Li Keqiang, o novo timoneiro da economia chinesa

Novo primeiro-ministro chinês quer que a classe média da segunda potência mundial seja uma realidade pujante. É uma pessoa “decidida a agir em nome das suas convicções"

Li Keqiang é um homem que se fez a ele próprio Mark RALSTON/AFP

Nos livros de História, e por enquanto, Li Keqiang estará em segundo lugar. É, desde ontem, o novo primeiro-ministro da China, não o Presidente — esse é Xi Jinping. Mas alguns capítulos terão que o ter por protagonista, porque é ele o homem da “teoria da classe média”. Não sendo o autor único, vai aplicá-la.

Diz esta teoria, apresentada no Congresso do Partido Comunista Chinês que terminou e onde se fez a mudança de líderes (estes dois homens serão os governantes da China nos próximos dez anos), que para a China manter o crescimento económico estável (e a subir), tem que ser incentivado o crescimento de uma classe média que o seja não apenas no nome — tem de ter poder de compra e apoio social (educação, saúde, habitação) para se fortalecer.

Li podia ser o Presidente, mas no embate de facções que antecederam a sucessão de líderes, a sua facção perdeu — a de Hu Jintao, o ex-Presidente que, escreveram os sinólogos, se bateu por Li até ao último momento. Li terá herdado dele a filosofia da “sociedade harmoniosa” que deve caminhar para o consumo interno e menos para as exportações para sustentar a sua economia, como explica o El País.

Pode ser uma vantagem tê-lo como primeiro-ministro, escreviam ontem os analistas, ele que é mais um homem de acção do que de protocolo, mais contido do que Xi nas reacções mas de “língua afiada” nos momentos cruciais. A Reuters chamava-lhe “burocrata”, mas nem a agência noticiosa estava convicta da palavra que usava pois, momentos abaixo, dizia que num telegrama americano divulgado pela Wikileaks foi descrito como uma figura “decidida a agir em nome das suas convicções e muito bem informado”.

A Wikileaks revelou outro documento com uma conversa entre Li e o embaixador dos EUA na China em 2007; o chinês disse que manter os números da economia chinesa era “irrealista” (sempre a crescer; em 2011 decresceu para os 9,3% e no ano passado ficou nuns alarmantes 7,8%), e que a corrupção era o principal problema social e político, uma vez que a opinião pública começa a insurgir-se contra ela.

Declarações que batem certo com os perfis que foram sendo publicados sobre Li, desde que se soube que seria primeiro-ministro. É um homem que se fez a ele próprio — Xi é um “príncipe”, filho de um revolucionário da primeira geração que usufruiu dos privilégios a que a família tinha direito.

Li Keqiang, que tem 57 anos, nasceu num ambiente rural na província de Anhui; o pai era um funcionário de segunda linha do Partido Comunista local. Ainda assim, tentou ajudar o filho, iniciando-o, através de si, na política partidária. Li recusou, segundo as biografias oficiais. Trabalhou, durante a Revolução Cultural de Mao Zedong, como operário numa quinta e aderiu ao partido em 1976. Partiu, depois, para Pequim, onde estudou Direito e fez um doutoramento em Economia — os amigos ouvidos pela BBC disseram, sob anonimato, que era muito concentrado e estudava Inglês enquanto esperava pelo seu almoço, na fila da cantina. A filha única de Li (casado com uma professora em Pequim) estuda nos EUA.

Foi subindo na hierarquia a pulso e foi colocado em Henan, em 1998, como "vice" do partido e, depois, primeiro responsável. Data do seu período em Henan uma das manchas que se vê neste currículo: tentou encobrir o brutal surto de sida, em parte provocado por sangue contaminado que chegou aos hospitais — a sida e uma série de fogos que abalaram as estruturas da economia local valeram-lhe, na China rural, o rótulo de “homem com má sorte”. A seguir partiu para Liaoning (2004), onde conseguiu ressuscitar parcialmente a indústria local.

A segunda mancha na sua carreira data de 1989, quando esteve envolvido no círculo intelectual pró-democracia que levou à insurreição em Tiananmen; quando foi declarada a lei marcial, retirou-se da luta.

Como primeiro-ministro, cabe-lhe gerir a segunda maior economia do mundo. No ano passado, quando já era claro que seria um dos governantes, fez uma visita à Europa e, agora, diz o El País, a chanceler alemã Angela Merkel foi a primeira líder a telefonar-lhe a dar os parabéns. Quando esteve na Europa, Li escreveu: “O mundo precisa tanto do pensamento ocidental como da visão oriental. (...) A China e a Europa devem conseguir desenvolver modelos [socioeconómicos] à medida das suas necessidades”.
 
 
 

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