Carter, Bush-pai e a hipótese de Obama ser um Presidente de um só mandato

Em toda a História dos EUA e dos seus 44 presidentes, há 12 presidentes considerados "de um só mandato

A vantagem está, em geral, do lado do candidato-Presidente. Mas precedentes mostram que a reeleição está longe de ser automática. Exemplos e comparações olhando para a história recente dos EUA.

Poderá o Presidente Barack Obama, eleito há quatro anos numa vaga de entusiasmo com promessas de esperança e mudança, não ser reeleito e ficar-se por apenas um mandato? Quando ninguém sabe responder a esta pergunta - apesar de Mitt Romney, o candidato republicano, ter ganho força nas últimas semanas, Barack Obama parece ter ainda vantagem nos estados essenciais para a vitória - olhamos para exemplos recentes de Presidentes que não conseguiram a reeleição e como poderiam comparar-se com o percurso de Obama.

O próprio Barack Obama chegou a dizer, numa entrevista em Março de 2010, que preferia "ser um bom Presidente de um só mandato do que um Presidente medíocre de dois mandatos". "Há uma tendência em Washington para pensar que a nossa função, enquanto responsáveis eleitos, é ser reeleito. Não é. É resolver problemas e ajudar pessoas."

"Obama ser um Presidente de um só mandato é uma possibilidade bem real", diz ao PÚBLICO Jeremy Lott, editor do Real Clear Politics, um site bipartidário mas de tendência conservadora. "Nenhum Presidente, desde Franklin D. Roosevelt em 1936, foi reeleito com uma taxa de desemprego superior a 7%", sublinha o comentador político, cujo último livro é sobre Romney (o ebookMitt Romney"s Mormon-Christian Coalition), e que se debruçou antes sobre o papel e características dos vice-presidentes.

Em toda a História dos EUA e dos seus 44 presidentes, há 12 presidentes considerados "de um só mandato": Presidentes que foram eleitos para um primeiro mandato e não continuaram depois para um segundo, por decisão própria ou por perderem a reeleição (há depois outros que passaram a Presidente da vice-presidência e não foram depois eleitos, como Gerald Ford; esses não entram nesta contabilização). Se pensarmos na História recente, os Presidentes de um só mandato mais emblemáticos são o democrata Jimmy Carter e o republicano George H. Bush. Em ambos os casos, Lott encontra paralelos com Obama.

Há meses, temia-se que o caso do democrata Carter (Presidente entre 1974 e 1981, derrotado em 1980 por Ronald Reagan) pudesse de algum modo repetir-se com uma crise iraniana a assolar os últimos meses do primeiro mandato de Obama, com ameaças de Israel ao Irão a subirem de tom e relatórios mencionando o aumento de capacidade nuclear da República Islâmica. Um dos grandes factores para a derrota de Carter em 1980 foi a crise dos reféns americanos na embaixada em Teerão. Carter continuou, no entanto, as negociações para a libertação dos 52 americanos. No dia em que deixou a presidência, os reféns foram libertados.

Obama não teve nenhuma grande crise iraniana, mas "mostrou fraqueza na política externa", defende Jeremy Lott, dando como exemplo o ataque recente que matou o embaixador norte-americano na Líbia. Questionado sobre como vê então o raide que matou Bin Laden, o ex-inimigo número um da América, Lott concede que foi "extraordinário", mas defende que "Obama parece estar a apoiar-se exclusivamente nisso". Além disso, vê tanto em Carter como em Obama Presidentes-candidatos que são um pouco "distantes", "sensíveis", e ainda "teimosos".

O paralelo com Bush-pai

E o que poderá possivelmente Obama ter em comum com o outro Presidente que recentemente não conseguiu ser reeleito, Bush-pai? "Tem, no sentido do modo como lida com a oposição", nota Lott. "Obama-Presidente não está a ser tão bom nisso como Obama-candidato em 2008, quando conseguiu atacar McCain." Um sinal pode ser visto nos debates: "No primeiro debate, Obama perdeu realmente com Romney. Bush em 1992 também não se portou bem no debate com [Bill] Clinton - mostrou-se um pouco desligado... E este debate Obama-Romney realmente teve influência. Viu-se nas sondagens nos battleground states [estados que podem pender para um candidato ou outro e que podem ser decisivos para a vitória]".

No Daily Beast, Andrew Romano, redactor principal da revista Newsweek, argumenta que Obama poderia ser comparado a George H. Bush de outro modo. Hoje, Bush-pai é lembrado como um Presidente com um mandato marcado pelo mau estado da economia e aumento do desemprego. Mas, argumenta Romano, foi ele quem lançou as bases para o crescimento económico dos anos Clinton. Caso Obama não consiga ser reeleito, diz o jornalista, acontecer-lhe-á o mesmo: o trabalho que fez será esquecido, e o crédito será dado ao sucessor.

Ainda assim, Lott defende que quem concorre à reeleição tem uma grande vantagem. "Os americanos partem do princípio de que o Presidente, a não ser que tenha realmente feito asneira, merece ser reeleito."

E numa altura em que o olhar para o passado para ver o presente parece estar a ganhar força (a capa da Time da semana passada perguntava "O que faria Lincoln?"), Robert Merry, autor do livro Where They Stand: American Presidents in the Eyes of Voters and Historians, menciona o que é para si um dos melhores indicadores de resultados eleitorais, 13 critérios formulados há 30 anos pelo cientista político Allan Lichtman e o jornalista Ken DeCell, incluindo crescimento económico, domínio do Congresso, êxitos em política interna ou externa e ausência de escândalos ou agitação social. Num artigo no site de informação económica Bloomberg, o jornalista Albert Hunt diz que Obama consegue 9 pontos em 13 deste teste, o que aponta para uma vitória.

Mas o que quereria dizer se o primeiro Presidente negro fosse um presidente de apenas um mandato? Há quem ponha a questão com um certo tom racial. "Penso que o próprio Obama respondeu a isso", comenta Lott. Foi quando começou a descer nas sondagens e um jornalista lhe perguntou se via algum racismo nisso. Obama respondeu: "Acho que já era negro quando fui eleito."

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