Desmond Tutu: “Não vou votar no ANC”

Arcebispo critica partido do poder, pede uma “verdadeira democracia” e diz aos sul-africanos para se prepararem para a morte de Mandela

Desmond Tutu está preocupado com a qualidade da democracia na África do Sul Brian Snyder/Reuters

O arcebispo anglicano sul-africano e prémio Nobel da Paz, Desmund Tutu, anunciou nesta sexta-feira que vai deixar de votar no ANC, o partido que Nelson Madela levou ao poder na África do Sul há 19 anos.

“Votei todos estes anos no ANC [Congresso Nacional Africano] mas infelizmente não vou poder votar neles, tendo em conta o modo como as coisas estão a correr”, declarou o arcebispo num artigo de opinião publicado no jornal Mail & Guardian.

“O ANC esteve muito bem na condução da luta de libertação contra a opressão (…)”,  escreve Tutu. “Mas a unidade forjada no combate para a libertação não facilita a transição para um partido político”.

“Precisamos de uma mudança”, escreve o arcebispo, que pede alterações no sistema político sul-africano para que as pessoas deixem de votar no partido (sistema de representação proporcional) e passem a eleger deputados por círculos. “Os que estão hoje no Parlamento respondem primeiro ao partido e depois aos eleitores”, critica Desmund Tutu.

No texto do Mail & Guardian, o arcebispo começa por preparar os sul-africanos para a morte de Nelson Mandela. “Ele tem 94 anos e viveu tempos difíceis, Deus foi muito bom por o ter deixado para nós estes anos todos. Mas a dor da sua perda será demasiado intensa se não começarmos já a preparar-nos para este acontecimento que pode dar-se a qualquer momento.”

“O país será muito mais um garante da herança de Mandela se, na realidade, aplicar os seus ideais”, avisa Tutu. “A melhor homenagem a Mandela será ter uma democracia real e em marcha” na África do Sul.

A 27 de Abril de 1994, o ANC venceu as primeiras eleições multirraciais pós-apartheid na África do Sul, e a 10 de Maio de 1994, Nelson Mandela tomou posse como o primeiro Presidente negro da história daquele país.

Oficialmente na reforma, o arcebispo Tutu, de 81 nos, continua a fazer ouvir a sua voz contra as injustiças e ainda hoje é considerado como a consciência moral do país. Nos últimos anos não se tem esquivado a criticar duramente o partido no poder.

Em 2011, manifestou a sua irritação com o Governo sul-africano, que não deu um visto de entrada no país ao líder espiritual dos tibetanos Dalai Lama, convidado para o aniversário dos seus 80 anos, para não prejudicar as relações com a China.

Em 2009 também já tinha ameaçado não votar nas legislativas por causa das divisões e lutas de poder no interior do ANC.
 
 

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