Cooperação internacional forçou Assad a recuar no fabrico de armas químicas

Imagens recolhidas em Novembro indicavam que forças sírias estavam a preparar ogivas com material tóxico, noticiou o New York Times. Trabalhos foram suspensos depois de avisos de Obama e recados enviados a Damasco pela Rússia

A NATO decidiu enviar sistemas antimísseis Patriot para a Turquia tendo como pano de fundo a ameaça das armas químicas sírias Christian Charisius/AFP

A notícia, sem confirmação oficial, pode ajudar a explicar os recentes avisos feitos ao Presidente sírio, Bashar al-Assad, para que não ouse usar os arsenais de armas químicas contra as zonas controladas pelos rebeldes. Segundo o New York Times, imagens de satélite recolhidas no final de Novembro por Israel e partilhadas com os Estados Unidos indicavam que as forças sírias estariam a misturar produtos químicos e a introduzi-los em munições aéreas, criando condições para que um ataque fosse lançado em poucas horas.

O diário nova-iorquino – que diz ter falado com responsáveis militares, diplomáticos e dos serviços de informação dos EUA – relata que a suspeita levantada pelos militares israelitas gerou alarme na Casa Branca e desencadeou “uma assinalável demonstração de cooperação internacional” face a um conflito que, em quase dois anos, não mereceu qualquer consenso das grandes potências e continua a dividir os países vizinhos.

Nos dias seguintes, o Presidente norte-americano veio a público avisar Assad de que o uso de armas químicas no confronto com os rebeldes seria “totalmente inaceitável” e traria “consequências” para o regime de Damasco. “O mundo está atento”, avisou o Barack Obama.

O recado de Washington foi secundado por outros países ocidentais, ao mesmo tempo que, escreve o NY Times, a Rússia e outros países que ainda mantêm relações com Damasco, como o Iraque e a Jordânia, enviaram a Assad e aos seus comandantes militares “mensagens privadas ainda mais assertivas”. Em Bruxelas, a NATO aprovou um pedido da Turquia para o envio de mísseis antimísseis Patriot para as imediações da fronteira com a Síria – uma transferência que os aliados justificam com a necessidade de defender o território turco de incidentes como a queda de rockets trocados nas batalhas junto à fronteira, mas que tem como pano de fundo o receio de que as armas químicas sírias venham a ser usadas.

Os avisos terão surtido efeito, levando as forças sírias a suspenderem a alegada preparação das ogivas com conteúdos tóxicos no início de Dezembro. “No final da semana, o secretário da Defesa, Leon Panetta, disse que os piores receios tinham sido afastados, pelo menos para já”, escreve o jornal.

Responsáveis norte-americanos explicam que a tensão daqueles dias serviu para mostrar, a Damasco mas também a Moscovo, qual a linha vermelha que Assad não poderá ultrapassar sem arriscar uma intervenção estrangeira. Contudo, escreve o jornal, subsiste o receio de que o regime possa, em desespero, fazer uso das supostas bombas químicas entretanto preparadas (aparentemente com gás sarin) em depósitos situados junto a bases aéreas sob o seu controlo, tanto mais que o recurso a este tipo de munições nem sempre é imediatamente verificável.

E apesar dos avisos, ninguém sabe como poderá Washington – ou mesmo a NATO – reagir a um ataque deste género, já que, de momento, não há qualquer sinal de preparativos concretos, apenas referências a “planos de contingência”, refere o jornal.

Depois do fiasco das armas de destruição maciça que a Administração Bush invocou para justificar a invasão do Iraque, em 2003, as referências aos arsenais químicos de Assad têm sido vistas com algum cepticismo. Outras vozes alertam que, ao fixar tão alta a fasquia para uma intervenção externa, os ocidentais estão apenas a justificar a sua inacção perante um conflito que já terá provocado 60 mil mortos, segundo cálculos da ONU.
 
 

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