Às retaliações de Israel, palestinianos respondem com iniciativa diplomática

Exército israelita faz rusga em ONG em Ramallah numa altura de tensão entre Israel e a Autoridade Palestiniana.

Sede da ONG Addameer, que dá apoio a palestinianos detidos por Israel, depois da operação dos militares israelitas Abbas Momani/AFP

Soldados israelitas entraram ontem em três organizações não-governamentais palestinianas em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, arrombando as portas e confiscando computadores.

Os palestinianos acusam Israel de, com esta operação na cidade que funciona na prática como capital palestiniana, estar a retaliar contra a votação que deu à Palestina estatuto de estado observador na ONU. O Exército israelita não fez comentários à operação.

“Isto acontece no contexto da decisão da ONU”, declarou Allam Jarrar, da Rede de organizações não-governamentais palestinianas, uma das ONG que sofreram rusgas, citado pela agência Reuters. Para além desta, as tropas israelitas entraram ainda numa organização de mulheres e noutra que defende detidos palestinianos em prisões israelitas.

Esta foi a primeira acção deste género numa cidade palestiniana desde a votação na ONU.

Operações nocturnas na Cisjordânia
Desde a concessão deste estatuto, a 30 de Novembro, tem havido tensão acrescida na Cisjordânia. O exército israelita tem levado a cabo operações nocturnas de detenção de palestinianos suspeitos, levando os habitantes a reagir com uma atitude de cada vez maior desafio aos soldados do Estado hebraico. Tem havido esporádicas trocas de tiros e pedras. Isto apesar de Israel e a Autoridade Palestiniana, liderada por Mahmoud Abbas, colaborarem em questões de segurança.

Israel apresentou o voto na ONU como uma acção unilateral dos palestinianos que prejudica a paz. Mas dos pesos pesados apenas Estados Unidos e Canadá pareceram concordar com o Estado hebraico, e a votação incluiu uma histórica abstenção da Alemanha (segundo a imprensa, porque não tinha conseguido assegurar garantias de Israel me relação ao congelamento da construção em colonatos). Reino Unido e França votaram a favor.

A "linha vermelha" dos colonatos
Israel reagiu anunciando de imediato mais construções em colonatos, incluindo um especialmente sensível, o chamado sector E1. Novas onstruções nesse local deixaria cortado o Norte do Sul da Cisjordânia, e ainda Jerusalém Oriental, que os palestinianos desejam que seja a capital do seu Estado.

A construção neste local sempre foi uma “linha vermelha” para os EUA, que conseguiram de antigos primeiros-ministros, de Ariel Sharon a Ehud Olmert, garantias de que não construiriam ali.

Mas os EUA apesar de criticarem o anúncio israelita, fizeram-no com uma suavidade que não condiz com a importância do anúncio, argumenta Peter Beinart, colunista no site Daily Beast e editor do OpenZion.com. O que parece indicar uma nova postura da Administração Obama: “negligência benevolente”, diz Beinart. O primeiro sinal disso teria sido o pouco empenho norte-americano na ONU (contrastando com a enorme pressão feita quando os palestinianos tentaram um ainda mais ambicioso pedido de Estado ao Conselho de Segurança, uma tentativa mais difícil que falhou). Este parece ter sido confirmado pelo facto do Presidente ter ficado silencioso sobre o anúncio da construção nos colonatos, mesmo tendo a administração sido informada por Israel com apenas algumas horas de avanço sobre o anúncio público.

Os EUA também não interferiram, diz Beinart, na forte resposta europeia (Paris e Londres chamaram os embaixadores de Israel nos seus países para lhes pedir esclarecimentos).

Pelo seu lado, os palestinianos não querem parar aqui. A mudança de estatuto abre possibilidades, nomeadamente na apresentação de resoluções ou acesso ao Tribunal Penal Internacional, mas no terreno tudo fica igual – ou pior.

Palestinianos lançam iniciativa diplomática
Assim, diplomatas palestinianos estão a lançar uma iniciativa para reavivar o processo de paz, cuja última tentativa começou e logo terminou no Outono de 2010 (devido à exigência palestiniana de que Israel páre de construir nos colonatos, e à recusa israelita em estender uma moratória à construção). Tentando capitalizar com a insistência de alguns países como o Reino Unido na necessidade de negociações, os palestinianos vão começar a contactar os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Reino Unido, França, China e Rússia) para “ver se há uma hipótese de processo de paz e em que princípios se deverá basear”, disse o negociar palestiniano Saeb Erekat à rádio oficial Voz da Palestina.

Os palestinianos insistem no congelamento na construção nos colonatos para negociar e não querem conversações sem fim, propondo um limite de seis meses para que se chegue a um resultado. 

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