês, a 19 de Março, horas após a primeira volta das presidenciais, foi assassinado o coronel Samba Djaló, ex-chefe dos serviços secretos militares, o que foi interpretado como um aviso de que algo iria acontecer com o objectivo de afastar o primeiro-ministro do poder.
Em Bissau, são intensos os rumores de que o primeiro-ministro corre sério perigo de vida, e também não há informações oficiais sobre a situação em que se encontra o Presidente interino Raimundo Pereira.
Notícia actualizada às 23h40 de 13 de Abril

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