Cameron tenta reconquistar militantes com email "pessoal"

Líder conservador diz que jamais teria ao seu lado um dirigente que desprezasse as bases do partido, mas insultos atribuídos a um dos seus aliados são apenas uma das razões para o descontentamento crescente entre os conservadores.

O líder conservador diz ter "orgulho" nos seus militantes Carl Court/AFP

Em plena tormenta, o primeiro-ministro britânico enviou um email aos militantes conservadores, em que diz ter “orgulho de liderar o partido” e assegura que jamais teria ao seu lado alguém que “despreze” os que trabalham no terreno para conquistar votos. A "nota pessoal" surge dias depois de dois jornais terem noticiado que um dirigente próximo de David Cameron teria apelidado os activistas eurocépticos de “loucos e alienados” e na altura em que o Parlamento aprova, apesar dos protestos de muitos deputados conservadores, o casamento homossexual.

Em tom pessoal, o líder conservador elogia o “sentido de dever, a correcção e o orgulho cívico” dos militantes que se batem a cada eleição e assegura que aquilo que o une ao partido “é mais do que uma relação de trabalho, é uma amizade profunda e duradoura”. “Tenho orgulho no que fazem e nunca teria ao meu lado quem os desprezasse ou pensasse de forma diferente”, escreve o primeiro-ministro, que, numa crítica indirecta aos deputados e dirigentes que o criticam em público, diz que todos se “devem lembrar que o partido sempre agiu em defesa do interesse nacional”.

A mensagem chegou às caixas de correio electrónico dos milhares de militantes na mesma altura em que a direcção do partido, reunida em Londres, rejeitava um inquérito para determinar se os comentários publicados sábado pelo Telegraph e pelo The Times foram proferidos por Andrew Feldman, amigo pessoal de Cameron e co-presidente do partido. O dirigente nega ter proferido os insultos e nenhum dos jornais identificou o autor dos comentários, mas sabe-se que Feldman esteve num determinado restaurante e aí falou com os jornalistas que assinam as peças.

Na reunião, a direcção dos tories reafirmou a confiança em Feldman e comprometeu-se a “reparar a distância entre a liderança e as bases do partido”. No entanto, são cada vez mais as vozes a afirmar que o incidente, aliado às divergências sobre o futuro do Reino Unido na Europa e à legalização do casamento homossexual, cavaram um fosso entre o sector mais tradicionalista do partido e Cameron. O primeiro-ministro “fez algumas coisas que o partido e a generalidade do país não queriam que ele fizesse. Ele até pode acreditar nelas, mas está aumentar o distanciamento entre ele e o partido”, disse à BBC o deputado Brian Binley, autor do pedido de inquérito a Feldman.

A imprensa desta terça-feira adianta também que são já vários os deputados que enviaram cartas ao comité 1922, que representa os parlamentares sem funções no Governo ou na direcção do partido, defendendo a realização de um voto de confiança em David Cameron – uma votação que se tornará obrigatória caso forem recebidos pelo menos 46 pedidos nesse sentido.

E o sentimento de crise agravou-se depois de uma sondagem divulgada segunda-feira à noite ter colocado os conservadores (24%) 11 pontos atrás dos trabalhistas e com apenas dois pontos de vantagem sobre o partido eurocéptico UKIP. Um segundo estudo, publicado nesta terça-feira pelo The Sun, mostra números mais próximos de sondagens anteriores, atribuindo aos tories 31% das intenções de voto, face aos 39% do Labour e aos 14% do UKIP.

Comentando a actual situação, um dirigente do partido disse ao Guardian que Cameron enfrenta uma revolta “maior do que John Major” que viu os seus mandatos minados pela constante rebelião dos eurocépticos. “Nessa altura havia muita simpatia por ele por causa dos que se opunham ao Tratado de Maastricht. Ele ouvia, talvez demasiado. Com Cameron sente-se que a situação pode ser terminal – e certamente será antes das eleições”.
 
 
 

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