Diz que a Igreja ou está presente nas situações de tensão ou é infiel à sua missão. Henri Teissier, um dos maiores especialistas do diálogo islamo-cristão, era o arcebispo católico de Argel quando foram assassinados os sete monges de Tibhrine, acontecimento que deu origem ao filme Dos Homens e dos Deuses, estreado há um ano.
A Primavera árabe deixa esperar a construção de uma sociedade democrática, diz o ex-arcebispo católico de Argel, que estava no cargo quando foram mortos os sete monges de Tibhirine. Antes de chegar a Portugal, na semana passada, o bispo, um dos maiores especialistas no diálogo islamo-cristão, esteve num simpósio em Istambul, a convite do Governo turco, para debater as recentes mudanças em países árabes e muçulmanos. E confessa-se optimista quanto às consequências dessas mudanças. Esteve em Portugal nos últimos 12 dias para falar em Lisboa, Porto e Braga da experiência dos monges de Tibhrine e apresentar o livro que escreveu a partir do diário de um deles: Christophe Lebreton – Monge, Mártir e Mestre Espiritual para os Nossos Dias (Consolata Editora).
PÚBLICO - Conta no seu livro que o padre Christian de Chergé, prior de Tibhirine, lhe pediu para falar com todos os monges para saber se eles ficavam no mosteiro por decisão livre. Como acompanhou os acontecimentos que levaram ao massacre?
HENRI TEISSIER – Recebi uma condenação à morte, a 29 de Outubro de 1983, assinada pelo GIA [Grupo Islâmico Armado], declarando que todos os [cristãos] que não partissem antes de 1 de Dezembro seriam assassinados. Os monges não eram os únicos a ser ameaçados: toda a comunidade estrangeira e, particularmente, a comunidade cristã, estava ameaçada. Tínhamos encontros regularmente para reflectir sobre a situação, ver as precauções a tomar, apoiarmo-nos nessa etapa e afirmar também a liberdade de cada um de partir ou ficar.
Sentiu-se também ameaçado?
Estávamos todos ameaçados. Houve religiosas assassinadas quando iam à missa ou quando regressavam, outros no local de trabalho ao serviço de jovens, outros nas suas casas. Não sabíamos quem ia ser atingido e quando. O que o filme [Dos Homens e dos Deuses] não pode mostrar é que os monges não eram os únicos a viver nesse ambiente de ameaça.
Foram tempos difíceis...
Não eram apenas os cristãos a ser ameaçados, era toda a sociedade argelina. Os que estavam do lado do Estado eram ameaçados e os que estavam do lado dos islamistas eram ameaçados pelo exército e pelas forças da ordem. Eu ia ver os monges cada dois ou três meses para reflectir sobre a situação. Mas ia sozinho, de carro, por pequenas estradas, também podia ter sido morto.
Todos se sentiam implicados?...
Essa reflexão sobre a fidelidade cristã ao povo argelino, nesse período, foi a reflexão de toda a Igreja. Quando os monges foram raptados, havia 12 pessoas pertencentes a um grupo chamado Ribat es-Salam, o laço da paz, que tinham ido [ao mosteiro] para um encontro.
Foi a primeira vez, ao fim de dois anos, que Christian permitiu que o encontro se fizesse em Tibhirine, porque ele tinha a impressão que o perigo era menor. Aparentemente, os terroristas não sabiam que este grupo estava na hospedaria ou então só tinham ordem para levar os sete monges e foi isso que fizeram.
Há mais de dois anos, houve manifestações na Argélia contra a subida dos preços mas isso, depois, parou. Porquê?
Em 2010-2011, quando houve as revoltas na Tunísia e depois no Egipto, Iémen e Bahrein, houve numerosas manifestações, em particular em Argel, suscitadas nomeadamente pela Liga dos Direitos do Homem e pelo partido RCD (Rassemblement, Culture, Démocratie). Mas essas manifestações foram severamente contidas pela polícia: havia algumas centenas de manifestantes para 30 mil polícias.
