Houve "um sismo social" e, hoje, Carlos Serra quer ouvir o que os jovens universitários têm a dizer. O sociólogo moçambicano vai participar num debate na Faculdade de Medicina, dias depois de o Governo ter anunciado o congelamento dos preços cujos aumentos levaram milhares a manifestar-se em toda a periferia de Maputo e de Matola, cidade dormitório, aqui ao lado.
Para perceber o que aconteceu nos dias 1 e 2 de Setembro, sublinha Carlos Serra, falta "muito trabalho de campo que inclui o estudo do material gravado, dos discursos na rádio e um estudo prolongado de terreno para ouvir os actores deste processo". Para já, é óbvio que houve muitos jovens e miúdos a sair à rua e muitas mulheres, mais do que acontecera em 2008 nos protestos contra o aumento dos chapas, os transportes privados que levam as pessoas dos subúrbios ao centro.
"Ao fazer-se este trabalho de campo, temos de ter em conta que vivemos momentos muito emocionais e não podemos confundir o discurso moral com a análise, não se pode querer justificar qualquer coisa, dar-lhe apoio", diz, numa conversa na esplanada do Café Surf, no Jardim nos Namorados, perto do centro de Maputo e com vista para o mar.
Neste trabalho, Serra quer "colocar a hipótese do fusível social, de algo que dá um sinal por um acúmulo de stress". As pessoas, que estão "mais nervosas", não protestam contra a acumulação dos recursos, mas contra "a não redistribuição desses recursos", diz.
O sociólogo do Departamento de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane não acredita nas teorias "da mão externa", que têm sido veiculadas pelos media ligados ao Governo e que responsabilizam os estrangeiros. Falam numa suposta conspiração com a Renamo, o principal partido da oposição; numa aliança "improvável" com uma ala de descontentes que haverá na Frelimo, o partido no poder; e ainda no uso dos telemóveis e das mensagens escritas para marcar e disseminar as manifestações como indicador de presença externa. O telemóvel "faz parte da cultura moçambicana", nota.
Os protestos de quarta e quinta-feira da semana passada espalharam-se com recurso aos SMS e assim se parou por completo Maputo, uma cidade de um milhão de pessoas, com mais dois milhões à volta. Depois, há uma semana atrás, começou a resposta, através de mensagens que apelavam "à tranquilidade" e ao "trabalho". "Uma luta começou mais cedo, é a que eu chamo luta protesto, para mobilizar; depois veio a outra, uma luta política para travar a outra. Foi uma luta de barricadas de SMS, está tudo escondido, ninguém sabe quem está a falar, são os obuses digitais", descreve Serra.
Esta luta decorre entre filhos e pai: o objectivo central dos filhos, diz Serra, "não foi derrubar o Estado nem o Presidente, foi combater o Estado que deixou de ser paterno".
Guebuza de cara queimada
João Feijó, um antropólogo português que está em Maputo a estudar relações laborais, juntou-se à conversa e recorda o rosto do Presidente, Armando Guebuza, durante o discurso de terça-feira para assinalar o aniversário da assinatura dos Acordos de Lusaca. "Nunca tinha visto o Guebuza assim, ele tremeu quando viu a cara dele queimada ali, na Praça dos Heróis", diz. A cara estava num cartaz que sobra da campanha eleitoral do ano passado, quando a Frelimo foi reeleita; a Praça dos Heróis é o palco habitual dos discursos do Presidente.
"O que as pessoas têm em relação ao Estado é uma perspectiva paternalista. O Estado é o pai e o pai aumentou o preço do pão ao filho. A Frelimo é muito popular, apesar das críticas. Foram eles que libertaram o país. É uma questão familiar", diz Feijó. "Não é mau o pai ser rico. É mau é não dar aos filhos", acrescenta Serra.
Preocupações para o futuro
O sociólogo nota em seguida que o discurso político sobre os protestos tentou sempre "excluir os actores das suas relações sociais, das relações complexas em que eles vivem, lá, onde se acumulam os desgostos". E a seguir Carlos Serra lembra o poema em que Bertolt Brecht diz que o rio "é violento" e "ninguém diz [que são] violentas as margens que o comprimem". As "margens [o Governo] é que estão esquecidas neste processo", afirma Carlos Serra.
A grande preocupação de futuro, para o sociólogo, é perceber o impacto da "etiquetagem" dos jovens que saíram à rua a semana passada. "Chamaram-lhes malfeitores, como se isso fosse genético", diz. "O que é que estes jovens vão pensar?", pergunta. "Há pobreza, mas estes jovens têm televisão, ouviram os políticos" e o que os políticos disseram deles.

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