O socialista François Hollande, vencedor das eleições presidenciais em França, toma posse nesta terça-feira. A transmissão de poderes de Nicolas Sarkozy, o derrotado a 6 de Maio, para aquele a quem chamam o "Presidente normal" será feita à porta fechada no Palácio do Eliseu, em Paris, a partir das 10h (menos uma em Portugal continental). O dia reserva para mais tarde uma deslocação a Berlim, onde Hollande terá um encontro, com jantar incluído, com Angela Merkel. Será o primeiro "teste de stress" do sétimo Presidente da V República francesa, diz alguma imprensa alemã.
Para lá do protocolo, que inclui outros actos tradicionais como a viagem de carro até ao Arco do Triunfo, Hollande terá reuniões com Sarkozy. A agência francesa AFP diz que o Presidente cessante e o novo chefe de Estado deverão reunir-se durante 20 minutos, para a passagem de testemunho – incluindo os procedimentos ligados às armas nucleares. Deverão ainda abordar questões estratégicas e de interesse nacional. Um leque que, a fazer fé nas declarações de vitória de Hollande, incluem agora a missão de convencer a chanceler alemã a reabrir as negociações do Tratado Orçamental.
"Será um baptismo de fogo", afirma o jornal inglês Guardian. Merkel tinha declarado o seu apoio a Nicolas Sarkozy. E durante a campanha eleitoral, recusou-se a receber Hollande, a quem saudou depois no momento da vitória, dizendo que o receberia "de braços abertos".
Hollande tentou desdramatizar o encontro franco-germânico, dizendo que seria um momento para se conhecerem. Uma descrição em que é difícil de acreditar, ainda para mais num momento em que a pressão sobre o euro está ao rubro, graças à indefinição na Grécia, que não consegue formar um Governo, após as eleições, realizadas no mesmo dia em que Hollande conquistou as presidenciais francesas.
Mas os gregos têm as esperanças concentradas em Hollande. Um diário grego repescou uma frase do economista Thomas Piketty: "François Hollande, o Roosevelt da Europa". A ideia chave: é preciso um New Deal para a União Europeia, um pacote legislativo que relance o crescimento na economia europeia. Uma das promessas de Hollande ia por aí: a "mudança é agora", foi dizendo o socialista. A construção de uma nova política europeia, com menos austeridade e mais estímulos, passará inevitavelmente pelo encontro de Berlim, onde será necessário convencer Angela Merkel que outro caminho é possível. "Seremos francos, diremos o que pensamos, não um sobre o outro, mas sobre o futuro da Europa... Não concordamos em tudo. Vamos falar sobre isso para podermos chegar a um bom compromisso", disse Hollande na véspera da viagem.
O jornal alemão Süddeutsche Zeitung sublinha que Merkel e Hollande não terão tempo para se conhecerem. A situação é de emergência. "Merkel e Sarkozy representavam o eixo liberal-conservador. Merkel e Hollande constituem uma ponte entre esquerda e direita. Se se entenderem, terão mais força face às oposições internas. Ao mesmo tempo, as suas decisões terão maior aceitação europeia", assinala o mesmo jornal.
A cerimónia de posse agendada para esta terça-feira inclui três homenagens que Hollande prestará em Paris: ao Soldado Desconhecido, a Jules Ferry, considerado o pai da escola laica gratuita e obrigatória, e a Marie Curie, cientista que nasceu na Polónia e conquistou dois prémios Nobel, um da Física e outro da Química. Para rematar os assuntos domésticos, Hollande reunir-se-á com o presidente da Câmara de Paris, antes da partida para Berlim. Mas na agenda tem outras questões e viagens decisivas, como as escolhas para o Executivo francês e uma deslocação aos EUA, onde irá encontrar-se com Barack Obama, na sexta-feira.
Serão quatro dias com diversas provas de fogo, que servirão igualmente para preparar cimeiras: o G8 e uma da NATO e também o encontro informal em Bruxelas, no dia 23, que deverá constar da "ementa" do encontro desta terça-feira com Merkel. "O primeiro encontro será decisivo para o que vem a seguir", resumiu o chefe da campanha de Hollande Pierre Moscovici. E o mundo seguirá atento ao que vai fazer o homem que, 17 anos depois de François Mitterrand, devolveu ao campo socialista a Presidência da França.

Comentários