O silêncio como estratégia de sobrevivência dos católicos

A Constituição diz que todos os cidadãos são iguais. Mas, no Paquistão, um cristão não pode sonhar em ser Presidente

Não há nada que os distinga. Comem as mesmas comidas, frequentam os mesmos mercados, vestem-se da mesma forma. Esta é uma das metades da vida dos cristãos no Paquistão. A outra é mais negra. Igrejas são atacadas, raparigas são violadas, morre-se pela fé. Não se fecha os olhos a isto, sobretudo sendo bispo, como é Sebastian Shaw, bispo auxiliar de Lahore.

"Todas as minorias têm dificuldades na expressão da sua fé porque os fundamentalistas acham que só há uma religião que é verdadeira e que os outros têm que a seguir, ou não terão direito a viver". Sebastian Shaw, que visitou Lisboa na semana passada, a convite da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, começa assim, sem rodeios, a conversa com o PÚBLICO. Dirá mais. Acusará o Paquistão de não respeitar a Constituição e de estar muito longe de se secularizar.

Os cristãos são a segunda maior minoria do país, representando 1,6 por cento da população, ou seja, 2,8 milhões de pessoas (a seguir aos muçulmanos, cerca de 95 por cento, seguem-se os hindus). A comunidade cristã alargou-se depois das conversões de hindus de castas baixas no Punjab, quando o território era governado pela coroa britânica, e é ainda nesta província onde mais se concentra. Mas há católicos a viver noutros locais, e ainda não há muito tempo "a Al-Qaeda em Peshawar lançou-lhes ameaças de morte", continua Sebastian Shaw.

A seguir aos atentados de 11 de Setembro de 2001 contra os Estados Unidos, que responderam com a invasão do Afeganistão e o derrube do regime taliban, os cristãos paquistaneses tornaram-se alvos frequentes de violência. A 16 de Outubro desse ano, uma igreja foi incendiada em Carachi, num domingo, matando 16 pessoas: era o pior ataque contra a minoria na história do país.

"Os ataques pararam, mas, de tempos a tempos, voltam", continua Shaw. "Em Agosto de 2009, duas igrejas foram atacadas, uma em Gorian e outra em Gojra [ambas no Punjab]. Em Gojra, alguns fundamentalistas deitaram-se na estrada para impedir os bombeiros de passar para apagar o fogo... A religião é usada contra a religião e isso é sempre um problema".

A comunidade sofre com o que se passa à distância. Quando há uma crise, como a dos cartoons do profeta Maomé publicados pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten, em Setembro de 2005, é frequente haver retaliação. "Se acontece um problema aqui na Europa, nós somos atacados lá, porque acham que, por a Europa ser católica, nós estamos todos alinhados". Foi a mesma lógica para os ataques que se multiplicaram depois da guerra no Iraque. "O raciocínio é: "Se isto é uma igreja, tem de estar com a América"".

As autoridades prestam-se a garantir a segurança, na maioria dos casos. "Vem a polícia e informa-nos que temos de ser protegidos. Aos domingos, enviam polícias para as portas das igrejas [em zonas de risco]. Pedem a pessoas da paróquia que ajudem a identificar os cristãos, para dar protecção. Dizem que devemos erguer muros mais altos e com arame farpado. Estraga a beleza da igreja, mas temos de fazer o que diz o Governo".

Outro dos problemas graves são as conversões forçadas, que "estão a aumentar", denuncia. "Pessoas que trabalham em fábricas e escritórios são pressionadas pelos colegas ou pelos patrões: "Porque não lês este livro? Porque não casas com aquele?" Há casos de raparigas que são violadas para que depois casem com o violador: "Se vais para a tua terra, ninguém casa contigo. O melhor é casares com este"".

Abre-se um parêntesis. "Há também muçulmanos moderados que respeitam a religião. Muitos acham que os cristãos são honestos e sabem educar as crianças e até as põem em escolas católicas a estudar e usam os hospitais da igreja".

Os cristãos paquistaneses não vivem em gueto, garante o bispo. "Misturam-se com as pessoas, nas escolas, mercados, usam as mesmas roupas, comem as mesmas coisas. É exactamente o mesmo. Em algumas áreas, agrupam-se por quarteirões, para se sentirem mais protegidos. Está a ser cada vez mais assim. Não devia, mas é".

Também não deveria haver descriminação e há. "Pela Constituição, todos os paquistaneses são iguais. Mas, em certos cargos, só se aceitam muçulmanos. O chefe do Exército, por exemplo, também tem de ser muçulmano". O primeiro-ministro também, tal como o Presidente, que "não só deve ser muçulmano, como sunita", continua Shaw.

No Paquistão, muitos cristãos, incluindo o bispo Shaw, adoptaram um modo de sobrevivência, que se tornou num modo de estar: "Evitamos falar de religião em público".

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