Londres e Paris chamaram os enviados diplomáticos de Israel nas respectivas capitais para lhes comunicar o seu desagrado com o avanço da expansão de colonatos com 3000 alojamentos, em represália contra a aprovação na ONU do novo estatuto para a Palestina.
"Lamentamos a decisão do Governo israelita de construir 3000 novas unidades de habitação e descongelar o desenvolvimento do bloco E1. Apelámos ao Governo de Israel para que voltasse atrás na sua decisão”, disse um porta-voz do Foreign Office, citado pelo Guardian, para justificar a decisão do Governo britânico.
O primeiro-ministro britânico, David Cameron, recusou no entanto a hipótese de que o Reino Unido estivesse a pensar reritrar o seu próprio embaixador no Reino Unido: "Não estamos a pensar nisso", disse, citado pelo jornalista da BBC Norman Smith no Twitter.
Quanto ao embaixador de Israel em Paris, foi chamado para uma reunião esta manhã no Ministério dos Negócios Estrangeiros, avançou um porta-voz do Quai d’Orsay, sem comunicar ainda o desenlace. Anteriormente, o Governo francês tinha tentado abrandar a especulação sobre a possibilidade de também chamar o seu embaixador em Israel de volta a Paris: “Há formas melhores de expressar o nosso descontentamento”, disse um porta-voz dos Negócios Estrangeiros.
De Berlim, onde Netanyahu é esperado numa visita oficial na quarta-feira, veio também uma mensagem para o apaziguamento da fúria israelita. "Apelamos ao Governo de Israel para que desista deste procedimento [a expansão dos colonatos)", disse o porta-voz do Governo alemão Steffen Seibert, citado pela Reuters.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo divulgou também uma nota em que diz ver "as intenções israelitas com uma grande preocupação". Pôr em prática "os planos anunciados de actividade de expansão dos colonatos em larga escala teria um efeito muito negativo nos esforços para reiniciar as negociações directas com o objectivo de obter uma solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano", diz a mensagem vinda de Moscovo.
O problema E1
Em particular, a decisão de fazer avançar a construção no bloco E1 é especialmente gravosa, porque há anos que tem estado intocado, por pressão dos Estados Unidos e da União Europeia. Construir naquela zona cortaria Jerusalém Oriental – a futura capital da Palestina – da Cisjordânia. Ban Ki-moon pediu a Israel que volte atrás nessa decisão. Expandir os colonatos para aquela zona “representaria um golpe quase fatal para as hipóteses que ainda restam de uma solução de dois Estados”.
O anúncio dos expandir os colonatos, em particular na zona designada como E1, suscitou uma onda de críticas na imprensa palestiniana de domingo. “O que é particularmente surpreendente é a violação por Israel dos seus compromissos com os EUA de não construir na zona E1, sabendo que tal construção impediria o estabelecimento de um Estado palestiniano na Cisjordânia. Depois de os EUA terem sido praticamente os únicos a defender a causa de Israel nas Nações Unidas, Israel recompensa-os com um murro”, pode ler-se no diário Ha’aretz, tendência à esquerda.
Esta posição é o resultado da evolução muito para a direita, do Likud, o partido de Netanyahu, que no topo das listas eleitorais das legislativas de 22 de Janeiro apresentará candidatos favoráveis ao progresso da colonização, como Gideon Sa'ar, Gilad Erdan, Silvan Shalom, Israel Katz, Danny Danon e Moshe Ya'alon, sublinha o correspondente em Israel do Le Monde. O que se prevê é que o próximo Knesset (Parlamento) seja dominado pela coligação Likud- Israel Beitenou (Israel, Nossa Casa), o partido ultranacionalista do ministro dos Negócios Estrangeiros Avigdor Lieberman.
O dinheiro fica cá
Em mais uma retaliação contra o reconhecimento pela ONU do estatuto de Estado observador à Palestina, o Governo israelita anunciou que bloquearia a transferência dos impostos cobrados em nome da Autoridade Palestiniana no mês passado, no valor de 92 milhões de euros, e que usaria este montante para pagar metade da dívida que Ramallah tem com a Empresa de Electricidade Israelita.
“Sempre dissemos que a elevação do estatuto da Palestina na ONU provocaria reacções de Israel”, declarou o ministro das Finanças, Youval Steinitz. “Não faço tenções de transferir a colecta de impostos para a Autoridade Palestiniana este mês”, afirmou à rádio pública israelita.
A Autoridade Palestiniana, liderada por Mahmoud Abbas, vive já numa situação de crise financeira, muitas vezes sem meios para pagar os salários aos seus funcionários. Os países árabes prometeram doar fundos para compensar os eventuais cortes de financiamento por parte de Israel – mas, como recorda o New York Times, foram retracções no financiamento dos países árabes que provocaram a crise financeira.

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