A população gostaria que as coisas mudassem, mas, entre 1992 e 2000, houve talvez 150 mil a 200 mil mortos [na guerra civil]. Ninguém quer regressar à violência. O que se passa na Síria encoraja ainda mais as pessoas a não reclamar a mudança pela violência. O Presidente [Abdelaziz Bouteflika] termina o seu mandato em 2014 e já disse que a sua geração já teve o seu tempo. Por isso, manifestar-se ou revoltar-se para fazer cair um poder que está no fim arrisca-se a ser mais grave do que o que se passará em 2014.
É o medo da violência e do regresso da guerra civil que pode contrariar o desejo de mudar a situação?
Há o medo de voltar a cair num período de violência como o que conhecemos e foi extremamente duro. A Argélia tem o dinheiro do petróleo e os serviços essenciais estão assegurados: educação nacional, hospitais, estradas, portos, aeroportos, prestações sociais... Os salários são muito baixos, uma parte da população vive dificilmente mas, em média, o dinheiro do petróleo permite [satisfazer as necessidades básicas].
É um país ainda de muitas desigualdades e injustiças sociais?
O salário mínimo são 15 mil dinares, cerca de 150 euros. Não é grande coisa. Claro que ao lado disto há pessoas que trabalham no sector liberal e têm meios consideráveis. Apesar de tudo, estamos perante um Estado que constrói habitação social – a habitação é a primeira grande dificuldade. As pessoas podem conseguir alimentar-se mas não conseguem pagar um aluguer se não for um alojamento social.
Houve um importante número de pequenas revoltas, em algumas localidades, quando se publicou a lista daqueles a quem foi atribuído um alojamento. A população considera que essas atribuições são sempre feitas na base de conhecimentos e não na base de uma verdadeira necessidade.
Podemos falar de bons resultados das primaveras árabes?
Na Tunísia, os liberais consideram que conseguirão enfrentar os islamistas. Encontrei mesmo alguns responsáveis dos islamistas – por exemplo, em Istambul [há duas semanas] estava o [fundador e presidente do Partido] Ennahda, Rached Ghannouchi. As propostas que eles fizeram não são de todo as que os islamistas argelinos tinham em 1990-91.
No encontro em Istambul, uma grande parte do debate foi sobre as relações entre cristãos e muçulmanos. E eles afirmaram que as novas sociedades devem construir-se em conjunto e no respeito de uns pelos outros, Insistiram também no diálogo entre as diferentes correntes – não apenas entre cristãos e muçulmanos, mas também entre diferentes correntes muçulmanas e diferentes correntes cristãs.
Estavam lá a maior parte dos altos responsáveis do islão árabe. E foi muito grande a insistência sobre o facto de que era preciso conduzir o diálogo a todo o preço, com todas as tendências de opinião: árabes, salafistas, islamistas, liberais, etc. Podemos, portanto, esperar que essas mudanças que deram uma maioria aos islamistas em Marrocos, na Tunísia, no Egipto, poderão desobstruir num verdadeiro diálogo entre as diferentes correntes.
Mas não há riscos?
Claro que um incidente pode sempre acender um rastilho. O ambiente [na reunião de] Istambul, foi o de dizer “queremos dialogar para construir juntos as nossas nações”. Isto incluía os libaneses, onde havia sunitas, representantes do Hezzbolah e de diferentes tendências cristãs.
Esta Primavera árabe deixa esperar a construção de uma sociedade democrática. Na Argélia, em 1991, os islamistas queriam impor pela violência o seu projecto. E foi isso que foi contrariado. Por enquanto, mesmo se alguns pequenos grupos procuram fazê-lo, os islamistas no poder não querem impor pela violência o seu projecto.
É muito cedo para dizer que, como os islamistas estão no poder, já não há democracia. Não é de todo o caso nem na Tunísia nem no Egipto.
Mas os comentários dominantes na Europa é que a esperança da Primavera árabe acabou…?
De facto, creio que há um pouco esse sentimento na Europa. Não foi o que encontrei na Tunísia e não foi o que vi nesse encontro, onde havia 150 responsáveis de sociedades árabes, na diversidade das suas correntes e pertenças religiosas. Todos expressavam a vontade de construir uma nova sociedade, deixando a palavra aos outros.
