Imran Khan é nacionalista e ingénuo mas alguma coisa estará a fazer bem

Os comícios quase desapareceram da campanha, mas Khan juntou mais do que uma vez 100 mil pessoas ATHAR HUSSAIN/REUTERS

Sonha levar o povo em cruzada contra a corrupção. Sonha fazer desaparecer os taliban, sem lhes fazer guerra. É conservador e nacionalista. As eleições podem ser históricas também para si

Imran Khan é uma celebridade, um herói e um político. É um homem indesejado nos Estados Unidos, o que não passara pela cabeça do paquistanês até Outubro. Estava dentro de um avião, em Toronto (Canadá), à espera de partir para Nova Iorque, onde iria discursar num almoço de angariação de fundos, quando a polícia entrou e o levou para uma sala de interrogatórios.

Uma hora de espera, uma hora de perguntas, um avião perdido e um discurso que não foi feito. Seria esse o objectivo das autoridades de imigração americanas que pediram a intervenção da polícia?

Khan ia falar contra a guerra dos drones que a América começou em 2004 no Paquistão contra os taliban, mas que matou sobretudo civis. Ia relembrar números oficiais: de todos os ataques feitos - com 3500 mortes -, os drones só atingiram 41 alvos pretendidos, o resto foi ao lado, foram erros, foram danos colaterais.

"Imaginam isto [a polícia, o interrogatório] a acontecer a um americano que estivesse num avião com destino ao Paquistão?", indignou-se Khan, que contou o episódio numa entrevista que deu ao tablóide britânico Daily Mail, em cujas colunas sobre vida social apareceu tantas vezes nos anos 1980 e 1990.

Em Washington, não gostam dele, mas Imran Khan deve estar a fazer qualquer coisa acertada - como escreveu o escritor indiano Pankaj Mishra no New York Times - porque é, hoje, o político mais popular do Paquistão.

Ser o mais popular não significa ter mais votos nas eleições, e aproximam-se mais umas, históricas, no dia 11 de Maio - pela primeira vez nos 65 anos de História deste país, um Governo civil e eleito passa o testemunho a outro idêntico.

O partido de Imran Khan, Movimento para a Justiça (PTI, na sigla original, criado em 1996), nunca ganhou mais do que um lugar na Assembleia Nacional de 342 membros. Entre 2002 e 2007, Khan foi deputado, mantendo a mensagem inicial: fazer uma guerra feroz à corrupção, uma doença endémica no Paquistão, acabar com a aliança com os EUA na "guerra contra o terrorismo" que o Presidente americano George W. Bush começou (e em nome da qual começaram os ataques dos drones), instituir um verdadeiro Estado social muçulmano.

Preocupações tão terrenas e reais para uma pessoa que, nos anos 1980, flanava pelos clubes nocturnos de Londres, fazia amizade com Mick Jagger, se envolvia com mulheres bonitas e acabava a casar com uma herdeira, Jemina Marcelle Goldsmith, filha de um multimilionário e de uma lady britânica. Ele tinha 43 anos, ela 21, e o casal, que teve dois filhos, separou-se ao nono ano de casamento.

Foi nessa altura que Khan se tornou uma celebridade, aproveitada que foi a fama de herói bem-parecido feita como capitão da selecção paquistanesa de críquete - em 1992, tinha ele 39 anos, a equipa foi campeã mundial e o Paquistão sucumbiu a seus pés, agradecido; Khan já se tinha retirado quando voltou à selecção, a pedido do Presidente Zia ul Haq. Ainda hoje é considerado um dos oito melhores jogadores de críquete do mundo.

Críquete e nacionalismo

Os analistas políticos que escreveram sobre o "auto-sacrifício" quando decidiu ser político explicaram que as raízes nacionalistas de Imran Khan já eram visíveis nos primeiros tempos do críquete. "O intenso nacionalismo de Imran Khan surgiu nos campos, no final dos anos [19]70, quando os jogadores de pele escura do antigo império britânico começaram a derrotar regularmente as equipas de brancos", escreveu Pankaj Mishra, que é o autor do livro From the Ruins of Empire: the intellectuals who remade Asia (ed. inglesa da Farrar, Strauss&Giroux).

