Dúvidas persistem sobre saúde de Mandela "em recuperação"

Desde que Nelson Mandela entrou há uma semana no hospital, têm-se sucedido informações contrárias, falsas ou a ausência delas. O filme parcial dos acontecimentos não é suficiente para perceber qual o verdadeiro estado do herói de 94 anos.

Nelson Mandela terá sido operado este sábado Reuters

Ao oitavo dia de internamento do ex-Presidente Nelson Mandela, que todos chamam carinhosamente de Madiba, um lacónico comunicado do Governo da África do Sul informa este sábado que o herói da luta anti-apartheid se submeteu horas antes a uma intervenção para remover pedras na vesícula, através de uma endoscopia. “A intervenção foi bem-sucedida e Madiba está a recuperar.”

A declaração oficial serve para quebrar o silêncio e acalmar especulações depois da confusão lançada por informações oficiais contraditórias ou total ausência delas. Mas não evita reacções à forma como as autoridades de Pretória estão a gerir a informação sobre o ex-Presidente desde que foi internado há uma semana para tratar uma infecção pulmonar. Muito do que os media têm relatado, num país em suspenso à espera das melhoras de Mandela ou da notícia da sua morte, põe em evidência o secretismo oficial sobre o assunto e os rumores incertos a que esse secretismo dá azo.

O Fórum Nacional de Editores da África do Sul acusou este sábado o Governo de falhar o acordo confidencial (com que se comprometera há meses) e que previa que os media recebessem informações completas sobre a saúde de Mandela. Em troca, garantiriam também o respeito à privacidade do ex-Presidente e sua família. O Fórum fez saber, num comunicado citado pela agência noticiosa sul-africana SAPA, que o Governo quebrou o compromisso ao não cumprir o acordo. Os porta-vozes da presidência e do ministério da Defesa, instituições envolvidas nas negociações do protocolo, disseram não poder comentar o assunto.

No acordo, o Fórum comprometia-se a tratar de forma responsável a informação recebida. Durante a semana, porém, a emissora eNCA foi obrigada a pedir desculpa pela forma como tentou fazer passar uma entrevista de Graça Machel, de 2009, como sendo de agora, em que dizia ser triste ver o marido, com o tempo, perder o brilho no olhar, o que induziu em erro muitas pessoas. 

Nome falso em hospital incerto
Muito pouco ou nada se sabe ao certo sobre Mandela. Nem mesmo em que hospital estará o ex-Presidente, depois de na segunda-feira a ministra da Defesa ter falado no Hospital Militar de Pretória, para dias depois toda a comunicação social sul-africana afinal se dar conta de que o ex-líder estaria afinal no Mediclinic Heart Hospital. A confusão foi tal que a imprensa chegou a noticiar que o ex-Presidente tinha dado entrada no hospital sob pseudónimo.

A presidência de Jacob Zuma, através do porta-voz Mac Maharaj, não pediu desculpas mas insistiu em como a privacidade do Presidente era da máxima importância.

Também na sexta-feira, e depois de, na véspera, a movimentação de várias viaturas blindadas em volta do Hospital Militar ter sido interpretada por alguns como sinal de que Mandela teria tido alta, a presidência informou que Mandela continuava internado.

O jornal i deste sabado escreveu que o ANC, partido de Mandela e do Presidente Zuma, “pode estar a ocultar a situação clinica de Mandela”. Uma fonte anónima avançou ao jornal que Mandela teria já morrido, na passada quinta-feira, e que o ANC estava a esconder a notícia para evitar o caos a dois dias do congresso do partido. Outra informação colhida pelo jornal dava conta, pelo contrário, de que Mandela estaria vivo mas que o seu estado era “muito grave".  

A data da entrada no hospital é porém consensual: sábado, dia 8, dia em que Mandela terá sido transportado de avião para Pretória da sua casa na aldeia natal de Qunu, na província do Cabo Oriental, onde vivia há uns meses por aí se sentir “mais feliz” e onde estão sepultados os seus antepassados.

O tema da sua lucidez também é tabu, como o é o dos preparativos oficiais para um funeral de Estado como é raro alguém ter, e que não deixaria nada ao acaso, nem em grau de homenagem nem em nível de segurança. Se alguns temem que o país entre em convulsão, logo após a morte de Mandela, outros dizem que é ofensivo para a África do Sul e para o próprio líder histórico sugerir tal coisa. “Mandela é uma grande figura. (…) Mas Mandela é mortal. Também está velho. Além do mais, muitas pessoas muito velhas começam a perder as faculdades mentais (…) É um insulto para Mandela sugerir que o legado do tempo dele em vida irá descarrilar quando desaparecer”, escreveu esta semana no jornal britânico The Guardian o jornalista Nathan Geffen.

Ao PÚBLICO, há uns meses, Thierry Vircoulon, investigador associado do Institut Français des Relations Internationales e co-autor de L’ Afrique du Sud de Jacob Zuma (L’Harmattan) realçou a propósito do possível desaparecimento de Nelson Mandela: “A nova África do Sul não vai desaparecer com ele, precisamente porque ele fez um excelente trabalho enquanto pai fundador dessa nova África do Sul.”

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