Cenários e riscos de uma operação militar que ninguém parecia desejar

Paul Farley/AFP

Estão reunidas as condições?
Há muito tempo que ficou claro que do Conselho de Segurança das Nações Unidas não sairá uma resolução a autorizar uma acção militar externa na Síria. Não é necessária: há precedentes para agir sem mandato da ONU (caso do Kosovo) e a convicção do recurso a armas químicas em grande escala por Bashar al-Assad tornou insuportável a inacção de Barack Obama, que em 2012 definiu que essa seria a "linha vermelha". Três importantes aliados estão dispostos a envolverem-se numa operação - mesmo não sendo claro até que ponto - e esses países (Reino Unido, França e Turquia) são suficientes para arrastar outros. Ancara afirma que os possíveis cenários militares estão a ser discutidos por "36 a 37 países".

Que opções estão na mesa?
Afastado que está o envio de soldados para o terreno, equacionam-se outros cenários. A opção com maior consenso é a de bombardear alvos militares específicos - uma campanha que teria o duplo objectivo de mostrar a Damasco que o uso de armas químicas tem um preço, e evitar que o regime sírio volte a usar os seus arsenais. Seria uma missão limitada no tempo, com mísseis de cruzeiro disparados a partir dos navios que os EUA têm no Mediterrâneo (na foto) ou de caças-bombardeiros, o que não implicaria a destruição prévia das defesas antiaéreas, mas teria pouco impacto no equilíbrio de forças no terreno.

Um segundo cenário, defendido por alguns senadores americanos, é a imposição de uma zona de exclusão aérea sobre a totalidade ou parte da Síria, como aconteceu na Líbia. Seria necessário destruir pistas de aterragem, defesas antiaéreas e os aviões sírios. Isto retiraria ao regime parte da vantagem sobre os rebeldes, mas obrigaria ao envolvimento de mais meios, durante mais tempo e com maiores riscos militares. Impor uma zona de exclusão sem o aval da ONU levantaria também questões de legitimidade.

Outros países, como a Turquia, defendem uma solução intermédia que passa pela criação de zonas protegidas ou de corredores humanitários em regiões fronteiriças. Mas além da óbvia limitação da soberania síria, não é claro como seria garantida a sua segurança.

Quais os riscos da intervenção?
Para além do perigo óbvio de provocar vítimas entre a população civil e baixas nas forças militares envolvidas, um ataque, por mais limitado que seja, terá consequências que não se limitam à Síria. O jornal israelita H'aretz escreveu que um operação internacional vai intensificar a guerra civil e tornar mais improvável uma solução política. Mas o maior risco é que um ataque precipite os países vizinhos para a guerra, que se transformaria num conflito regional - de um lado o Irão; do outro árabes e turcos. A Rússia diz não ter interesse em envolver-se no conflito, mas pode enviar a Assad sofisticado equipamento militar. O Irão mandará mais armas e homens, mas é o Hezbollah que maior probabilidade tem de lançar acções de retaliação - a milícia xiita libanesa combate ao lado do regime e, se for atacada, pode retaliar contra Israel, que avisou estar preparado para "todos os cenários". Riscos que são tanto maiores quanto mais visível for a intervenção ocidental. Martin Dempsey, chefe do Estado-Maior Interarmas americano e um dos mais cépticos da intervenção, disse a propósito da imposição de uma zona de exclusão: "Não seria decisiva em termos militares, mas iria implicar-nos decisivamente na guerra".

Que alvos poderão ser visados?
Os depósitos de armas químicas poderiam ser tidos como alvo prioritário de um ataque. A opção envolve, no entanto, vários riscos, quer dada a elevada mobilidade dos stocks, quer por causa do risco de contaminação que um bombardeamento envolveria - há informações não confirmadas de que Damasco deslocou agentes tóxicos para zonas povoadas.

As defesas antiaéreas seriam o primeiro alvo de uma acção para impor uma zona de exclusão aérea, mas um ataque punitivo tanto poderia visar estes equipamentos, como as unidades militares implicadas no uso de armas químicas ou até mesmo infra-estruturas e edifícios governamentais.

Nos últimos dias, o Pentágono actualizou a lista de potenciais alvos para os mísseis de cruzeiro, noticiou a televisão CNN.

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.

Nos Blogues