Imran Ahmad Khan Niazi nasceu no dia 25 de Novembro de 1952; tem 60 anos. É um pashtun de Lahore (Punjab) e a sua família fazia parte da elite educada e anglicizada. Estudou na Inglaterra racista dos anos 1970 e tornou-se herói paquistanês no desporto e uma celebridade em Londres.

A sua viragem de vida, Khan conta-a nas páginas de Pakistan: a personal history, que é uma autobiografia onde fala muito de religião, omite o seu lado socialite e dedica um capítulo ao casamento, que foi especialmente favorável aos seus inimigos quando decidiu ser político. Chamaram-lhe "sionista Khan", por causa da ascendência judaica de Jemina.

Hoje, Khan fala mais claramente de temas que estão no livro, ligando a crise de valores à decadência do Paquistão. "Em Lahore e Carachi, as mulheres abastadas são levadas a festas por homens com costumes diferentes dos [nossos] e usam roupas ocidentais", disse Khan.

Os inimigos chamaram-lhe hipócrita. Imran Khan respondeu que fez um regresso ao que interessa - à terra pobre, o que o fez tornar-se um filantropo (fundou uma universidade e um hospital); decadente, o que o tornou político; desligada da espiritualidade, o que o fez repensar a sua relação com a religião.

"Quando cheguei a Inglaterra, fiquei chocado com o que os Monty Python faziam com a religião cristã em A Vida de Brian. É a maneira de ser deles. Mas, para nós, muçulmanos, o sagrado Corão e o Profeta, que a paz esteja com ele, são sagrados. Por que é que o Ocidente não aceita que temos formas diferentes de olhar para a nossa religião?", disse Imran Khan ao New York Times.

O escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie chamou-lhe "Taliban Khan" e "ditador em formação". "Sempre detestei os livros dele. Ele só vê o lado feio das coisas. Ele é - qual é a expressão que os judeus usam? - um muçulmano cheio de ódio por si próprio", respondeu o paquistanês.

O pensamento de Imran Khan não mudou muito ao longo dos anos políticos. Apurou-se ("intensificou-se", diz ele). Quer negociar com os taliban e quer apoiar as tribos onde as bolsas mais radicais estão inseridas (Sul e Sudoeste), de forma a que a autoridade tradicional ressurja e os taliban se diluam na paisagem. Quer acabar com a guerra contra o terrorismo - com a aliança com os Estados Unidos -, que considera responsável pelo aumento da influência taliban no Paquistão. "Sou acusado pelos liberais de ser um extremista. E sou acusado [pelos] extremistas de ser uma marioneta dos americanos", disse ao Daily Mail.

Os críticos chamam-lhe "ingénuo" por acreditar que é possível negociar com extremistas islâmicos, que, de mês para mês, se tornam mais fortes e mais violentos nos seus ataques. Nesta campanha eleitoral, emitiram um comunicado condenando à morte os políticos seculares e anunciando atentados contra os seus comícios.

Ameaças e assassínios

A ameaça teve efeitos - até porque houve candidatos assassinados -, com os grandes comícios a desaparecerem da paisagem e a serem substituídos por "pequenos ajuntamentos de esquina", como lhes chamou a BBC. Os dos partidos religiosos e os de Khan, esses, ficaram, e o candidato a primeiro-ministro do PTI juntou mais do que uma vez cem mil pessoas.

A influência dos taliban produziu um segundo efeito - apesar de haver um favorito, o conservador Nawaz Sharif (da Liga Muçulmana do Paquistão, PML-N), que já foi chefe do Governo por duas vezes, não há indicadores fiáveis sobre as percentagens que cada formação poderá obter nas eleições.

Neste contexto, os analistas começaram a escrever que estas eleições podem não ser só históricas para o Paquistão, podem ser históricas para Khan. Não se espera que seja primeiro-ministro, mas a dispersão de votos na ala conservadora e religiosa e o medo dos partidos seculares podem dar-lhe um resultado surpreendente. Quem sabe, até, arriscavam alguns, um resultado que obrigue Sharif a consultá-lo na formação de um Governo ou no Parlamento.

