Amanhã será outro dia, mas hoje decide-se

Francisco Louçã, economista e ex-líder do Bloco de Esquerda, esteve em Atenas a convite da presidente do parlamento, Zoe Konstantopolou. Este texto reflecte as impressões dessa estadia recente na Grécia.

Zoe Konstantopoulou é uma força da natureza. A presidente do parlamento grego reuniu na passada semana em Atenas a Comissão para a Verdade sobre a Dívida para apresentar o seu relatório preliminar e, durante dois dias, membros do governo e peritos internacionais analisaram as conclusões.

A última sessão, que começou às 10 e se prolongou sem interrupção até às 19, foi seguida de uma conferência de imprensa de duas horas. E a presidente partiu depois para mais reuniões, chegavam as notícias da cimeira do Eurogrupo no Luxemburgo. “Ainda é possível o acordo, desde que a Europa aceite que o caminho da austeridade está fechado”, dizia ela, incansável.

Esse é o espírito dos governantes gregos, a convicção de que um acordo é possível até à última hora. Os ministros repetem-na, os funcionários também: o governo alemão e os seus ainda vão recuar. Um fundador do Syriza dizia-me na manifestação da véspera do Eurogrupo que Berlim teria que aceitar um acordo, nenhum governante quer ficar como responsável pelo início da desagregação da União.

O jogo da galinha
É evidente que, durante a semana, Atenas tomou uma posição mais forte nas negociações. Para efeitos internos, Tsipras discursou perante os deputados da maioria acusando o FMI de “conduta criminosa” pela espiral de austeridade. No plano externo, reforçou a recusa de um acordo que implicasse facilitar os despedimentos ou reduzir as pensões e relançou a proposta de reestruturação da dívida. E ganhou pontos.

A diferença notou-se. Anna Asimakopoulou, deputada conservadora, dizia na manifestação pró-UE de quinta-feira, segundo o Guardian: “pela primeira vez, esta semana fiquei convencida de que não estão a fazer bluff; se não conseguirem um acordo decente a meio caminho, irão no sentido oposto, fora do euro”. Euclid Tsakalotos, o responsável pelas negociações, confirma com humor que isto é mesmo o “jogo da galinha”, as duas partes aceleram uma contra a outra para ver quem se desvia primeiro. A resposta popular ratifica para já esta escolha pela pressão: a última sondagem dá ao Syriza 34% (36% em janeiro), mas o principal partido de direita desce de 27% para 13%. Não há oposição interna.

Cosmo e Irene Karalis, um casal de desempregados com um filho, explicava-me porquê: o Syriza fez o mais importante, permitiu o reajustamento das dívidas acumuladas pelas famílias que vivem a vida mais difícil. A economia que serve é a que crie emprego e essa é a dificuldade.

Um meio termo?
A diferença neste “jogo da galinha” não era curta. Segundo Wolfgang Munchau, do Financial Times, a proposta da Troika implicaria uma queda do PIB de 12,6% em quatro anos e aumento da dívida pública para 200%. Depois de uma recessão que custou 27% do PIB, é guerra a mais.

Na procura de um meio termo, este fim de semana circulavam em Atenas informações sobre duas hipóteses de acordo. A primeira seria um empréstimo imediato de dez mil milhões e a extensão do acordo até Dezembro. Seria certamente insuficiente: até agosto, a Grécia deveria pagar só ao FMI e BCE 8,3 mil milhões, isto seria dar com uma mão e tirar com outra. O segundo plano seria um acordo diferente: a Grécia aumentaria o IVA em alguns produtos e nas ilhas, reduziria pensões antecipadas, cortaria despesas militares, mas começaria já um alívio da dívida. De quanto, está por saber.

É uma solução difícil mas não impossível. Parece ser esta a proposta que Tsipras apresentou ontem a Merkel, Hollande e Juncker. A Grécia insiste numa anulação de metade da conta do Mecanismo Europeu de Estabilidade e da indexação dos pagamentos ao PIB. São 70 mil milhões a menos desde já e uma redução dos pagamentos em juros, o que permite investir e criar emprego.

O FMI apoia este abatimento da dívida, porque sabe que não há outra solução, desde que o fardo fique só nas contas europeias. Para Merkel e Hollande, a escolha é entre um default grego que lhes custará 160 mil milhões, ou um ajustamento que mantenha a integridade do euro. Finalmente, Draghi, que percebe bem os riscos do euro, prefere sobretudo não ser chamado a disparar o tiro mortal contra a Grécia. Todos sabem que, se o governo fosse socialista ou de direita, as mesmas propostas gregas teriam sido aceites há muito.

Se este vier a ser o caminho, então o que distingue entre o bom e o mau acordo é a redução da dívida, que permita relançar imediatamente a procura interna e o emprego.

Basta um acerto?
Os mais cépticos, entre os quais me incluo, registam que depois de uma queda de 61% da pensão média e com 45% dos pensionistas abaixo da linha de pobreza mais 50% de jovens desempregados, há um limite humano para esta austeridade e que um acordo deve ter efeitos expansivos de curtíssimo prazo. Se amanhã é outro dia, para a Grécia será preferível sair do euro do que aceitar mais austeridade e uma dívida em cavalgada.

Em todo o caso, para Atenas a incerteza é o pior dos purgatórios. Mil milhões de euros foram levantados dos bancos na sexta-feira, um recorde. Não há filas nos multibancos e não se sente pânico nas ruas, mas o dinheiro está a ser guardado debaixo dos colchões. Se não houver acordo esta segunda-feira, um controlo de capitais é necessário no dia seguinte porque, se falhar o apoio do BCE, os bancos ficam imediatamente insolventes.

Pelo seu lado, o governo nunca apresentou esta “alternativa dracma”. Tsipras sabe que a Grécia depende do mercado interno, é uma economia menos aberta do que a portuguesa e a desvalorização não teria tanto impacto sobre as exportações, mas o turismo seria beneficiado e, sobretudo, a Grécia abateria 300 mil milhões das suas contas no momento em que declare o incumprimento. Abre uma batalha e pode preferir evitá-la, mas o maior custo financeiro é dos credores.

A escolha é portanto unicamente política. A União Europeia optará entre o castelo de cartas e a recuperação e ninguém quer ceder. Faltam adultos nessa sala mas Merkel sabe que ela é que vai decidir e que o seu nome ficará registado. É o seu momento histórico.

O equívoco europeu
Tsipras começou o seu mandato com um equívoco que pagou caro: acreditou que teria aliados entre os governos europeus, mas Renzi e Hollande mostraram imediatamente que, na dúvida, obedecem a Berlim. E, sobretudo, acreditou que a Alemanha conciliaria. Ficou sozinho.

A passagem do tempo agravou o isolamento. Quase toda a esquerda está a recuar perante a crise grega. Os que defendiam um acordo internacional para a mutualização da dívida dão a causa por perdida, os que esperavam os sensatos eurobonds desistiram e ainda há espectaculares renúncias à luta pela reestruturação da dívida. A esquerda tem medo. Percebeu agora que o Tratado Orçamental não tem margem para evitar a austeridade e que a única solução estrutural para reestruturar a dívida é emitir moeda própria e reorganizar a economia dependente. Percebeu também que o protectorado é uma regra europeia e não se dispõe a enfrentá-la, sente que o caminho é demasiadamente difícil e que não sabe percorrê-lo.

O que se decide na Grécia, por isso, é o fim de uma tragédia, se não for o princípio de outra. Hoje, só Atenas pode salvar a Europa.

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