Jornalistas e responsáveis da província de Guangdong (Cantão) terão chegado a acordo para que o Southern Weekly, envolvido num caso raro de contestação a uma acção de censura do responsável local de propaganda, seja publicado nesta quinta-feira.
Os jornalistas protestaram depois de uma alteração feita a um editorial publicado na primeira página. O texto, que originalmente pedia que em 2013 os chineses tivessem mais direitos, foi transformado num elogio ao partido (tinha como título Estamos agora mais perto do nosso sonho do que alguma vez estivemos). Não há muitos detalhes sobre o que se passou. Houve dois dias de manifestações à porta da redacção e relatos de uma greve. Um dos jornalistas negou, no entanto, à AFP que tivesse havido uma paralisação.
Segundo relatos citados pela emissora britânica BBC, um alto responsável da província (visto como uma estrela em ascensão do Partido Comunista Chinês), Hu Chunhua, interveio para resolver a situação. Segundo a Reuters, a maioria dos funcionários não será punida pelo protesto levado a cabo nestes dias e por ter exigido a demissão do chefe da propaganda de Guangdong, Tuo Zhen, mas outros detalhes do acordo não são claros. A AFP diz, por exemplo, que a censura concordou em não intervir directamente em artigos antes da sua publicação.
O que costuma acontecer, explicou à agência francesa David Bandurski, especialista em media chineses, é que os editores dos jornais recebem instruções sobre os assuntos a noticiar (e os que devem ser ignorados) e como devem ser abordados. As “correcções” são feitas normalmente após a publicação, e, embora possa acontecer que os responsáveis da censura digam que algo não pode sair, não é normal que mudem textos antes da publicação. Terá sido esta a "linha vermelha" ultrapassada pela actuação da censura neste caso, ainda por cima num jornal conhecido por alguma ousadia.
O caso parece entretanto ter-se alargado a outros jornais. O Global Times, controlado pelo Estado, publicou um editorial dizendo que a responsabilidade pelo incidente era de “activistas fora da indústria dos media”. Vários outros sites de notícias publicaram o editorial, mas alguns juntaram-lhe um aviso dizendo que não apoiavam a opinião expressa no artigo, e outros simplesmente não o publicaram, no que foi visto como uma acção de solidariedade para com o Southern Weekly. Para além disso, celebridades que normalmente não se manifestam sobre questões políticas vieram apoiar os jornalistas, o que deu uma maior amplitude ao caso, que começou a ser visto como um teste à via reformista dos novos líderes do Partido Comunista Chinês.

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