O Governo russo admite pela primeira vez que o regime de Bashar al-Assad está a "perder o controlo de cada vez mais território" e pode mesmo sair derrotado da guerra civil na Síria.
"Infelizmente, a vitória da oposição síria não pode ser afastada", admite agora Moscovo, que recusou condenar Assad na ONU e ainda nunca admitira a hipótese de uma derrota do regime alauita.
"Temos de olhar para os factos diante de nós. O regime e o Governo da Síria estão a perder o controlo de cada vez mais território", afirmou o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Mikhail Bogdanov, citado pela agência estatal RIA.
Apelando ao diálogo, Bogdanov antecipou que o conflito se vai tornar cada vez mais intenso e que milhares de sírios poderão morrer: "Se este preço vos parece aceitável pelo derrube do Presidente, o que é que podemos fazer? Nós consideramos que é inaceitável", afirmou.
As declarações do responsável russo seguem-se à confirmação por parte da Administração norte-americana de que as forças leais ao Presidente sírio dispararam mísseis Scud contra os rebeldes que tentam derrubar o regime. Segundo Washington, é a primeira vez que isto acontece em 20 meses de conflito.
“Caíram Scud na Síria”, disse à AFP um responsável sob anonimato. “Não posso confirmar que tipo de mísseis, mas vemos que actualmente estão a ser usados misseis”, confirmou a porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland.
“Numa altura em que o regime está cada vez mais desesperado, vemos como recorre a armas cada vez mais viciosas” acrescentou Nuland, denunciando igualmente “o uso de uma outra arma monstruosa, uma espécie de bomba barril que é uma bomba incendiária”. Para o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, “a ideia de que o regime sírio possa lançar mísseis sobre o seu próprio povo, no interior das suas fronteiras, é uma escalada militar assombrosa, desesperada e totalmente desproporcionada”.
Para o diário New York Times, a liderança síria “pode estar a calcular que pode recorrer a este tipo de armas letais sem receio de uma intervenção internacional em parte porque Washington estabeleceu a ‘fronteira’ no uso de armas químicas”.
As forças leais a Bashar al-Assad já lançaram bombas sobre zonas residenciais em inúmeras situações e um pouco por todo o país. Mas nunca tinham, que se soubesse, disparado mísseis contra os grupos rebeldes.
A confirmar-se que começaram a fazê-lo, isso acontece numa fase em que os combatentes da oposição têm multiplicado os pequenos sucessos no terreno, como a recente conquista de uma importante base militar no Norte da Síria, depois de um cerco de meses – ao mesmo tempo que a nova Coligação Nacional se vê reconhecida como “representante legítimo” do povo sírio por um grupo alargado de países árabes e ocidentais.
Damasco desmente
De Damasco chegou o desmentido: “O ministério dos Negócios Estrangeiros desmente categoricamente os rumores que afirmam que o exército sírio disparou mísseis Scud”, noticiou a al-Ikhbariya, um canal oficial de notícias.
“Toda a gente sabe que os mísseis Sucd são armas estratégicas de longo alcance e que não são utilizadas contra bandos de terroristas armados”, disse uma fonte do ministério citada por aquela televisão.
Mas esta quinta-feira, um oficial desertor que agora é comandante no Exército Livre da Síria, disse à AFP que a unidade do exército de Assad a que ele pertencia disparou vários mísseis Scud em direcção a regiões controladas pelos rebeldes.
O tenente Araba Idriss explicou que permanece em contacto com oficiais e militares do batalhão 578 da brigada 155, e que estes afirmaram ter disparado na segunda-feira cinco mísseis Scud a partir da base de Nassiriya, na estrada que liga Damasco a Homs (centro).
No terreno, a violência continua a fazer crescer o número de vítimas todos os dias. A explosão de um carro armadilhado esta quinta-feira de manhã em Qatana, a sudoeste de Damasco, matou pelo menos 16 pessoas e feriu 25, noticia a televisão libanesa Al-Manar.
Qatana faz parte de uma área formada por vários subúrbios da capital de onde as forças de Assad têm tentado expulsar os rebeldes. Ao mesmo tempo, a violência prossegue no interior da cidade de Damasco: na quarta-feira à noite, três bombas explodiram junto ao Ministério do Interior, matando cinco pessoas.
Desde Março de 2011, quando se realizaram as primeiras manifestações pacíficas em protesto contra Assad, já morreram 42 mil sírios, de acordo com a ONG Observatório dos Direitos Humanos, um grupo ligado à oposição.
Notícia actualizada às 14h39

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