É esse desconhecimento sobre a diversidade muçulmana que leva a pensar que não é possível dialogar com o islão?
Dou-lhe um exemplo concreto: no último jantar, os delegados argelinos [quatro muçulmanos, além de mim] sentaram-se com os iranianos para dizer o que pensavam da crise síria, dizendo que não podemos apoiar um poder que bombardeia o seu próprio povo. Os libaneses pediram também para falar com pessoas do Hezzbolah, sobre o apoio ao poder sírio.
Creio que a Europa julgou um pouco depressa que os islamistas tiveram a maioria nas eleições e que não havia mais esperança de pluralismo democrático nas suas sociedades.
E tem esperança que assim não seja?
Os islamistas ganharam porque no campo e nas periferias das cidades as pessoas acreditam ainda que a religião é que as vai salvar. Mas nos meios intelectuais e nas classes médias há muita gente que quer uma sociedade democrática que respeite a diversidade.
No encontro em Istambul, um dos temas maiores de debate era: podemos fazer uma sociedade islâmica fazendo uma sociedade democrática? Alguns diziam: não, temos que ter um Estado secular; os islamistas diziam: podemos fazer um Estado islâmico que respeite os direitos das diferentes correntes. A questão está em debate aberto.
É possível também o diálogo entre cristãos e muçulmanos?
Achei muito positivo que o Estado turco, querendo ajudar a reflectir sobre as primaveras árabes, tenha insistido que essa reflexão se fizesse com cristãos e muçulmanos. A vontade de todos os que estavam no encontro era de poder viver em conjunto, cristãos e muçulmanos. Mas ainda é difícil fazer compreender aos cristãos que o islão é diverso e, aos muçulmanos, que o cristianismo não é um islão anacrónico, que [repete] a mesma mensagem.
Mas depois vemos as perseguições aos cristãos no Paquistão ou na Nigéria, a morte de coptas no Egipto... O que é preciso para um verdadeiro diálogo entre cristãos e muçulmanos?
Em primeiro lugar, não temos que globalizar. O que tem acontecido no norte da Nigéria é grave, mas há dezenas de milhões de cristãos e dezenas de milhões de muçulmanos no país que não aceitam essa pequena corrente e lutam por uma sociedade que coexista nas suas diferenças.
É o que dizia o padre Christophe, quando pedia para distinguir entre o islão e as caricaturas do islão?
Sim, trata-se de valorizar o encontro entre pessoas onde ele existe. Uma das razões pelas quais escrevi este pequeno livro foi para mostrar como um monge que trabalha como jardineiro, com alguns vizinhos enraizados no islão tradicional pode conseguir comunicar e dizer coisas significativas. Isto não resolve o problema de tudo o que se passa na Argélia, mas manifesta que, num dado lugar, quem respeite os seus parceiros, pode falar com eles e pode mesmo partilhar coisas com significado espiritual.
O facto de os monges terem sido eliminados deste mosteiro por um grupo extremista deve ser relacionado com o facto do grupo da Al-Qaida na região ter recusado prendê-los. Foi preciso ir buscar outro grupo.
Nem uma pedra do mosteiro foi tocada pelos vizinhos depois de 1996. No mesmo ano, três mosteiros cistercienses foram atacados – na Argélia, no Congo e em Angola. Nos do Congo e Angola, a população vizinha, cristã, levou tudo, nada resta. Em Tibhirine, 16 anos depois, o mosteiro continua lá e a população espera que possamos encontrar uma comunidade que vá para lá. Os laços estabelecidos entre os monges e os vizinhos resistiram ao tempo e as pessoas acolheram com muita atenção o padre que está lá agora e que escreveu um livro com o título O Jardineiro de Tibhrine.
É possível a coexistência pacífica mesmo se, no fim, os monges são mortos?
