"Os meus livros não são proibidos porque não há livrarias no meu país"

De todos os lugares do continente africano, a Guiné Equatorial é certamente um dos piores, mas de que não se fala, diz Juan Tomás Ávila, escritor e dissidente. Ele quebra o silêncio numa conversa, na primeira pessoa, durante uma breve passagem por Lisboa. O autor de Dicionário Básico e Aleatório da Ditadura e outros livros denuncia um regime corrupto e repressivo, que quer branquear a imagem apostando na entrada na CPLP, como país membro de pleno direito, na cimeira de Julho

Eu tinha 13 anos quando Teodoro Obiang Nguema chegou ao poder, em 1979. Nasci e vivi a minha infância em Annobón. Não havia nada nesta ilha, mais a sul. Era como se nós não existíssemos. Não sofremos a repressão do terrível regime de Francisco Macias Nguema (1924-1979), seu tio. Sofremos abandono. Quando anoitecia, muitas casas não tinham luz. As pessoas iam directamente para a cama.

Senti a repressão quando vim para Malabo, a capital, já com Obiang no poder. Foi ele próprio que depôs o tio, depois condenado à morte, num golpe de Estado sangrento.

Quando estava no liceu, fundei uma revista escrita à mão. E assim se iniciou o meu caminho de escritor. Essa minha condição foi fruto das circunstâncias do meu país. Nessa época, eu já criticava o que não estava bem. Já sabiam que era dissidente.

Nos meus artigos na imprensa estrangeira, falo da situação política, o que me permite, nos livros, falar de outras coisas, contar histórias. E muitas transportam-nos para Annobón. Lá, a língua materna é o fadambo, um crioulo de origem portuguesa.

Esse foi um dos aspectos apontados para justificar uma entrada da Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A Guiné Equatorial já tem estatuto de país observador, agora quer ser país-membro com plenos direitos. Para mim, tudo isso não passa de um assunto pessoal. Um assunto dele, Obiang, com alguém com muita influência na CPLP - alguém que lhe quer fazer um favor. O favor é ter projecção, dizer que é um líder muito querido no mundo, quando não o é no seu país.

O país também faz parte da francofonia e para isso aprovou o Francês como língua oficial. O Português foi aprovado por decreto presidencial. Essas duas línguas juntam-se ao Espanhol, como línguas oficiais. Qual o sentido que isso faz?

Quando ele tenta entrar nestas instituições, quer branquear a sua imagem e organizar eventos para dizer que é um líder muito importante. Quando presidiu à União Africana (UA), construiu 52 mansões de luxo - uma para cada Presidente da UA, para aí ficarem alojados durante a cimeira, que durava dois dias.

Ele também quer um prémio da UNESCO com o nome dele e esse também seria pago por ele. Tem sido rejeitado, por ele ser quem é. E isso não tem só a ver com o seu regime repressivo, mas com o culto da personalidade levado ao extremo, a corrupção e a opulência, quando o povo vive na miséria.

No meu blogue, já escrevi muitas vezes sobre o Presidente Obiang. Quando ele sai do seu palácio para o aeroporto em viagem oficial, as principais estradas ficam cortadas durante cinco horas. Não há circulação e as pessoas são obrigadas a ir lá esperá-lo ou despedir-se, dançando, cantando, tocando tambores. Pode ser às cinco da tarde ou às cinco da manhã.

Submissão dos estrangeiros

Quando ele faz anos, espalham-se cartazes pela cidade a desejar "Feliz Aniversário, Senhor Presidente". A Empresa Orange (de telecomunicações, francesa) é uma das que promovem essas campanhas.

Não sei se é Obiang quem paga. Como há guineenses no conselho de administração desta empresa, também pode ser um acto de submissão a Obiang e dos próprios estrangeiros que querem investir na Guiné Equatorial.

O partido do Presidente também manda imprimir um tecido com o seu retrato, como o Mobutu no Congo, para capulanas. E todos os ministros - senhoras e senhores - vestem fatos tradicionais ou de corte europeu, com a cara de Obiang. Ele pensa que é um rei, sim, e que pode continuar no poder sem o apoio da população.

No dia do seu aniversário, muitas pessoas são obrigadas a ir aos festejos. Nos bairros, encerram o pequeno comércio, para que toda a gente possa ir.

O mesmo acontece quando o Presidente faz um comício. Num domingo, por exemplo, esperam as pessoas à porta da igreja e levam-nas para o estádio onde o Presidente fala.

Nesses comícios, pode dizer que os estrangeiros são nossos inimigos, que querem invadir o país e que temos de estar preparados para nos defendermos - como antigamente os regimes comunistas. Quando iniciei uma greve da fome no meu país, no ano passado, foi para protestar contra a visita de uma delegação de deputados espanhóis a Malabo. Para mim, essa visita configurava um apoio da Espanha a uma ditadura. Como era possível que, numa altura em que Mubarak estava a cair no Egipto e Ben Ali já tinha caído na Tunísia, e tendo a Espanha já cortado com o apoio a essas ditaduras, estar afinal a apoiar uma outra?

