Opinião

1991 outra vez...

A crise dos regimes comunistas (re)abriu o caminho ao pior nacionalismo.

Putin contra o mundo!, essa é a lição simplista que nos tem sido oferecida para explicar a crise ucraniana. É muito revelador como se tem preferido explicar tudo quanto está a acontecer na Ucrânia e na Crimeia a partir de versões muito simplistas de uma Geopolítica de trazer por casa, e muito pouco a partir dos dados da História, da Antropologia e de uma análise minimamente crítica das Relações Internacionais.

A leitura da realidade, e sobretudo da realidade que não nos está próxima, tende a fazer-se, já o sabemos, a partir de simplificações que, bem vistas, acabam por dizer mais do observador do que nos reproduzem a realidade observada...

O que aconteceu em Kiev foi uma revolução, como tem sido dito? Os sangrentos confrontos das últimas semanas, que levaram às ruas milhares de pessoas genuinamente indignadas com o governo autoritário e corrupto de Ianukovich, opuseram os mesmos dois blocos que desde 1991 disputam o poder, ambos dirigidos pelos típicos dirigentes corruptos e cleptocráticos que tomaram conta de muitas das ex-repúblicas soviéticas depois do fim da URSS, e que contrapõem, na Ucrânia como noutros sítios, quem se apoia prioritariamente nos oligarcas russos e quem, pelo contrário, procura satisfazer as multinacionais ocidentais ou, como o novo governo de Kiev, pede agora aos ucranianos “sacrifícios” para cumprir as novas instruções do FMI... O que os divide não é, portanto, um programa político que permita perceber haver aqui uma esquerda (que existe, claro, e que nunca foi ou será apoiada por Putin!) e uma direita: o que há são duas direitas, favoráveis ambas a privatizações e reformas do Estado que têm permitido, desde há 20 anos, a apropriação sem pudor de recursos públicos, criando uma sociedade que passou, como outras do mundo pós-comunista, a deter recordes europeus de desigualdade entre ricos e pobres. Ianukovich já tinha estado antes no poder (PM em 2004-05 e 2006-07), e agora regressam ex-ministros dos governos de Yuchenko e Timochenko (2004-10). Revolução? A mim parece-me business as usual. Em política externa, é verdade que uns estão mais próximos de Moscovo e outros de Berlim ou de Washington – mas todos estiveram de acordo, por exemplo, em enviar tropas para o Afeganistão e para o Iraque sob as ordens dos americanos, ou em permitir a abertura na Ucrânia de uma das prisões secretas da CIA. E não é preciso trabalhar-se no Kremlin para se julgar serem sinistros alguns dos novos dirigentes ucranianos: basta ler-se o Guardian, de Londres! Desde um ex-diretor dos serviços secretos, agora Presidente interino, Olexander Turchynov, que terá destruído documentos que comprovariam ligações da exPM Timochenko com o crime organizado; um banqueiro, Arsen Avakov, acusado de operações ilegais com terras do Estado, agora nomeado ministro do Interior; um ultradireitista antissemita, Dmitry Yarosh, nomeado vice diretor dos serviços secretos; um vice PM, Oleksandr Sych, que acha coisas tão liberais como que as mulheres "devem mudar de vida se querem evitar o risco de violação" (Guardian, 4.3.2014).

O problema mais grave é agora a questão da Crimeia. O risco de secessão é tudo menos surpreendente num país historicamente dividido entre regiões ocidentais submetidas à Áustria até 1918 e à Polónia (até 1939), e regiões orientais ancestralmente ligadas à identidade russa e onde a identidade nacional ucraniana nunca se consolidou. A Crimeia é, aliás, um caso à parte, já que 60% da população é russa e fazia parte do território russo da União Soviética até 1954, quando Kruschov se lembrou de a transferir para a Ucrânia. Há aqui um paralelo evidente com o caso jugoslavo. O fim da URSS fez com que milhões de russos se tornassem de alguma forma estrangeiros em todas as demais 14 ex-repúblicas soviéticas, ao mesmo tempo que milhões de sérvios passavam a sê-lo dentro de ex-repúblicas jugoslavas que se tornavam independentes. Em ambos os casos, 1991 trouxe o fim de experiências federais em que cada uma das repúblicas federadas (ou repúblicas autónomas dentro destas – era o caso da Crimeia dentro da Ucrânia, ou do Kosovo dentro da Sérvia) se constituíra como representação política de um povo com autonomia e identidade nacional devidamente reconhecidas.

A crise dos regimes comunistas (re)abriu o caminho ao pior nacionalismo: xenófobo, nostálgico do pior passado, o dos fascismos genocidas dos anos 40. Nacionalistas ucranianos e croatas, recordemos, haviam sido dos mais empenhados aliados da Alemanha nazi no Holocausto e na perseguição da resistência soviética e jugoslava contra os ocupantes nazis. A implosão dos sistemas federais abriu caminho a novos estados de modelo unitário, onde a integração das minorias (os russos na Ucrânia, os sérvios na Croácia) foi tudo menos serena, julgando os nacionalistas de turno que elas podem ser pretexto para a ingerência externa (de Moscovo ou de Belgrado). A ascensão de nacionalistas ao poder em Kiev foi percebida na Crimeia como a rutura do fragilíssimo equilíbrio conseguido em 1992-95 com a sua autonomia, gradualmente cerceada, dentro da Ucrânia. E sendo a coligação que voltou ao poder em Kiev favorável à adesão da Ucrânia à NATO, é natural que os russos duvidem da viabilidade futura do acordo de 1992 sobre a manutenção das velhas bases navais soviéticas do Mar Negro.

Historiador

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