Análise: A Europa quer Obama outra vez

Se os 27 países da União Europeia tivessem de eleger o próximo Presidente americano, Barack Obama ganharia facilmente todos os votos do Colégio Eleitoral. Por maiorias esmagadoras em alguns países, como a Alemanha ou a França, ou por maiorias muito confortáveis, como no Reino Unido e na Itália, ou mesmo nos países da Europa Central e de Leste a que Donald Rumsfeld chamava "a nova Europa". Talvez um pouco menos do que nas eleições de 2008. Ainda assim, uma vitória absoluta sobre um candidato chamado Mitt Romney, que tem todas as características para desagradar aos europeus - é mórmon, suspeito de ser um "herdeiro" de George W. Bush, que gosta de acusar o seu adversário democrata de ser demasiado "europeu".

É noutro Barack Obama, todavia, que os europeus vão "votar". Como todos os outros seres humanos que vibraram com a simples existência de Obama, perderam muitas das suas ilusões. Ofenderam-se com o facto de a palavra "Europa" não ter sido uma só vez pronunciada no debate sobre política externa, o último dos três que travou com o candidato republicano. Desconfiam do facto de não ter sido capaz de fechar Guantánamo. Criticam-no por ter dado pouca atenção às mudanças climáticas. Por não se ter empenhado o suficiente na paz entre Israel e a Palestina. Olham com horror a forma como recorre à acção dos drones (aviões não tripulados) para eliminar inimigos no Iémen, no Paquistão ou na Somália. Desconfiam que olhe demasiado para o Pacífico. Também compreendem as suas limitações - as dificuldades da crise económica, a polarização política, um Congresso hostil. São realistas. Continuam a preferir o Presidente que conseguiu apagar a imagem da América de Bush. Hoje, estão dispostos a ficar até mais tarde diante dos televisores para poderem, depois, ir dormir mais descansados. Sobre isto ninguém tem dúvidas.

Dito isto, ficam as perguntas difíceis. Quatro anos depois da eleição de Barack Obama, como estão as relações transatlânticas? Até que ponto foram capazes de se renovar e de se adaptar a um mundo em acelerada transformação? Nos quatro anos que passaram, dois acontecimentos marcaram-nas, definitivamente. O primeiro foi a crise financeira e económica global e a força com que se abateu sobre o continente europeu. O segundo foi a elevação da China até ao estatuto de "segunda superpotência".

Em 2009, os governos europeus ainda acreditavam que a Europa teria melhores condições para enfrentar uma crise financeira global da qual responsabilizavam apenas os Estados Unidos. Em 2010, começaram a perceber que o impacte da crise os atingiria brutalmente. Sabe-se o que aconteceu desde então. A economia mundial tornou-se refém da crise europeia. A reeleição do Presidente viu-se ameaçada pelas suas consequências. "Ele compreendeu que, pelo terceiro ano consecutivo, a retoma americana era posta em causa pela persistente crise europeia", escreve Ben White, do Council on Foreign Relations de Washington. "Percebeu que o risco de um colapso do euro tinha uma influência enorme no estado dos negócios na América." Tornou-se numa obsessão. Gastou muito do seu tempo em longas conversas por videoconferência com a mulher mais poderosa da Europa, tentando convencê-la a agir com a determinação suficiente para colocar o euro a salvo. Confrontou-a em cada reunião do G20 com a crítica às suas políticas de austeridade que arrastavam a economia europeia para a recessão e ameaçavam a retoma da economia global. Sem sucesso, como também se sabe. Tudo o que o Presidente garantiu da chanceler alemã foi que nada de mau aconteceria à Grécia antes de 6 de Novembro, para evitar cenários que nem um, nem outro tinham a certeza de pode controlar. A braços com a maior crise da sua existência, a Europa virou-se para dentro de si própria, prestando uma fraca atenção ao mundo exterior. Sentiu-se traída, quando Obama anunciou que o século XXI seria o século do Pacífico.

O Presidente tinha ofendido os europeus, quando, em Maio de 2010, se recusou a participar numa cimeira UE-EUA em Madrid, alegando uma agenda praticamente vazia. Mas a cimeira da NATO em Lisboa, nesse mesmo ano, foi ainda um momento de reencontro estratégico entre os dois lados do Atlântico. Selou o compromisso americano em relação à Aliança Atlântica e ao seu Artigo 5.º e um entendimento sobre a melhor maneira de lidar com a Rússia - o "reset" de Obama era muito mais confortável do que a política de Bush, com a insistência no alargamento da NATO até às fronteiras da Rússia, ou com uma "defesa antimíssil" que não incluía Moscovo.

Como outros presidentes antes dele, Obama disse também aos europeus que teriam de passar a ser mais responsáveis pela sua própria segurança. Só que, desta vez, a retórica começou a ser acompanhada pelos actos. Não se trata apenas do peso crescente da China e região da Ásia na economia global. O "pivô estratégico" que anunciou no final de 2010 significa que os EUA estão a reforçar a sua presença militar na Ásia e a retirar uma parte das suas tropas da Europa. A Líbia foi a demonstração que faltava. Obama prometeu apoio para forçar a derrota de Khadafi, mas avisou os europeus de que teriam de ser a eles a liderar. Acabou por antecipar a nova estratégia americana - "liderar do banco de trás" onde os europeus podiam e deviam liderar no lugar da frente. A Líbia também serviu para revelar as enormes fraquezas militares da Europa e a sua dependência da capacidade militar americana.

"O paradoxo está em que, apesar de Obama ter conseguido sarar as feridas transatlânticas, pode ser também o Presidente americano que presidiu ao fim do Ocidente enquanto comunidade política", escreve Mark Leonard, director do European Council on Foreign Relations. É talvez dar um salto demasiado grande. O Ocidente, com as suas duas metades, é hoje fundamental para liderar a transição de um mundo em que o centro de gravidade do poder estava no Atlântico para outro em que se deslocará progressivamente para o Pacífico. É uma inevitabilidade. A Europa tem consciência de que, seja qual for a nova Administração americana, esta mudança estratégica veio para ficar. Terá, um dia, de lidar com ela.

Os analistas americanos são quase unânimes a sublinhar que a política externa de Mitt Romney não seria muito diferente de Obama. O último debate entre os dois candidatos sobre política externa provou isso mesmo. A crise económica e a ressaca das duas guerras de Bush, que delapidaram os recursos e o apoio da opinião pública americana, encarregam-se de dissuadir quaisquer novas aventuras militares. Mas os europeus querem jogar pelo seguro. Não sabem com que Romney podem contar. Há seis meses, o candidato republicano classificava a Rússia como o "inimigo geopolítico número um" e definia Israel como "a linha da frente" de uma nova guerra fria contra o radicalismo islâmico. Começou como amigo dos neocons. Acabou como moderado. Em qual deles confiar? O melhor é confiar em Obama.

"Seja quem for que ganhe, podemos apostar que o novo consenso estratégico americano, tal como o próprio Obama o definiu, traduz um deslocamento do centro de gravidade das preocupações norte-americanas para a Ásia-Pacífico, dado que a prioridade é a contenção da China", escreve Jean-Marie Colombani, antigo director do Monde. A Europa terá de enfrentar o desafio capital que constitui esta viragem estratégica dos EUA. "Ou se decide a tomar as rédeas do seu destino, e isso permitirá uma verdadeira colaboração transatlântica, ou se resigna a ficar à margem da História." Com Romney ou com Obama, a bola está do lado de cá.

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