Seja o que for que aconteceu no clima político paquistanês, a verdade é que Nawaz Sharif pressentiu um perigo. E ontem, numa entrevista à Reuters, depois de um comício em Lahore - um terreno conservador e religioso, muito castigado pela violência, que não se deixou cativar politicamente pelo antigo jogador -, decalcou algumas ideias de Imran Khan e disse, pela primeira vez, que talvez negociar com os taliban seja uma boa solução e romper com os EUA seja ainda melhor.

"Penso que as armas e as balas nem sempre são a solução para os problemas. Penso que devemos explorar outras opções ao mesmo tempo e ver se funcionam. E creio que vamos optar por todas as soluções", disse, sendo depois mais claro ao afirmar que talvez a campanha militar conjunta com os EUA não seja a melhor forma de derrotar os taliban.

Imran Khan terá sorrido ao ouvi-lo e ao lembrar-se dos que lhe chamaram ingénuo. "Temos hoje mais extremismo do que alguma vez tivemos na nossa História. O Paquistão está a mergulhar numa espiral de fanatismo. Tem que parar. A nossa elite, os chamados liberais, são os únicos liberais do mundo pró-guerra e a sua filosofia é a de George W. Bush. A América, não os militantes islamistas, é responsável pela violência e pela instabilidade na nossa região", disse Khan num dos seus comícios, e o guião não varia muito entre cada um deles, ou entre cada entrevista que dá.

Outra coisa que costuma repetir: "Nunca, mas nunca, disse uma frase a favor dos taliban. Nunca deixei de condenar os ataques deles sobre civis. Não sei o que esperam que faça: querem que pegue numa espingarda e os ataque?".

Outra das suas visões que o passar do tempo também "intensificou" foi a da guerra à corrupção. Khan, que chegou a dizer que erradicaria esta cultura enraizada em 90 dias, continua a prometer uma resposta rápida para o problema - Sharif, que no passado falou muito nesta guerra, secundarizou-a nesta campanha.

A corrupção paquistanesa é ancestral e, em muitas zonas, uma terrível tradição de consequências locais e nacionais. No Paquistão rural, a organização social segue um modelo feudal em que o senhor local é quem manda. E se o senhor manda votar num partido, é bom que se vote nele porque é fácil saber-se quem votou em quem. A justiça está igualmente submetida ao clientelismo e, quanto à polícia, é o próprio Imran Khan que tem dito que as esquadras se assemelham a "centros de opressão".

Uma lei de 2005 enviou 44 mil funcionários estaduais para a prisão por corrupção e, em algumas zonas, foi o que bastou para as economias locais começarem a florescer, quebrando a rotina da pobreza. Imagine-se, disse o candidato num comício, que a esta limpeza se juntam outras boas práticas, por exemplo o pagamento de impostos por parte de quem ganha mais dinheiro?

Para Khan, a guerra contra o terrorismo adensou a corrupção. "61% dos nossos deputados não pagam impostos. E as elites sugam toda a ajuda que chega do estrangeiro por causa da guerra."

O fim das linhagens?

Os números, já se viu, valem pouco, mas a última sondagem pré-campanha de terror taliban dava Khan a conseguir 20% dos votos. No papel, está a par do Partido do Povo do Paquistão (PPP) dos Bhutto e de Asif Ali Zardari, o Presidente cercado de escândalos de corrupção que é o viú-vo de Benazir Bhutto, assassinada na campanha eleitoral de 2007.

Apesar de estar oficialmente na política há 15 anos, Imran Khan é um inexperiente. É por isso que o jornal britânico The Guardian considerava estes 20%, que têm já muitos meses, um prodígio. "No mundo brutal que é a política do Sul da Ásia, onde dinastias, patronatos e braços-de-ferro valem mais do que a política ou o apoio dos cidadãos, [aquela percentagem] foi um feito extraordinário", admitiu o jornalista especialista nesta região Jason Burke, que se quis redimir de um texto anterior a que chamara No Khan Do.

Quando Imran Khan surgiu, a paisagem política ainda pertencia a uma família paquistanesa, os Bhutto, e a ambição política do então socialite foi uma espécie de piada no Paquistão e no Reino Unido. Agora Bhutto está morta, o marido é odiado e Sharif olhado de lado pelos cidadãos, que estão cansados dos políticos habituais. E Khan ganhou espaço neste jogo: "[Quando comecei,] a política, para mim, era como ir para o campo enfrentar uma bola sem taco e sem luvas."

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