A capital do Egipto, o Cairo, pode tornar-se nesta terça-feira um campo de batalha entre as forças islamistas e a oposição secular. Os dois lados marcaram manifestações, que esperam que sejam grandes, a favor e contra o referendo à Constituição, de inspiração islamista, marcado pelo Presidente Mohamed Morsi para 15 de Dezembro.
"Ao contrário do que aconteceu há um ano [quando o autocrata Hosni Mubarak e o regime foram derrubados], o Egipto não está unido contra o Presidente. Até alguns dos seus opositores aceitam que Morsi foi democraticamente eleito. Exigem mudanças políticas, não necessariamente a queda do Presidente", escreve nesta manhã o correspondente da BBC no Cairo, John Leyne.
Porém, é o que muitos precisamente defendem: a partida de Morsi, apesar de este ter anulado o decreto que lhe garantia plenos poderes e o colocava acima da lei.
Com o argumento de que é necessário garantir a estabilidade durante o referendo à Constituição – cujo conteúdo é contestado pela oposição e parte da população –, Morsi reforçou os poderes dos militares que, até agora, se mantiveram à margem desta nova guerra entre o novo chefe de Estado e parte do país.
A lei n.º 107 autoriza o Exército a usar todos os meios necessários para defender os edifícios governamentais – incluindo o palácio presidencial do Cairo, que tem sido palco de grandes manifestações e confrontos nos últimos dias – e efectuar as detenções necessárias para salvaguardar a segurança.
“As Forças Armadas têm de apoiar e cooperar com a polícia para preservar a segurança e proteger as vitais instituições do Estado durante um período temporário, até ao anúncio dos resultados do referendo à Constituição”, lê-se no comunicado do Governo de Morsi.
A oposição contestou o novo decreto e os analistas disseram que era um prenúncio de uma nova onda de contestação e violência. Esta terça-feira será um teste aos militares egípcios.
"Tendo em consideração o histórico do Exército enquanto esteve no poder (mais de 120 manifestantes mortos e mais de 12 mil civis julgados injustamente em tribunais militares), isto [os novos poderes do Exército] abre um precedente grave. Com este decreto, reminiscente da lei do Estado de Emergência que foi revogado, os cidadãos podem ficar detidos seis meses em resultado de acusações ilegítimas", disse ao jornal The Guardian a responsável da Amnistia Internacional, Hassiba Hadj.

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