Sul do Sudão já decidiu futuro independente

Urnas encerraram ontem. Resultados finais de votação que deve determinar independência da região e divisão do maior país africano devem ser conhecidos no início de Fevereiro

O que George Emmanuel fez ajuda a explicar a elevada taxa de participação no referendo sobre a independência do Sul do Sudão, que ontem chegou ao fim: uma viagem de seis dias de autocarro desde El-Obeid, no Norte, até Juba, para poder votar. À entrada do último dia do escrutínio, iniciado no passado domingo, mais de 80 por cento dos eleitores tinham votado.

"Vim votar para a secessão", dizia ontem Emmanuel à AFP, sem esconder um sentido de voto que se pressente esmagadoramente maioritário entre os sudaneses do Sul, chamados a decidir sobre a manutenção da unidade com o Norte, que historicamente os marginalizou e reprimiu, ou a independência.

Os dados da comissão referendária, que qualificou o processo de "pacífico", indicavam que até anteontem tinham votado 3,25 milhões dos mais de 3,9 milhões de inscritos, uma participação que ultrapassava os 80 por cento - bem acima dos 60 por cento necessários para validar o referendo.

"É um excelente resultado, à luz de todas as normas internacionais. Vi outras eleições neste país e posso dizer que este escrutínio foi o mais pacífico, o mais organizado e o mais tranquilo", disse o presidente da comissão, Mohamed Ibrahim Khalil, numa conferência de imprensa na capital do Sul, Juba.

No Sul, tinham votado até ao último dia do referendo 3.135.000 pessoas, o que representa 83 por cento dos eleitores. No Norte, o número de naturais do Sul que se tinham pronunciado era de 62 mil, uma participação de 53 por cento, e, no estrangeiro, o número de votantes era de 55 mil, correspondentes a 80 por cento. Depois de uma enorme afluência nos primeiros dias, e de grandes filas de eleitores, os jornalistas viram ontem assembleias de voto praticamente desertas.

Uma hora antes do encerramento das urnas, segundo a AFP, um bispo da igreja episcopal de Juba, Paul Yugusuk, soprou a "última trombeta", uma espécie de vuvuzela cor-de-laranja, coberta por uma bandeira do Sul do Sudão, região semi-autónoma desde 2005. "É um sinal para mostrar que não é apenas o fim do voto, mas o fim da escravatura, da opressão e o começo da nossa liberdade", declarou.

A convicção geral é de que a opção independentista triunfará, pelo que a única dúvida parece ser a dimensão da vitória da secessão. Nas eleições de Abril do ano passado, os ex-rebeldes sulistas, que durante mais de duas décadas combateram o Governo de Cartum, obtiveram 93 por cento. Ainda que até lá possam ser conhecidos alguns dados preliminares, os resultados definitivos só deverão ser conhecidos no início de Fevereiro.

Apesar do clima geral de tranquilidade, o referendo fica também marcado por actos de violência que provocaram a morte de, pelo menos, 55 pessoas. Os casos mais graves foram a violência entre os dinka ngok sulistas e os misseriya nortistas, tribos rivais na região de Abyei - onde devia ter ocorrido um referendo paralelo sobre a pertença ao Norte ou ao Sul -, e o ataque a uma caravana de sulistas na província nortenha de Kordofan-Sul, que provocou dez mortes.

Êxodo para o Sul

O referendo e a perspectiva de independência estão a atrair muitos sulistas que viviam no Norte, predominantemente árabe e islâmico, à sua região de origem, mais vincadamente africana e maioritariamente cristã e animista. O chefe de operações humanitárias das Nações Unidas no Sudão, Georg Charpentier, disse ontem à imprensa que cerca de 180 mil pessoas voltaram já ao Sul e que, até ao fim do ano, o número pode ultrapassar o meio milhão. "Esperamos pelo menos 500.000 a 600.000 pessoas", afirmou, citado pela AFP.

O Presidente do Sudão, Omar al-Bashir, tem repetido a intenção de respeitar a vontade dos eleitores, mas a separação do Sul, região mais fértil do país e onde se concentram três quartos das reservas petrolíferas, não será fácil de digerir pelos responsáveis do Norte. O prometido levantamento de sanções económicas a Cartum, a retirada do país da lista norte-americana de estados terroristas e outros incentivos da comunidade internacional poderão ajudar a tornar a secessão uma realidade. Mas as negociações pós-referendo serão um teste difícil.

Em aberto estão delicados dossiers como a partilha das receitas do petróleo, escoado através do Norte, a fixação de fronteiras em alguns pontos sensíveis, como a região de Abyei - onde a definição do futuro estatuto pode representar um factor de conflito -, a circulação de pessoas e a cidadania. A independência, segundo o acordo de paz de 2005, deverá ocorrer no próximo mês de Julho.

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.

Nos Blogues