Convidei os deputados espanhóis para minha casa, para verem como vivem os guineenses, sem água, sem luz. Eles não vieram. Todos os dias, como muitas pessoas, tenho que andar meio quilómetro para ir buscar água com garrafões, com um carrinho de mão. E isso na capital.

Os que têm dinheiro têm motor para bombear água e gerador para a electricidade. Mas a população, na sua maioria, não tem dinheiro. Há muita gente a fazer muitos sacrifícios, como eu próprio.

Podemos estar dois dias sem electricidade. Não se pode guardar comida no frigorífico. Sem luz, não se pode ler, não se pode escrever, não se pode ter Internet em casa. Eu não posso comprometer-me com o meu blogue porque não tenho acesso à Internet.

A minha casa é em frente a uma escola pública. É desolador: a escola tem buracos na parede, não tem quadro, nem secretárias. Em muitas escolas, são os alunos que levam as cadeiras ou as carteiras de sua casa.

No hospital público, quando se está doente, tem que se levar e pagar tudo: levar lençóis, comida, e pagar oxigénio, comprimidos.

Muitas vezes, quando é muito grave, com crianças nos braços, podem dizer a um pai ou a uma mãe que, se não tiver dinheiro, não será atendido. Eu sou enfermeiro, trabalhei em hospitais, conheço esse mundo muito bem. Mas quando se pretende saber dados sobre mortalidade infantil ou óbitos em hospitais, não há estatísticas nas páginas das instituições internacionais.

A Guiné Equatorial é um país sem estatísticas. E a situação não melhorou nada nos últimos dez anos, como se diz, por causa da produção de petróleo. Começaram a melhorar-se as estradas. Construíram-nas para as empresas estrangeiras para desenvolverem mais e melhores negócios mas sem quaisquer benefícios para a população.

Desde os anos 1990, quando começou a exploração de petróleo, as escolas continuam na mesma. Os hospitais também. E desde então que todos os ganhos vão para os responsáveis do regime. São eles que podem dar formação universitária aos seus filhos, construir casas e comprar coisas de luxo no estrangeiro.

A justiça dos EUA está a investigar o filho predilecto de Obiang e provável sucessor, no quadro de um processo por alegada utilização indevida de dinheiros públicos. Ele tem o mesmo nome do pai (ao qual se acrescenta o Mbasogo) e acumula mansões e Rolls-Royces, enquanto dois terços da população vivem com menos de um dólar por dia.

Execuções e tortura

Os meus livros não são proibidos pela simples razão de que não há livrarias no meu país. Não há uma editora, uma única livraria. Sem luz em casa, as pessoas lêem debaixo de candeeiros de rua. Vêem-se, ao cair da noite, muitos miúdos na rua a ler com tranquilidade debaixo de um candeeiro. Eu fazia isso, com 15 anos.

Não há livros escolares. Não há bibliotecas. As escolas sobrevivem sem nada.

Muitas casas não têm casa de banho, e as pessoas vão às escolas fazer as suas necessidades. As escolas existem como um lugar abandonado.

Se houvesse um jornal que falasse claramente contra o regime, decerto o proibiriam. Só há rádio e televisão do Estado. O único partido da oposição só tem um deputado e nunca aparece nesses media.

No meu blogue também escrevi sobre a execução sumária de opositores em 2010: eram guineenses que estavam num país africano e que Obiang acusou de serem golpistas. Pagou dinheiro a mercenários e eles trouxeram-nos para a Guiné. Foram torturados, sem que a família soubesse nada deles. Foram condenados à morte por um Tribunal Militar, levaram-nos para um bosque onde os mataram durante a noite. Houve testemunhas que viram os militares a enterrarem os corpos no cemitério, no escuro da noite.

Tinha a certeza que isso acontecera e contei-o no meu blogue. Não sei se sou vigiado. O facto de trabalhar no Centro Cultural Espanhol, em tempos, garantiu-me uma certa protecção. Agora vivo em Barcelona. De Espanha, consigo melhor sensibilizar a comunidade internacional para a realidade do meu país. Aí posso manter o meu blogue e os meus contactos via Internet, o que não posso em Malabo. Lá, mesmo as pessoas que concordam comigo não me apoiam. Por medo. Numa conferência, um senhor aproximou-se de mim, mas não me quis cumprimentar, por medo de que o confundissem com um dissidente e o perseguissem. Ele disse-mo claramente. Pensa que o país não está bem, mas não diz nada. Como a maior parte das pessoas.

As pessoas não protestam, não vão para a rua, porque a repressão é real. Podem prender uma pessoa e ninguém nunca saber onde está. Os familiares vão muitas vezes à esquadra, e a polícia diz que não sabe quando a pessoa está mesmo ali numa das celas sem água e sem comida. Se ele morre, dizem que morreu de doença. Ninguém investiga.

A comunidade internacional fala sempre da falta de liberdades, teoricamente, mas é importante que concretize. Que diga que este país em concreto, com este Presidente em concreto, viola os direitos humanos.

Mas os países põem os negócios à frente desses princípios. Os negócios já existiam antes de haver petróleo, nos anos 1990. Mas, sim, talvez o silêncio da comunidade internacional seja agora ainda maior.

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