Antigo partido único foi declarado o vencedor das eleições na Argélia

Resultados eleitorais foram anunciados pelo ministro do Interior, Daho Ould Kablia. Zohra Bensemra/Reuters

A Frente de Libertação Nacional (FLN), antigo partido único, venceu as eleições legislativas na Argélia, ao conquistar 220 dos 462 lugares do Parlamento, informou o ministro do Interior, Daho Ould Kablia. A União Democrática Nacional (RCD), do primeiro-ministro cessante, Ahmed Ouyahia, ficou em segundo lugar (68) e a coligação islamista foi relegada para a terceira posição (48), quando as sondagens a davam como favorita.

“A votação reforçou a ligação dos argelinos aos valores da paz e estabilidade”, exultou o ministro, numa conferência de imprensa. “Não há mudança”, contrapôs, em declarações à Reuters, o escritor e analista político Abed Charef. “A Argélia inventou a força da inércia.” Yacine Zaid, activista de direitos humanos e crítico do poder, acentuou: “Estas eleições foram um circo.”

“Houve um processo de fraude generalizado, o que coloca o país em perigo”, reagiu Abderrazak Mukri, porta-voz da aliança Argélia Verde, que integra vários partidos islamistas. “Não nos responsabilizamos pelo que vier a acontecer.”

Em 1992, depois de o Exército ter anulado as eleições de 1990, ilegalizando a vitoriosa Frente Islâmica de Salvação (FIS), a Argélia mergulhou numa guerra civil que, numa década, causou cerca de 200 mil mortos. Dificilmente este cenário se repetirá, porque aquilo que os argelinos designam por Le Pouvoir (a rede político-militar que os governa desde a independência em 1962) geriu bem este processo. A nova Assembleia Nacional será o que a revista The Economist descreveu como “um mosaico de partidos, nenhum deles com voz dominante”. Além disso, os islamistas favoritos já ocupavam pastas governamentais (quatro titulares), o que poderá repetir-se agora.

“Mais livres e transparentes”

Este ano, o Presidente Abdelaziz Bouteflika apelara a uma afluência às urnas maior do que em 2007, que foi de 37%. O objectivo era atenuar a imagem de autoritarismo do regime (que já tomara decisões para angariar apoio popular, como o aumento de salários), no meio de uma vaga de revoluções regionais contra ditadores. Nesta sexta-feira o Governo colocou a taxa de participação, a nível nacional, em 42,9% dos 21,6 milhões de eleitores inscritos .

A nova Assembleia Nacional, à qual concorreram 25.800 candidatos de 44 partidos, numas eleições consideradas “as mais livres e transparentes”, em parte graças à presença de 500 observadores estrangeiros — que legitimaram a votação — , terá como missão imediata a redacção de uma nova Constituição

Bouteflika,75 anos, que não tentará novo mandato em 2014, deverá exercer a sua prerrogativa de nomear o próximo chefe do Governo. A vitória da FLN faz com que o seu líder, Abdelaziz Belkhadem, que já antes tinha sido primeiro-ministro, volte a ser chamado para exercer o cargo. Seja como for, observou Farid Alilat, director do portal noticioso online DNA, “poucas ou nenhumas mudanças se devem esperar”.

A apatia do eleitorado foi explicada por analistas no Magrebe como sinal de desesperança, ainda que os argelinos, traumatizados com a sangrenta guerra civil, não estivessem predispostos a lançar uma Primavera Árabe como aconteceu na Tunísia e no Egipto.

O desencanto é mais elevado entre os jovens — 70% dos 37 milhões de habitantes têm menos de 35 anos e estes representam uma grossa fatia dos 20% de desempregados no maior país de África que é também o quinto maior fornecedor de gás da Europa.

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