Protestos contra o governo alastram na Turquia

Primeiro-ministro diz que não há uma "Primavera turca". Um manifestante morreu atropelado e em Ancara a polícia lançou gás lacrimogéneo.

O primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, acusou o Partido Republicano Popular, na oposição, de estar a manipular os manifestantes que ocuparam a principal praça de Istambul. A contestação alastra e o governante disse que não há "Primavera turca".

Os confrontos entre manifestantes e polícia prosseguiam esta segunda-feira, cuja madrugada foi muito violenta. A insurreição turca fez, entretanto, a primeira vítima. O sindicado dos médicos turcos anunciou a morte de uma pessoa por atropelamento, numa auto-estrada perto de Istambul por onde caminhavam manifestantes. A Reuters diz que o condutor do automóvel se lançou contra os manifestantes, o El País conta que se tratou de um despiste de um taxista devido à presença de gente naquela via de circulação rápida.

Em comunicado, citado pela AFP,  o sindicato atribuiu a morte do manifestante - um jovem membro de uma associação de esquerda - à "intransigência" do primeiro-ministro e à brutalidade que as forças da ordem estão a pôr na repressão dos protestos.

À medida que os protestos alastram, a repressão é maior. Em Ancara, onde também já se realizam manifestações contra Erdogan, a polícia lançou esta tarde gás lacrimogéneo contra a população nas ruas.

Os protestos na Turquia começaram há sete dias - entram pois na segunda-semana - e a violência eclodiu há quatro. O motivo imediato desta  onda de indignação popular foi o anúncio de que o parque Gezi, junto à praça central de Taksim, em Istambul, seria destruído para ser reconstruída uma caserna militar otomana com um centro comercial no interior. Para isso foi apenas o gatilho que fez disparar a fúria com as políticas conservadoras e islamizantes do Governo e o ímpeto de lançamento de projectos faraónicos em Istambul.

Erdogan, classificando os manifestantes de "franja extremista", atacou a oposição. "O maior partido da oposição, que todos os dias apela a que se faça resistência nas ruas, está a provocar estes protestos", disse o primeiro-ministro que, no domingo, numa intervenção que passou na televisão turca, considerou as redes sociais um perigo.

Disse ainda haver suspeitas de que há "actores estrangeiros por trás as manifestações e que os serviços secretos turcos vão investigar se há "interferências de potências estrangeiras" nos protestos.: "Não é possível revelar os seus nomes. Mas vamos encontrar-nos com os líderes", assegurou Erdogan, citado pelo site em inglês do jornal turco Hurriyet.

As redes sociais estão também a ser visadas pelos dirigentes turcos: "Agora há uma ameaça chamada Twitter. E os melhores exemplos das mentiras [da oposição] estão ali. Para mim, as redes sociais são a maior ameaça à sociedade", tinha dito o primeiro-ministro no domingo à noite.

Claques unidas
Para acolher os que ficaram feridos durante a madrugada e já no período da manhã, mesquitas, lojas e a universidade foram, segundo a Reuters, transformadas em hospitais improvisados. O número de feridos não é exacto mas uma associação médica disse que entre sexta-feira e a madrugada de segunda foram assistidos 484 manifestantes em hospitais de Istambul. A BBC diz que alguns hotéis também abriram as portas a estes feridos e nota que os protestos estão a criar uma unanimidade pouco habitual, com os adeptos dos clubes rivais — em Istambul não há rivalidade clubística, há ódio — a marcharem juntos.

Na origem deste descontentamento está a política de Erdogan e algumas regras que o governo aprovou nas últimas semanas e que, segundo os observadores, têm como finalidade islamizar a sociedade turca.

Recep Erdogan, líder do Partido do Desenvolvimento e da Justiça, é um conservador. O partido é de inspiração islâmica e está no poder há dez anos. Tem imposto uma visão moralista da sociedade que, apesar de maioritariamente muçulmana, é laica.

Recentemente, foi limitada a venda de álcool, assim como a publicidade a este produto. E numa estação de metro de Ancara foi transmitido um aviso sonoro dizendo a um grupo de adolescentes que lá se encontrava que os beijos em público são proibidos. As hospedeiras da Turkish Airlines foram proibidas de usar saias demasiado curta e justas e baton vermelho — a revista Foreign Policy fala de uma vaga de neo-otomanismo na Turquia, de que faz parte um plano de construção de edifícios de grande envergadura, e o centro comercial da Praça Taksim fará parte desse plano.

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.