Avó reencontra neta raptada há 39 anos pela ditadura argentina

O sonho de Maria Mariani, aos 91 anos, era um: abraçar a neta. “O maior desejo que me move é que finalmente nos encontremos”, escreveu em Março.

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Um protesto das avós da Praça de Maio AFP/Juan MABROMATA

Depois de 39 anos a procurar sem descanso, uma das fundadoras do movimento das Avós da Praça de Maio, Maria Isabel “Chicha” Chorobik de Mariani, consegue finalmente o que desejava, o que mais a movia, como chegou a escrever numa carta aberta em Março: descobrir o paradeiro e ver a sua neta que tinha sido sequestrada em Novembro de 1976, com apenas três meses, durante a ditadura militar na Argentina.

Clara Anahi torna-se assim a 120ª criança a ser encontrada pela família. O anúncio foi feito, através de um comunicado, emitido na quinta-feira pela Fundação Anahi, criada em 1989 por Maria Mariani, depois de ter deixado a presidência da Avós da Praça de Maio.

Segundo o jornal francês Le Monde e a AFP, as análises genéticas que já foram feitas confirmaram, em 99,9%, o parentesco. O reencontro entre avó e neta foi difundido, através da publicação de uma fotografia, nas redes sociais.

A então bebé foi sequestrada a 24 de Novembro de 1976, depois de membros das forças de segurança terem entrado em casa e atacado os seus pais (Daniel Mariani e Diana Teruggi). A mãe morreu. Ao pai viria a acontecer o mesmo oito meses depois. A Associação Avós da Praça de Maio, fundada em 1977, estima que 500 bebés, filhos de opositores políticos à ditadura, terão sido retirados das mães e adoptados por responsáveis do regime militar.

Muitos foram os esforços e as diligências de Maria Mariani, que está quase cega, para encontrar a sua neta. Durante décadas, em cada um dos seus aniversários, a fotografia de Clara Anahi em bebé foi amplamente difundida. A avó escrevia-lhe cartas que divulgava publicamente. Em Março, dizia assim: “Tentaram convencer-me que tinhas sido morta como a tua mãe, mas eu sabia que estavas viva.” E mantinha a esperança: “O meu sonho, aos 91 anos, é abraçar-te e reconhecer-me nos teus olhos. O maior desejo que me move é que finalmente nos encontremos.”

Em 1998, a Fundação Anahi decidiu comprar a casa onde Diana Teruggi foi assassinada e abriu um museu para contar e denunciar os abusos do regime (1976-1983). Nas paredes, ainda são visíveis os buracos das balas disparadas há 39 anos.

Em Agosto do ano passado, e depois de 36 anos de procura, a presidente da Avós da Praça de Maio, Estela Carlotto, também encontrou o filho, outra das muitas vítimas de sequestro durante a ditadura.

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