Boris Johnson, mayor de Londres e grande rival de David Cameron no Partido Conservador, propõe que o Reino Unido renegocie os termos da sua permanência na União Europeia, desligando-se de todos os projectos de união política mas continuando a beneficiar do mercado único. Uma nova relação que, defende, deve ser referendada assim que as negociações estejam concluídas.
A proposta de Johnson – que se tornou conhecido como correspondente em Bruxelas do jornal conservador Daily Telegraph – culmina meses de pressão da ala mais à direita dos conservadores, ferozmente eurocéptica, para que o primeiro-ministro aceite perguntar aos britânicos se querem continuar na UE.
Uma proposta nesse sentido foi chumbada, no final de 2011, no Parlamento (o que valeu a Cameron foi o apoio dos liberais-democratas, parceiros na coligação de Governo, e dos trabalhistas). Mas a crise europeia continua a dar munições aos partidários da ruptura com a UE – o partido eurocéptico UKIP foi o segundo mais votado em eleições intercalares da semana passada.
Cameron, que se assume como um eurocéptico pragmático, rejeita a saída da UE. Defende, em alternativa, que o país deve renegociar a sua participação na Comunidade, distanciando-se da integração política seguida pelos restantes países como resposta à crise do euro. Anunciou que, até ao final do ano, detalharia a sua política europeia, mas Johnson, mais popular entre os conservadores do que o primeiro-ministro, antecipou-se-lhe, num discurso em que descreveu o euro como um "projecto calamitoso" que, mais tarde ou mais cedo, se desmoronará.
"Podemos construir uma relação com a UE que se assemelhe à da Noruega e da Suíça, com a excepção de que estaríamos dentro do mercado único e capazes de intervir na legislação”, disse o autarca da capital, sublinhando que a mudança do Reino Unido do centro para a “camada exterior” da União “vai ao encontro do que os britânicos querem”.
Johnson argumenta que a actual discussão sobre a revisão dos tratados, incluindo a cimeira que, em Dezembro, discutirá a atribuição ao Banco Central Europeu de poderes de supervisão sobre as instituições nacionais, dá a Londres o “pretexto” para rever os termos da sua adesão. “No momento em que os governos da zona euro avançam com alterações aos tratados que afectam directamente o nosso país, […] devemos aproveitar para pedir aos britânicos que decidam sobre o seu futuro na Europa”, disse, defendendo um referendo. Não sobre a adesão, mas sobre a permanência do país no mercado único.
Confrontados com o distanciamento britânico desde a chegada de Cameron ao poder, alguns dirigentes europeus falam já abertamente da saída do país da União Europeia, dizendo que não pode querer ficar com um pé fora (da união política) e outro dentro (do mercado único). O mayor londrino diz, no entanto, que o país tem argumentos para os convencer do contrário: “A escolha será entre ficar nos nossos termos ou sair."
O Guardian escreveu que a posição de Johnson não difere muito da que tem sido adiantada por Cameron, mas, ao antecipar-se, consegue ditar os termos da discussão dentro do partido, um propósito que o mayor não escondeu quando criticou o primeiro-ministro por apoiar a integração fiscal dos países da zona euro, “que é antidemocrática e, por isso, moral e intelectualmente errada”.
Avançar para uma renegociação pode, uma vez mais, abrir fracturas na coligação de Governo (os lib-dem são europeístas) e deve contar com a oposição dos trabalhistas, apesar de, até agora, o partido se ter mantido à margem do debate. Tony Blair, um dos primeiros-ministros mais europeístas da História britânica, quebrou o silêncio na semana passada, quando definiu o eurocepticismo como um “vírus” e disse que as propostas para limitar a participação britânica no projecto euopeu não passam de “um refúgio para os que querem sair” da UE.

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