Ai Weiwei inspira-se no escândalo do leite contaminado e faz mapa da China com latas de leite

Artista dissidente chinês usa latas de leite para denunciar incapacidade de Pequim para garantir segurança do alimento para bebés, e fenómeno da corrida ao leite em pó em Hong Kong

O mapa da China de Ai Weiwei usa 1815 latas de leite compradas em Hong Kong Philippe Lopez /AFP

Um enorme mapa da China desenhado com latas de leite em pó é a última criação do artista dissidente chinês Ai Weiwei. A obra, que é mostrada numa exposição em Hong Kong inaugurada esta sexta-feira, inspira-se no escândalo do leite contaminado com o produto químico industrial melamina, que matou seis crianças em 2008 e deixou 300 mil doentes.

Baby Formula 2013 é o título da obra que usa 1815 latas de sete marcas de leite em pó para bebé para desenhar o mapa da China, cobrindo um espaço de 10x8 metros, relata a agência AFP. “Esta peça está relacionada com vários problemas”, explica Ai Weiwei à AFP. “Um é a recente proibição de os residentes na China continental comprarem leite em pó [em Hong Kong] para levarem para casa; outro é por que é que os residentes do continente vinham a Hong Kong comprar leite em pó”.

Depois do escândalo de 2008 com o leite em pó – e da repetição de escândalos de segurança alimentar, incluindo outro com um produtor chinês de leite para bebés, no ano passado, cujo leite estava contaminado com produtos que reconhecidamente provocavam o cancro, diz a Reuters – muitos chineses procuram marcas importadas para alimentar os seus filhos.

Um dos sítios aonde se vão abastecer é a Hong Kong, embora na Austrália os clientes chineses também estejam a ser culpados por uma falta de leite para bebés nos supermercados e nas farmácias. Em alguns países europeus estão também a registar-se faltas pontuais, adianta a AFP.

A China é, “de longe”, o maior mercado de leite para bebé, diz o grupo de defesa e investigação sobre consumo Euromonitor, citado pela agência noticiosa francesa. As licenças de maternidade são bastante limitadas, por isso as taxas de amamentação são baixas, de apenas 28%, de acordo com um relatório da UNICEF, e o marketing das marcas de leite para bebé é bastante agressivo.

Mas Hong Kong não está a apreciar esta procura intensa por parte dos chineses da continente: a 1 de Março, entrou em vigor uma lei que impede os visitantes de levar mais do que 1,8 quilos de leite para bebé. Há multas de 500 mil dólares de Hong Kong (50 mil euros) para quem tentar traficar maiores quantidades para fora da ex-colónia britânica.

“Um país como este consegue pôr um satélite no espaço, mas não consegue pôr uma tetina de biberão segura na boca de uma criança. Isto é completamente absurdo”, disse Ai Weiwei à Reuters. “Isto é uma ausência fundametal de garantia de alimentação. As pessoas têm de se deslocar a outra região para a obter. É um fenómeno completamente absurdo”.

 
 
 
 
 

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