HRW prova que rebeldes executaram a sangue frio seguidores de Khadafi

As execuções aconteceram em Sirte, o último bastião de Khadafi Esam Al-Fetori/Reuters

De heróis a carrascos, de libertadores a torcionários. Há muito que as denúncias existem, mas a Human Rights Watch (HRW) revelou hoje ter reunido provas conclusivas de que os rebeldes que derrubaram Muammar Khadafi executaram dezenas de homens capturados quando acompanhavam o antigo ditador na sua derradeira fuga.

A denúncia consta de um relatório divulgado hoje, a três dias do primeiro aniversário da morte de Khadafi, o homem que durante 42 anos manteve a Líbia cativa da sua vontade. Intitulado “A morte de um ditador: a vingança de Sirte”, o documento de 50 páginas oferece o mais detalhado relato dos acontecimentos de 20 de Outubro de 2011, da tentativa de fuga à apresentação dos corpos de Khadafi e do filho Mutassim na morgue de Misurata, bastião dos rebeldes.

A organização de defesa dos direitos humanos diz não ter provas de que Khadafi foi executado – tinha sido atingido por estilhaços de uma granada durante os combates – mas reafirma que os testemunhos e vídeos que recolheu provam que ele foi pontapeado, esbofeteado e agredido com uma baioneta após ter caído nas mãos dos rebeldes. “Quando foi colocado numa ambulância e transportado para Misurata, o seu corpo aparentava não ter vida.”

Há também imagens que provam que Mutassim, que comandou os homens de Khadafi até ao fim, foi capturado com vida. Numa delas, o filho do ditador surge deitado numa cama, a beber água e a fumar cigarros, enquanto troca palavras duras com os seus captores. Horas mais tarde, o seu corpo surge na morgue de Misurata, com um “ferimento na garganta que não é visível em vídeos anteriores”. Um ano depois, as novas autoridades líbias não investigaram as denúncias de execução nem divulgaram os resultados das autópsias aos dois corpos.

Mas a vingança dos rebeldes de Misurata, durante meses atingidos sem dó pela artilharia de Khadafi, foi maior e mais sangrenta. E o palco dos horrores foi o Hotel Mahari, em Sirte, para onde foram levados os que ficaram até ao fim ao lado do ditador. “As provas recolhidas indicam que as milícias executaram sumariamente pelo menos 66 membros da coluna de Khadafi”, lê-se no relatório da HRW, que durante meses visitou os locais dos crimes, ouviu testemunhas e recolheu imagens gravadas pelos milicianos nos seus telemóveis.

Num desses vídeos, dezenas de lealistas capturados com vida – 150, segundo as contas da organização – surgem a ser insultados e agredidos. Fotografias arquivadas na morgue de Sirte provam que 17 dos que ali surgem foram posteriormente executados. Eram apenas parte dos 53 corpos que investigadores da HRW encontraram, a 22 de Outubro, nos jardins do Mahari, alguns deles com as mãos ainda atadas atrás das costas. Outros corpos tinham já sido levados por familiares quando os investigadores ali chegaram.

“Caso após caso dos que investigámos, os indivíduos eram filmados vivos pelos rebeldes que os mantinham presos e horas mais tarde foram encontrados mortos”, explica a organização. Um deles era Ahmed al-Ghariyani, um cadete da Marinha de 29 anos, natural de Tawergha. Aquela cidade, dominada por uma tribo negra leal a Khadafi, foi usada pelas forças de Khadafi para bombardear Misurata e depois da guerra foi arrasada como punição pela sua lealdade. No vídeo citado pela HRW, milícias agridem Ghariyani a soco e pontapé, atingem-no com sapatos e insultam-no pelas suas origens. O seu corpo seria encontrado entre os que foram executados no Mahari.

A execução de prisioneiros é um crime de guerra, mas quase um ano depois nenhuma destas denúncias foi investigada e nenhum responsável punido. Este fracasso “mostra que as novas autoridades líbias têm um longo caminho a percorrer para tornar realidade o seu compromisso de impor a lei e pôr fim à impunidade no abuso dos direitos humanos”, afirma a organização, que define o controlo e desarmamento das milícias que continuam a reinar na Líbia como “o principal desafio” colocado ao novo Governo.

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