Tsian Mengdi está sentada na sua sala com duas cadeiras e uma mesa, com ar inexpressivo. "Não consegui trazer a minha mãe", diz ela. "Prometeram que poderia trasladar o corpo, para um cemitério aqui em Badong, mas depois não houve tempo. Tivemos de sair à pressa, e ela ficou lá."
Tsian, de 52 anos, vivia na aldeia de Tchensi, na margem do rio, nos arrabaldes de Xinling. Em 1999 a aldeia desapareceu por completo, sob as águas do rio Yangtse, após concluída a segunda fase da construção da barragem Three Gorges.
Tsian e mais 20 mil pessoas foram trazidas para aqui, para a povoação de Huangti, situada numa zona elevada, perto de Badong. "Todos pensavam que aqui se estava bem", diz Zhong, o marido de Tsian. "Badong é uma região muito alta. Não foi afectada pela subida das águas. Bading e Xinling são das poucas cidades que resistiram e se mantiveram intactas. Ninguém pensou que toda esta terra começasse a desmoronar-se."
Nos últimos meses, desabamentos de terras têm ocorrido em várias povoações do concelho de Badong. "Um conjunto de mais de dez casas caiu ao rio", conta Tsian. "Foi aqui muito perto, há uns meses. Pelo menos cinco pessoas morreram. Desde essa altura, vivemos cheios de medo. Pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer pessoa."
Tema tabu
No local onde Tsian diz que as casas caíram, não há já qualquer vestígio do desmoronamento. As autoridades limparam os destroços, e foi construída uma barreira de betão na encosta. Mas várias pessoas confirmaram que houve ali uma tragédia, embora notoriamente se mostrassem relutantes em falar com um estrangeiro.
A atmosfera é muito tensa em Huangti, e em toda a região de Badong as pessoas não querem falar dos desabamentos. Mas confirmaram que estão a ser construídas várias povoações, para realojar quem está a viver nos locais considerados perigosos.
"Na aldeia onde vivíamos, tínhamos um terreno e plantávamos couves", conta Tsian. "Sempre vivemos lá, e os meus pais e os meus avós também viveram lá. Não queríamos sair. Mas a polícia disse: ou saem já, ou ficam debaixo de água. Foi então que eu perguntei pelos mortos. Que ia acontecer aos nossos familiares que estavam no cemitério? Eu queria levar a minha mãe comigo. O polícia disse que sim, que estava previsto levar os mortos. Disse-me que esperasse, que depois daria notícias. Mas nunca mais disseram nada. Eu não queria vir sem a minha mãe."
Tsian, Zhong e todos os habitantes de Huangti deverão ser movidos de novo ainda este ano. Sabem que está a ser construída uma nova urbanização, mas não lhes disseram onde era. Esperam com impaciência, porque têm sentido sismos e movimentos estranhos, principalmente durante a noite. "Por vezes, ouvimos um ruído horrível, que parece vir de baixo do chão. É uma espécie de estrondo, como se fossem rochas a quebrar. Temos muito medo."
As autoridades reconhecem que toda esta zona se tornou altamente instável, principalmente nos períodos em que há alterações nos níveis dos reservatórios. Mas têm optado por esconder os acidentes mais graves, para não espalhar o pânico, enquanto não são encontradas soluções.
Nesta região, como noutras à volta do vale do Yangtse, têm ocorrido sismos, desabamentos e inundações, que têm provocado a morte de dezenas de pessoas.
Em Novembro do ano passado, o chão cedeu, à entrada de um túnel do caminho-de-ferro, na cidade de Badong. Três mil metros cúbicos de pedras e terra caíram sobre uma auto-estrada. Um autocarro ficou soterrado, matando os 30 passageiros.
Em Miaohe, a terra por baixo de um conjunto de casas deslizou para uma fenda com 200 metros de profundidade, depois de o nível da água do reservatório ter sido baixado, para evitar as cheias de Verão. Os 99 camponeses tiveram de ser deslocados para um túnel na montanha, onde ficaram acampados durante três meses.
Em 2007, 48 pessoas morreram em consequência de desabamentos, na zona de Badong, segundo os jornais locais.
"Eu já não sei em quem posso confiar", diz Tsian. "Quem me garante que nessa nova casa, onde me vão pôr, há segurança? Eu acho que já ninguém sabe quais são os lugares seguros. Estamos em perigo em qualquer parte."