Sim, mas eles não foram mortos pelos vizinhos, nem pelo grupo armado da região. Foram mortos por um grupo extremista enviado do exterior e que não os reconhecia. Há testemunhos que dizem que, ao fim de poucos dias, os que os raptaram foram tocados pelo seu testemunho e que foi preciso enviar um terceiro grupo para os suprimir. Isto, se se confirma que foram islamistas que os mataram, porque há outras hipóteses [há quem acuse sectores do exército].
Não é normal ver, na Europa, monges ligados de uma tal maneira ao quotidiano das pessoas. É possível também um outro modelo de vida monástica?
Sim, porque podemos ver que os mosteiros na Europa não têm senão relações com os amigos dos monges, que vêm de longe, e não forçosamente com a vizinhança. E isso foi um resultado dessa pequena comunidade: poder estabelecer uma relação de confiança, de colaboração, de serviço recíproco com os vizinhos muçulmanos.
Quando fui de novo ao mosteiro, dois anos depois do rapto dos monges, com o responsável da ordem cisterciense, perguntar ao chefe da aldeia se podíamos reenviar uma comunidade – pois não queríamos colocar a população em perigo –, eles responderam: o perigo está aí; se estiverem cá [os monges], viveremos com esperança; se não estiverem, viveremos sem esperança.
Esta relação entre as pessoas, em que umas são muçulmanas e outras cristãs, num período extremamente grave, é o testemunho destes monges de Tibhirine. Mas é preciso saber que esta relação era vivida por todos os outros membros da comunidade cristã, de Argel, junto ao mar, até Tamarasset, no Sara…
Onde viveu e foi morto o padre Carlos de Foucauld [fundador dos Irmãozinhos de Jesus].
Sim, onde ele viveu e onde está uma comunidade dos Irmãozinhos de Jesus que tem a mesma relação. Tal como os [cristãos] que vivem desde Tébessa (na fronteira tunisina) até Tlemcen, onde eu vivo [no oeste, junto a Marrocos]. O que os monges conseguiram era o que toda a comunidade cristã procurava, na Argélia, e uma boa parte dela, mesmo nos países vizinhos – Marrocos, Tunísia, Líbia – vive também.
A Igreja líbia, quando o país foi atacado, manteve-se no país. E com o novo poder, os cristãos continuam a assegurar o serviço à sociedade. Na África do Norte, há uma tradição que dura pelo menos há 50 anos, mesmo mais, de a Igreja servir todo o povo, mesmo o povo muçulmano.
O problema do islão, hoje, não é aquele que a Igreja Católica teve durante séculos – a falta de exegese do texto sagrado, do Alcorão?
Em muitos países muçulmanos, o islão está ligado às suas raízes tradicionais, sobretudo para aqueles que fizeram todos os seus estudos numa língua muçulmana – árabe, persa, urdu… Mas podemos esperar que, com a generalização do ensino e, em particular, do ensino superior, pouco a pouco haverá uma outra relação com o texto escrito.
Há um religioso que estava no Irão e foi expulso do país; no Cairo, aplicou ao Alcorão um método de leitura baseado num método de leitura da Bíblia. Publicou o livro e, meses depois, recebeu uma carta da embaixada do Irão no Cairo dizendo que o livro era o melhor livro religioso publicado nesse ano e convidando a ir receber o prémio das mãos do Presidente [Mahmoud] Ahmadinejad e a fazer conferências sobre o seu método de análise.
O Papa [esteve] no Líbano. Como olhou para esta viagem?
É importante verificar que a sociedade libanesa aceitou esta viagem num momento em que a situação é tão grave: a Síria está atravessada pela violência e os libaneses estão divididos, uns apoiando o poder sírio, outros apoiando os rebeldes.
A maioria dos libaneses, na diversidade das suas comunidades, vê esta visita do Papa como positiva e espera que ela sirva à paz. Vem na continuidade do Sínodo sobre o Médio Oriente…
Pode haver consequências positivas da viagem?
É nas situações de tensão que a Igreja deve estar presente, mesmo se ela assume riscos para tentar anunciar a sua mensagem de paz, de respeito recíproco. Se evitarmos as situações delicadas para não falar senão no tempo em que ninguém precisa de uma mensagem, a Igreja é infiel à missão que recebeu.

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