Milhares de americanos queixam-se de não conseguirem votar na zona de Nova Iorque e de New Jersey. O culpado é o suspeito do costume dos últimos dias: o furacão Sandy. Várias pessoas lamentam ter esperado horas para poderem votar e outras nem conseguiram fazê-lo. E algumas perguntam: por que é que as eleições são à terça-feira e não ao fim-de-semana?
Depois de matar mais de 100 pessoas só nos EUA e de causar estragos no valor de pelo menos 20 mil milhões dólares (15,6 mil milhões de euros), o furacão Sandy ainda baralha os planos aos norte-americanos, particularmente àqueles que vivem na zona mais afectada: a cidade de Nova Iorque e arredores e o estado de New Jersey.
Ao longo do dia têm surgido relatos de locais de voto que foram alterados à última hora. Entre tantos outros, foi este o caso do liceu John Jay, em Nova Iorque, que costuma ser assembleia de voto para as pessoas que vivem naquela zona da cidade. Conforme informa o Wall Street Journal, o liceu está agora a servir de local de abrigo para várias pessoas que ficaram desalojadas por causa do furacão Sandy. Por uma questão de logística, os eleitores que depositariam o seu voto no liceu John Jay terão de fazê-lo agora noutro local, a mais dois quilómetros de distância. Esta alteração foi comunicada apenas na segunda-feira através da distribuição de folhetos.
Algumas assembleias de voto não têm electricidade e estão a ser iluminadas por geradores alimentados a gasolina. Falando em combustível, são poucos aqueles que têm conseguido abastecer as suas viaturas nos últimos dias. A solução encontrada pelas autarquias foi disponibilizar autocarros que apanham eleitores nas suas áreas de residência e que os levam até às assembleias de voto. Muitas pessoas têm-se queixado ao longo do dia nas redes sociais, argumentando que as soluções para estes problemas estão a ser feitas "em cima do joelho". O resultado, dizem, é uma situação"caótica" com filas de espera intermináveis e inéditas em qualquer eleição.
Em conferência de imprensa, a directora-executiva do Comité de Advogados pelos Direitos Civis, Barbara Arnwine, disse que "só há uma palavra para descrever a situação [eleitoral] em New Jersey e essa palavra é 'catástrofe'".
Caleb ia votar pela Internet, mas deu mensagem de erro
A lei americana permite que os membros do exército que estejam deslocados do território nacional votem por email. Para tal, precisam de enviar um pedido para um endereço de correio electrónico, a partir do qual lhes são enviadas as instruções para poderem votar.
Devido ao furacão Sandy, esta possibilidade foi aberta excepcionalmente aos eleitores registados no estado de New Jersey. Esta excepção foi anunciada na segunda-feira, véspera das eleições.
Caleb Williams, estudante na New York University e eleitor registado no estado de New Jersey, ficou contente por saber que tinha esta alternativa. “Neste momento não tenho maneira de ir até à minha cidade [fica no condado de Essex, em New Jersey] para votar. Não há comboios, também não há autocarros, e é impossível chegar lá de carro”, diz ao PÚBLICO por telefone.
No entanto, quando enviou um email para o endereço info@essexclerk.com, para o qual deveriam ser enviados os pedidos dos cidadãos para votarem por correio electrónico, Caleb recebeu uma resposta com uma mensagem de erro, que dizia que a caixa que contactara estava cheia. As autoridades locais disseram que estes emails podiam ser enviados para o email pessoal do autarca daquela zona. Para desgosto de Caleb, e de tantos outros eleitores do condado de Essex, voltou a receber uma mensagem de erro.
“Isto é incrivelmente frustrante. Estas são as minhas primeiras eleições, estava mesmo ansioso para poder participar nesta fase tão importante para os EUA da maneira mais eficaz, que é o voto, mas parece que isso não vai ser possível”, lamenta o estudante.
Votar à terça-feira não ajuda
A maior parte das pessoas vota, ou tenta votar, de manhã, antes de ir para o trabalho. As urnas abrem às 7h00, seguindo-se longas filas de espera, em que o sentimento de cidadania por participar num acto eleitoral é ladeado pela ansiedade de meter o voto na urna a tempo de chegar a horas ao trabalho.
Menos do que os queixosos, mas ainda assim em alguma quantidade, muitas pessoas reclamaram contra o facto de as eleições nos EUA serem à terça-feira, quando o resto do mundo o faz, por razões óbvias, ao fim-de-semana, geralmente ao domingo.
E quais são as razões para os EUA votarem à terça-feira? A explicação vem de uma lei de 1845, que surgiu para arranjar o dia mais conveniente para os processos eleitorais. Naquela altura, uma deslocação até às urnas podia significar uma viagem de dois dias, feita a cavalo ou numa carruagem. Entre dias religiosos (sábado e domingo) e dias marcados pelo negócio (quarta-feira era na altura dia de mercado), o dia mais conveniente era a terça-feira. Assim os eleitores podiam viajar na segunda-feira até ao local de voto e exercer o seu direito na terça-feira mesmo antes regressarem a casa a tempo de chegarem lá na quarta-feira.
Têm sido muitas as pessoas que, após passarem horas numa fila para poderem votar, se queixaram nas redes sociais de as eleições se realizarem à terça-feira, constatando que seria muito mais fácil ao fim-de-semana, altura em que a maior parte das pessoas não trabalha. Pode ser que a petição The Weekend Voting Act, cujos organizadores pretendem que esta questão seja discutida no Congresso americano, mude alguma coisa.

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