Alargam-se os protestos contra censura a jornal chinês

Dois actores publicaram mensagens de apoio ao semanário Southern Weekly e um empresário disse que o caso conseguiu mesmo destruir a credibilidade da nova liderança do Partido Comunista

Protesto na segunda-feira em frente à redacção do Southern Daily James Pomfret/Reuters

O jornal chinês Southern Weekly, no centro de uma polémica sobre censura aos media na China, está a receber cada vez mais declarações de apoio de figuras de peso, de actores a empresários.

Uma das últimas mensagens foi a da actriz Yao Chen, que tem 32 milhões de seguidores na rede de microblogging Weibo, o equivalente chinês do Twitter, e que colocou na rede social o logo do jornal com a frase: “Uma palavra verdadeira pesa mais do que o mundo inteiro”. O actor Chen Kun, 27 milhões de seguidores, também declarou na rede social: “Apoio os amigos do Southern Weekly”.

O jornal tinha escrito um editorial de ano novo pedindo o respeito pelos direitos dos cidadãos e apelando à renovação numa altura de mudança na liderança chinesa. Um responsável pela propaganda de Guangdong (Cantão), a zona da publicação, alterou profundamente o editorial,  fazendo um elogio ao partido (tinha como título Estamos agora mais perto do nosso sonho do que alguma vez estivemos). Os jornalistas decidiram protestar, fazendo greve e indo mesmo para a porta da redação na segunda-feira.

Sistema cada vez mais baseado na autocensura
Na China, há uma certa dose de autocensura e discussões entre os media e as lideranças partidárias sobre o que pode ou não ser publicado existem, mas nos bastidores, nota o diário norte-americano New York Times. O especialista em media David Bandurski explica que os jornalistas acham que neste caso foi quebrado “um acordo de cavalheiros sobre como se controlam os media”.

Num relatório sobre a China, a Freedom House apontava que enquanto “o antigo sistema se baseava na repressão e censura directa, o novo modelo baseia-se em recompensas e castigos e cada vez mais na autocensura”.

O controlo é bastante notório na Internet, com buscas por determinados assuntos sensíveis a serem impedidas nos motores de busca e redes sociais chinesas (isso aconteceu na segunda-feira com o tópico Southern Daily no equivalente chinês do Twitter).

O Financial Times lembrava o encerramento de uma revista há sete anos como o último caso de censura na China que provocou protestos. A diferença desta vez, nota, é a maior dificuldade de controlar um assunto na esfera pública por causa das redes sociais.

A credibilidade da nova liderança "foi destruída"
Um conhecido empresário, Hung Huang, usou também a Internet para fazer uma dura crítica, dizendo que as acções do responsável da propaganda de Guangdong, Tuo Zhen, “destruíram, de um dia para o outro, toda a credibilidade que a liderança de topo do país tinha trabalhado para restabelecer desde o 18º Congresso do Partido”, o encontro em Novembro que constituiu o clímax da transição da liderança, com Xi Jinping a assumir a presidência do Partido.

As expectativas de uma via mais reformista com a tomada de posse dos novos líderes era grande, mas Xi afirmou entretanto que a China tem de respeitar as suas raízes socialistas, diz ainda o New York Times, o que foi visto como um sinal de que pretende também agradar aos conservadores no partido.

O caso da censura no Southern Weekly está a ser visto como um teste precoce para a liderança que poderá dar um sinal de que via, se uma mais conservadora, se uma mais reformista, seguirão os novos líderes: um sinal para todos os chineses, não apenas para os media.

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