Guerra dos chefes na direita francesa voltou à estaca zero

Copé considerou encerradas as negociações com Fillon, que formalizou criação de grupo da UMP autónomo no Parlamento

Jean-François Copé já não quer negociar com Fillon THOMAS SAMSON/AFP

Nicolas Sarkozy foi ultrapassado na tentativa de mediação entre os irmãos desavindos da UMP, Jean-François Copé e François Fillon, que disputam a presidência do partido que agrupa o centro-direita francês. Após um dia de ultimatos e contra-ultimatos, a crise voltou à estaca zero.

Copé deu as negociações como terminadas, e assumiu as funções de presidente da UMP, dado que Fillon se recusou a acatar o seu ultimato "até às 15h" para dissolver o grupo parlamentar autónomo que formou na Assembleia Nacional, o Rassemblement UMP (RUMP), que reúne 68 dos 194 deputados UMP.

Foi ao confrontar-se com a publicação no Journal Officiel (equivalente ao Diário da República) da declaração política do RUMP, ontem, que Copé voltou atrás na concessão que Sarkozy lhe tinha arrancado a ferros, na terça-feira à noite: realizar um referendo interno para verificar se os militantes da UMP estariam de acordo em votar outra vez para escolher o líder, dado que se verificaram tantas irregularidades nas eleições de 18 de Novembro. Dizem próximos do ex-Presidente, ainda a figura tutelar da UMP, que este só conseguiu espicaçar Copé ameaçando divulgar um comunicado em que tornaria pública a "vergonha" que sentia ao ver os conflitos entre os seus herdeiro.

Mas ao ver a declaração política do novo grupo parlamentar de Fillon, Copé não se conteve: "Foi cruzada uma linha vermelha, tiro as consequências devidas. Não estão reunidas as condições para um referendo."

François Fillon, o cavalheiro, o ponderado primeiro-ministro de Sarkozy que era mais popular do que o Presidente, está a revelar uma inédita faceta guerreira.

Alinha-se com a ala da UMP desgostada com a viragem à direita empreendida por Sarkozy e apoiada por Copé que não teve sucesso nas eleições presidenciais. Mas não se apresentou como um líder suficientemente forte para arrebatar o partido - a campanha de Copé chamava a Fillon "um Hollande de direita", para sublinhar a sua tendência para procurar meios-termos e fazer ziguezagues, como o Presidente francês.

Bem habituado a lidar com Sarkozy, o almoço de mediação que teve com ele correu muito bem, tal como a tentativa de mediação de Alain Juppé - já Copé desconfiava deste mediador, porque apesar de não ter tomado posição no conflito entre os chefes, Juppé pendia para Fillon. Mas o cavalheiro da política que é Fillon desferiu um golpe baixo ao criar um grupo parlamentar autónomo.

Meia centena de deputados que apoiaram Fillon lançaram ontem um apelo - com um ultimato até às 15h - para que Fillon dissolvesse o grupo parlamentar, e ao mesmo tempo se criasse uma comissão de sábios para discutir as condições de um referendo sobre a nova votação. Mas nada.

Com o maior partido da direita francesa já em fragmentação por causa deste combate dos chefes, a imagem dos líderes está a resvalar. Uma sondagem do Le Figaro mostra que a aprovação de Copé desceu de 61% para 44% entre os militantes da UMP, e de 26% para 20% no resto da população, enquanto Fillon desceu de 80% para 70% no seu partido e de 44% para 38% entre os franceses.

Agora que nem a intervenção de Sarkozy, conhecido pelas suas cóleras homéricas, resultou - "assistimos em directo à perda de autoridade política, moral e até mesmo física do antigo Presidente da República", escrevia Saïd Mahrane no site da  revista Le Point -, os militantes tentavam tomar as rédeas ao partido. Ontem à noite, algumas federações lançaram um apelo à união "para pôr fim a esta crise ridícula" e obrigar os dois rivais a aceitar uma nova eleição, dizia o Figaro.

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