Manning denuncia em tribunal as condições da sua prisão

Soldado acusado de ter transmitido à WikiLeaks documentos classificados dos EUA surgiu pela primeira vez em público desde que foi detido, em Maio de 2010.

Manning quando era levado para tribunal Mark Wilson/Getty Images/AFP

Bradley Manning, o soldado que os Estados Unidos acusam de ter passado à WikiLeaks milhares de documentos confidenciais sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão, surgiu pela primeira vez em público desde que foi detido, em Maio de 2010. Num impressionante testemunho em tribunal, o militar contou que passou os primeiros dias em total isolamento, “numa jaula”, onde acreditou que iria morrer.

Manning foi levado a tribunal no terceiro dia de uma audiência preliminar destinada a decidir se o processo seguirá para um tribunal marcial, onde se arrisca a ser condenado a prisão perpétua por roubo de material classificado, conspiração para a sua publicação e apoio aos inimigos dos EUA, incluindo a Al-Qaeda.

A defesa tenta que as acusações sejam abandonadas, alegando que o soldado sofreu tratamento desumano nos mais de 900 dias de prisão preventiva. Dada a pouca probabilidade de tal pedido ser aceite, propôs à acusação um acordo, ao abrigo do qual o Manning aceitaria declarar-se culpado de crimes menos graves, o que implicaria uma pena máxima de 16 anos.

“Lembro-me de ter pensado: ‘Vou morrer aqui’”, contou o soldado, ao ser questionado pelos seus advogados sobre os meses que passou detido no Kuwait, para onde foi transferido dias depois de ser preso, quando servia numa unidade de análise de informação no Iraque. Nervoso, Manning disse que os militares pouco ou nada lhe disseram sobre aquilo de que era acusado e explicou que foi mantido numa cela de pouco mais de dois metros quadrados, dentro de uma tenda. “Era assim que eu a via, uma jaula, uma jaula para animais”.

O soldado contou que era mantido dentro da cela e impedido de contactar com outros detidos. “As minhas noites eram os meus dias, os meus dias eram as minhas noites”, disse, explicando que ao fim de algum tempo a confusão deu lugar à depressão. Disse não se lembrar, contudo, do dia 30 de Junho de 2010, quando os médicos foram chamados à sua cela. “Ele estava aos berros, balbuciava e batia com a cabeça contra a cela”, explicou o advogado aos presentes.

Dias depois foi transferido para a base dos Marines em Quantico, na Virgínia, mas apesar da sua alegria inicial também ali encontrou condições muito duras. Nos primeiros nove meses, passava 23 horas por dias dentro de uma pequena cela, sem ver o sol, e a sua principal distracção era olhar-se num pequeno espelho. Foi colocado sob vigilância permanente, para impedir que se suicidasse, mas muitas noites era obrigado a ficar totalmente nu.

O Pentágono nega as acusações de tratamento desumano feitas pela defesa, considerando que as condições da sua detenção são adequadas para um detido numa prisão de alta segurança.

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