Três vezes deslocados
Hui Guotao, vizinho de Tsian e Zhong, já foi deslocado duas vezes. Primeiro para um bairro de Xinling, onde houve desabamentos, e depois para aqui. "Ando de um lado para o outro. Já não tenho trabalho, já não tenho amigos. Vamos para onde nos mandam. Dizem que isto é para a riqueza da China. Pois eu posso dizer que as populações de toda esta região ficaram mais pobres. Eles dizem que as pessoas foram para lugares melhores, de terras mais férteis, mas é mentira. As melhores terras ficaram debaixo de água. Toda esta região era óptima para a agricultura. Agora, tudo desapareceu. Só nos resta procurar trabalho numa fábrica. Mas é impossível, porque não sabemos onde vamos morar. Toda esta região está em perigo. Eles não dizem, mas a situação está completamente fora de controlo. As pessoas têm medo de falar. Eu não, porque já não tenho nada a perder. A minha vida perdeu todo o valor. Não me importa o que me possa acontecer."
Hui já se tinha mudado para a região de Wanzhou, antes de começar a construção da barragem. Tinha encontrado trabalho num armazém, quando recebeu ordem para partir. Como não era oficialmente residente naquela zona, não recebeu qualquer indemnização. Também não teve direito a compensação quando o mudaram de Xinling para Huangti. E agora vai sair outra vez sem nada. "Dantes as pessoas deslocavam-se para tentar melhores condições de vida. Agora, quanto mais avançamos, mais pobres ficamos. Sinto-me como se andasse a ser expulso de todo o lado, consecutivamente. Para terras cada vez mais distantes. Para lugar nenhum."
Tsian e o marido também não receberam indemnização. Antes têm direito a uma pensão mensal de 20 yuhan (menos de 3 euros), para compensar a perda das suas fontes de rendimento, na aldeia. "Não vale a pena protestar", diz Tsian. "Se dizemos alguma coisa, ainda nos tiram tudo. Conheço uma família que não concordou e escreveu uma carta, fez uma petição ao Governo.
O resultado foi a polícia ir lá a casa, e o pai e o filho mais velho foram presos durante dois meses. Depois retiraram-lhes o subsídio inteiro. Disseram que eles pretendem prejudicar o país, que são traidores, porque não pertencem ao partido, e só queriam provocar problemas."
Em Badong, o governo local prometeu criar sistemas de alarme para avisar em caso de derrocadas ou outros perigos. Noticiou também projectos para reforçar os terrenos nas imediações do rio, bem como outros para purificar as águas. Prometeu também criar um programa de compensações para os desalojados, que, segundo um relatório de peritos da região, se contarão por centenas de milhares de pessoas nos próximos anos.
Um outro relatório publicado pelo Governo admite que ainda não estão totalmente quantificados os problemas ecológicos provocados pela barragem. "Há muitos perigos escondidos, ecológicos e ambientais, novos e antigos, relacionados com a barragem Three Gorges", dizia o relatório. "Se medidas preventivas não forem tomadas, o projecto pode desembocar numa catástrofe."
Na cidade de Yitchang, onde se situa, pelo menos teoricamente, o quartel-general da China Three Gorges Project Corporation, na sede da empresa em Pequim, e também em Lisboa, através da EDP, onde a empresa chinesa detém uma importante participação, o PÚBLICO tentou obter depoimentos sobre a situação ambiental na região. Mas nunca obteve resposta a telefonemas e emails. No departamento de comunicação da EDP foi-nos dito que não seria possível fazer uma reportagem sobre a Three Gorges.
Império Three Gorges
A China Three Gorges Project Corporation (CTGPC) é uma empresa estatal. Foi fundada em 1983, com o propósito de explorar os recursos hidro-energéticos do vale do rio Yangtse, mas com a ambição de se tornar um "conglomerado moderno, de nível mundial, com a sua principal área de negócio no desenvolvimento e operação de gigantescos recursos hidroeléctricos".
A CTGPC criou também uma empresa financeira, a Three Gorges Financial Company, e mais oito empresas-satélites, que operam nas áreas do turismo, consultoria de projectos, tecnologia energética, gestão de propriedades, etc., na China e noutros países, onde a empresa tem alargado os seus interesses.
Dos princípios da empresa, expostos nos textos do seu website, fazem parte ainda uma "perspectiva científica do desenvolvimento, que significa um desenvolvimento de uma forma harmoniosa e sustentável".
No ano passado, no âmbito da política de privatizações do Governo português, a China Three Gorges Project Corporation adquiriu 21,35% da EDP, a empresa de electricidade portuguesa, por 2,7 mil milhões de euros. Com este investimento, aliado à entrada da State Grid no capital da REN e a compra pela Sinopec de 30% da subsidiária da Galp para exploração petrolífera no Brasil, a China tornou-se no maior investidor estrangeiro em empresas portuguesas.

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