Merkel aposta na imagem de “salvadora do euro” para ser reeleita

A imagem de “salvadora” do euro coincide com a de quem melhor protege o interesse dos alemães Michael Gottschalk/AFP

A chanceler alemã que hoje visita Lisboa é uma chanceler especialmente popular mas que enfrenta vários desafios nas eleições alemãs do próximo Setembro – e a pré-campanha na Alemanha já começou.

 

A imagem de “salvadora” do euro coincide com a de quem melhor protege o interesse dos alemães – dos contribuintes alemães. E isso vai ser fundamental nesta campanha, diz o analista político Gero Neugebauer, do departamento de política da Universidade Livre de Berlim, numa conversa telefónica com o PÚBLICO. “É o campo em que Merkel tem melhor performance”.

Mas como resolverá a chanceler o dilema de conjugar o discurso da protecção dos contribuintes nacionais contra mais empréstimos aos países sujeitos a resgate e o facto de que uma saída de qualquer um deles ser, no mínimo, perigosa para o euro e para a Alemanha? Neugebauer ri-se. “Os políticos alemães decidiram de facto que haverá mais custos para a Alemanha se a Grécia sair do euro”, diz. “Mas as discussões voltaram a reacender-se agora que a Grécia pediu para renegociar a dívida. A Alemanha está, pela primeira vez, a perder dinheiro com a venda de obrigações. E a crise não chegou ao fim”, diz.

As previsões de crescimento económico da Alemanha foram revistas em baixa: de uns esperados 1,6% para apenas 0,8%. Há 30% menos desempregados, mas apenas menos 1% menos desempregados de longa duração.

Da parte da oposição, há uma incógnita: as ideias do seu adversário social-democrata, Peer Steinbück, que ironicamente foi o seu ministro das Finanças (na grande coligação entre os conservadores e os sociais democratas entre 2005 e 2009) e a quem é dado crédito pelo facto de a Alemanha ter conseguido evitar uma grande contaminação da crise do “subprime” nos EUA e do colapso do Lehman Brothers.

O grande foco de Steinbrück tem sido na divisão entre os bancos de investimento e os bancos de retalho, para que não tenham de ser os contribuintes a pagar resgates da banca de finanças.  “De resto, ainda não se sabe exactamente o que defende para a política do euro”, diz Neugebauer. “Os sociais-democratas estão a cozinhar o seu programa e muito vai também depender de quem vão ser os conselheiros de Steinbrück”, sublinha o analista alemão.

Merkel, que vai tentar ser a terceira chanceler alemã a ter três mandatos na sequência de eleições legislativas, precisa, no entanto, de um parceiro de coligação. A incrível queda dos liberais, que em 2009 festejaram um resultado de 15% e agora raramente aparecem com mais de 4% nas sondagens (e são necessários 5% para ter representação parlamentar na Alemanha), deixa Merkel em maus lençóis.

Isto porque apesar desta coligação ter muitos problemas – os seus desentendimentos muito públicos e a incapacidade de seguirem com reformas significativas – esta “é a que melhor resulta” para Merkel, diz Neugebauer. O outro cenário que agora parece mais provável, uma “grande coligação” com o SPD, imporia mais restrições à acção da chanceler. Mas faltam dez meses para a eleição. E, alerta Neugebauer, com a crise à espreita tudo pode mudar muito e muito rapidamente.

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