O primeiro-ministro britânico, David Cameron, foi acusado de trair os que viram as suas vidas devassadas pelos tablóides, ao declarar-se contra a criação de uma lei de imprensa. A medida é uma das recomendações centrais da comissão que ele próprio criou para avaliar a ética nos jornais e que, segundo o seu autor, é essencial para garantir a eficácia de uma nova entidade de supervisão.
"Acho, infelizmente, que ele sabe quem são os seus amigos - os seus amigos nos media - e não está realmente preocupado com as vítimas", disse ao Guardian Jane Winter, activista dos direitos humanos que viu alguns emails interceptados por jornalistas do News of the World.
O tablóide de Rupert Murdoch foi encerrado no Verão de 2011, após a descoberta de que interceptara centenas de telefones, incluindo o de Milly Dowler, uma adolescente assassinada em 2002. Cameron, acrescentou Winter, "disse coisas simpáticas sobre pessoas que sobreviveram ao inferno, como os Dowler, mas não acreditou numa única palavra do que disse". "Se assim fosse, iria aplicar as recomendações."
As palavras da activista ilustram a indignação partilhada por muitos dos que foram visados pelas escutas ou dos que foram vítimas de comportamentos "inadmissíveis" dos tablóides - a expressão é do juiz Brian Leveson, responsável pelo inquérito, no relatório em que concluiu que os mecanismos de auto-regulação da imprensa falharam e têm de ser substituídos por um organismo independente, com poderes assentes na lei.
Mas Cameron disse pouco depois no Parlamento que, apesar de concordar com o diagnóstico de Leveson, temia que, ao legislar sobre a imprensa, se estivesse a abrir a porta à intromissão política no sector.
"Cameron lidera a luta pela liberdade", escreveu o Daily Mail, no mais rasgado dos elogios que a maioria da imprensa, sobretudo a tablóide, fazia ontem à reacção do primeiro-ministro. Mas, do outro lado, as reticências do líder conservador soam a desilusão. "Estou com um grupo de vítimas [das escutas] a ouvir o PM. A palavra segredada é traição", escreveu no Twitter o actor britânico Hugh Grant, uma das celebridades que dão a cara pela criação de um regulador para a imprensa com autoridade legal para punir infractores.
"O primeiro-ministro está mais preocupado em garantir que a imprensa esteja contente, do que com as vítimas dos abusos da imprensa", disse à BBC Christopher Jefferies, falsamente acusado de ter matado uma jovem, em 2010.
A estratégia do Governo passa por convencer os grupos de comunicação a aceitar a supervisão de uma nova entidade de regulação, que Leveson quer que seja independente dos jornais e do parlamento, e a aprovar um novo código de conduta. "A nossa visão é a de que não precisamos de legislação para atingir os mesmos objectivos", disse a ministra da Cultura, citada pela BBC. Maria Miller revelou já ter iniciado contactos com todas as partes a fim de apresentar uma proposta de lei - uma tarefa que a própria admite que se destina a "mostrar o quão difícil é tentar legislar sobre uma matéria tão complexa e controversa".
O pressuposto levou a oposição trabalhista a acusar o executivo conservador de estar a preparar um projecto que visa descredibilizar o debate: "Algo semelhante ao que a Stasi [polícia secreta da RDA] teria escrito", disse à BBC uma fonte do partido. A sugestão irritou também os parceiros de coligação, defensores de uma nova lei, e levou o gabinete do vice-primeiro-ministro, Nick Clegg, a emitir uma nota, na qual afirma que os "liberais-democratas tudo farão para que a lei seja redigida com boa-fé".

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