Alguns líderes da rebelião taliban no Afeganistão manifestaram abertura para negociar um acordo abrangente de pacificação com as autoridades de Cabul, mas exigem o afastamento do Governo de Hamid Karzai, revela o diário britânico The Guardian que teve acesso antecipado a um relatório do think tank britânico Royal United Services Institute (RUSI).
O documento, baseado em entrevistas a líderes taliban feitas por aquele grupo de peritos em Defesa e Segurança, dá conta que algumas facções rebeldes se mostram favoráveis em cortar definitivamente todos os laços à Al-Qaeda e outros grupos terroristas a ela ligados, estão receptivos a negociar um programa de educação para as raparigas – algo que sempre esteve banido durante o regime dos Estudantes de Teologia – e aceitam discutir também a presença a longo prazo dos militares norte-americanos no país.
“Os taliban estão receptivos a discutir um cessar-fogo integrado num acordo geral [de pacificação], assim como a criação de uma ponte de entendimento envolvendo medidas de construção de confiança e a questão fulcral da distribuição do poder político no Afeganistão”, é mencionado no relatório, que será hoje mesmo divulgado publicamente.
Intitulado “Taliban Perspectives on Reconciliation” (Perspectivas dos Taliban sobre a Reconciliação), o relatório assenta nas consultas feitas com quatro comandantes dos rebeldes – que não são identificados, mas mencionando que dois foram ministros durante o regime dos Estudantes de Teologia e que permanecem no núcleo duro da liderança dos taliban no Afeganistão.
Um destes entrevistados, descrito pelo think tank como membro fundador dos taliban, frisou que o grupo poderá aceitar a continuação das operações de antiterrorismo dos Estados Unidos no Afeganistão que visam a Al-Qaeda, desde que as bases usadas por essas unidades não sejam usadas para lançar ataques contra outros países ou tenham alguma interferência na vida política afegã.
O RUSI sublinha, nas conclusões, que para os taliban um eventual acordo de cessar-fogo terá de ter uma “forte justificação islâmica”, sem nenhum sinal de qualquer espécie de capitulação ou derrota – numa altura, de resto, em que a violência no Afeganistão regista o mais grave nível desde a deposição do regime dos Estudantes de Teologia em 2001 pelas tropas internacionais. Para o Ocidente, por seu lado, é premente alcançar uma via de negociações, dados os planos de retirada até ao final de 2014 da maior parte do actual contingente de 100 mil soldados da Missão Internacional de Segurança e Assistência no Afeganistão (Isaf) que permanece naquele país.
A rebelião no Afeganistão tem mantido uma persistente oposição a negociar com o Presidente Hamid Karzai e nem tão pouco reconhece como válida a Constituição aprovada em 2003. Ainda assim, já há algum tempo que responsáveis da Administração norte-americana notam sinais de que a hostilidade dos taliban à ideia de negociações de paz tem vindo a diminuir.

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