Amina Tyler: o corpo é dela, não serve a honra de ninguém

Amina, aos 19 anos, cansou-se das restrições e formatação imposta às mulheres na Tunísia e tirou fotos nua (em baixo), que enviou às Femen ucranianas (em cima). Foi um gesto de protesto que lhe valeu uma intensa perseguição DENIS SINYAKOV/Reuters

Uma tunisina de 19 anos decidiu juntar-se às feministas Femen em protesto pela condição das mulheres do seu país.

Em casa de Amina todas as mulheres usaram sempre véu e ela decidiu que andaria de cabeça descoberta. Na Tunísia não se viam protestos de feministas nuas e ela decidiu despir-se. Por ela e pela liberdade de todas as mulheres, tirou a camisola e escreveu no peito e na barriga, em árabe: "O meu corpo pertence-me, não serve a honra de ninguém." Um amigo fotografou-a e ela enviou as imagens às ucranianas do movimento Femen, para que as publicassem. Para se tornar numa delas.

Por todo o mundo, Amina Tyler foi vista assim, nua da cintura para cima, lábios vermelhos, cigarro na mão. Noutra fotografia a mensagem foi em inglês, para todos entenderem - "Fuck your morals" - e um gesto obsceno com cada mão.

Digam dela o que quiserem. Nenhuma mulher é verdadeiramente livre na Tunísia, explicou mais tarde em entrevista a uma jornalista italiana publicada no Huffington Post. "Desde pequenas que nos dizem para nos comportarmos, para nos vestirmos de certa forma, tudo para ter um marido." Também é importante que estudem, porque os jovens hoje "gostam de mulheres que trabalhem". Aos 19 anos, Amina fartou-se e deu um grito para o mundo.

"Não obedeceremos a mais nenhuma autoridade: nem familiar nem religiosa. Sabemos o que queremos e tomamos as nossas decisões", afirmou na mesma entrevista. Acredita que a hora da mudança é esta, que as tunisinas estão prontas.

O gesto valeu-lhe o título de "primeira Femen tunisina", segunda do mundo árabe, depois da egípcia Aliaa al-Maghdy. O que aconteceu depois disso foi o óbvio num país que desde o fim do regime de Ben Ali - derrubado pelos protestos Primavera Árabe em 2011 - assiste a uma luta entre liberais e islamistas. E em que os segundos ganharam muita força depois de vencerem as primeiras eleições para a Assembleia Constituinte. O óbvio foi uma perseguição, com ameaças de morte, dos radicais salafistas. "Escreveram de tudo sobre mim: que trabalho para a Mossad, que sou uma puta", disse à mesma jornalista.

Desaparecida

Teve de se esconder. Sabe-se que ficou algum tempo em casa do mesmo amigo que a fotografou. Nesses dias, ainda publicou mais uma fotografia, em que dizia que "o corpo da mulher não é pecado". Depois desapareceu mesmo. Quando deixou de conseguir contactá-la, quando parou de responder aos emails e deixou de aparecer disponível no Skype, Inna Shevchenko, uma das principais activistas das Femen ucranianas e fundadora do grupo francês, lançou o alerta nas redes sociais. Começaram a circular rumores de que a família a teria internado num hospital psiquiátrico de Tunes. Era mentira.

Bochra Belhaj Hmida, feminista e presidente da Associação Tunisina das Mulheres Democratas, que diz ser sua advogada, garantiu à AFP que tinha falado com Amina e que ela estava bem, a descansar com a família, e que voltaria à escola em breve. Shevchenko insiste que se estivesse tudo bem conseguiria contactá-la e diz, como outras feministas tunisinas, que a jovem foi "detida pela família com a ajuda da polícia".

Uma versão que bate certo com a história que a jornalista Martine Gozlan contou na revista francesa Marianne, depois de na semana passada a ter descoberto numa pequena localidade longe de Tunes, que não pôde nomear. Estava com a família, sim, mas não estava bem. Medicada com elevadas quantidades de anti-depressivos, repetia que só queria voltar à escola e ter o telemóvel e a Internet de volta.

A mãe - que nunca a deixou a sós com a jornalista - dizia que a família a isolou porque Amina está "psicologicamente fragilizada" e porque é muito influenciável. E que foi isso, aliás, que a levou a espalhar fotografias em que aparece seminua. Amina contraria-a: fez o que fez porque quis. E, ainda que com uma voz trémula e apagada, fez questão de contar que quando a família a encontrou, antes de a levar para ali, um primo - o mesmo que lhe tirou o telemóvel - lhe bateu como castigo.

"Tiro a abaya por Amina"

Amina pode nem estar a ver, pode nem saber de nada, mas a sua luta já é a luta de todas. Não só na Tunísia, em todo o mundo. No Facebook e no site das Femen já foram publicadas centenas de fotografias de apoio enviadas por mulheres de todo o mundo. Seios descobertos, quase sempre a mesma frase: "Libertem Amina." Em todas as línguas.

Do Bahrein, uma fotografia que não se esquece: uma mulher que despiu a abaya (túnica tradicional), deixou-se em cuecas e véu, um véu que não deixa ver-lhe o rosto. "Sou do Bahrein e protesto pelas raparigas muçulmanas. Tiro a minha abaya por Amina. Sou muçulmana."

Lançaram-se petições assinadas por famosos (a realizadora tunisina Nadia el Fani, por exemplo, também se despiu por Amina), escreveu-se muito, tiraram-se muitas fotografias. "Não a conheço nem nunca falei com ela, mas ela representa-me", disse numa resposta por email Maryam Namazie, activista iraniana pelos direitos das mulheres, que está a mobilizar personalidades de todo o mundo por Amina.

Agora a guerra dos radicais que ameaçaram Amina de morte já não é só contra ela. Na sexta-feira, o site das Femen voltou a ser atacado por hackers islamistas, que deixaram ameaças indignas: "Venham aqui à Tunísia! Morram, prostitutas de Israel!" Elas não parecem ter medo. Antes de Amina, o movimento Femen ainda não tinha chegado à Tunísia e hoje há um grupo. E apareceram outros, em Marrocos e na Argélia.

Quinta-feira, o mundo voltará a falar nela: 4 de Abril é o Dia Internacional em Defesa de Amina. Para as Femen será "o primeiro dia de uma nova Primavera Árabe". Desta vez a sério.

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