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O Mundo de Jó

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O Mundo de Jó

Jó Bernardo não alterou o género no cartão de cidadão nem fez a cirurgia de reatribuição sexual. Assumiu-se como mulher nos anos 80 quando ser transgénero ou transexual era ainda um tabu. Durante muito tempo, Jó lutou, confrontou-se com situações de embaraço, manifestou-se em público e envolveu-se em projectos de activismo LGBT. Mesmo assim, a sua mensagem não passou. "O direito à diferença, nós sermos diferentes, nunca foi aceite e continua a não ser aceite", desabafa. Na casa da Murtosa, onde passa metade do ano com o companheiro Alexandre, construiu uma espécie de muralha: obras de arte a ocupar os quartos e, pela primeira vez, uma sensação de paz. Com 52 anos, Jó consegue dizer que é ela própria. E se isso não chegar?

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Há um certo... Não sei se a palavra correcta será anonimato, mas há uma certa indiferença que me agrada em Paris. Tu podes ser diferente, mas é indiferente. E eu gosto dessa sensação. Como gostei no início, quando me mudei para Paris, exactamente desse anonimato. Eu em Paris não era ninguém.

Aqui eu era a primeira que abriu a primeira livraria gay, a primeira que criou uma associação trans, a primeira que ajudou a coordenar o primeiro projecto europeu sobre trans e saúde. A primeira que, e a primeira que...

Passo metade do ano em Paris e outra metade na Murtosa, uma pequena vila em Aveiro. É um mundo diferente de Paris. Os vizinhos cuidam da minha casa quando não estou, varrem as folhas caídas no chão. A vizinha de trás pede-me sempre um postal dos sítios onde vou.

Nunca percebi se eles sabem ou se têm noção de quem eu sou. E eu faço questão de não levantar essa questão. Não os vou confrontar com algo que eles desconhecem. Se têm dúvidas, guardam-nas com eles. Ou acham que isso não é importante.

Eles têm 70 e muitos anos e são católicos praticantes. Falo sobre a vida, a igreja, sobre as plantas, a vizinhança e descubro os nomes das flores, a época de podar.

Nasci em Lisboa, mas cresci em Viseu ligada à terra. Mas já me esqueci... Do sabor, do cheiro... Tenho um irmão gémeo e naquela altura a nossa mãe vestia-nos com roupa igual. Na rua as pessoas pensavam que éramos um casal, porque ele andava sempre desleixado e eu toda arranjadinha.

Com 14 anos, fugi de casa. Na Estação Ferroviária do Rossio, conheci umas “travecas” que me explicaram que se precisasse de dinheiro podia ir para a Avenida da Liberdade e conseguia sobreviver. Aos 15, comecei a prostituir-me. Não voltei mais a casa.

Lembro-me de um fato-macaco rosa que comprei na Baixa de Lisboa. Ao esconder-me da polícia, meti-me debaixo de um carro e sujei o fato todo. Tínhamos um grupo de “travecas” que vivia do dia-a-dia. Roubava pão dos saquinhos de tecido que os padeiros punham de madrugada à porta das casas e leite em garrafas de vidro.

No Inverno, dormíamos em pensões; no Verão, dormíamos na rua, no Parque Eduardo VII. Poupávamos o dinheiro para comer gelados.

Fui o Evaristo Jorge até aos 30 anos. Com 20, comecei a transformação.

Em 1996, pedi a alteração do nome original como já era permitido na altura para Jó Bernardo dos Santos. Fiz injecções de silicone industrial na década de 1980 nas ancas, no peito, no queixo e nas maçãs do rosto.

Uma mamoplastia em 2002 e uma segunda em 2014. O que poderia parecer uma rinoplastia entre as fotos mais antigas e as mais recentes foi uma correcção decorrente de um acidente de viação em que bati com a cara no volante de um Mini. Sempre gostei de carros!

Entretanto, não solicitei a alteração de género permitida com a nova lei, em 2011, porque não iria alterar substancialmente o meu quotidiano. E porque continuo a preferir o princípio do direito à diferença em detrimento do direito à assimilação.

Numa conferência sobre a transexualidade no Instituto de Medicina Legal, um médico-cirurgião teve a ousadia de me fazer um diagnóstico em público sem me conhecer de lado nenhum, sem nunca me ter acompanhado.

Disse-me que não ia discutir o meu caso, porque para ele eu não era transexual. Era um travesti fetichista.

Até posso ser, a questão não está aí. Mas um médico ter o descaramento de fazer isto em público, sem nunca me ter consultado, é no mínimo antiético.

Faça eu o que fizer, eu nunca serei integrada nesta sociedade, porque as pessoas falam que as pessoas querem assumir a sua diferença. É falso. As pessoas não assumem a diferença, as pessoas querem um processo de assimilação. E a diferença entre assimilação e diferença é que, na assimilação, as pessoas fazem tudo como hoje em dia os movimentos gay e lésbicos fazem, é que querem parecer iguais aos outros. Aos heterossexuais. Mesmo sabendo eles perfeitamente que nunca o serão e que um modelo que veio de trás tem mais defeitos do que virtudes. O direito à integração da diferença, o direito à diferença, nós sermos diferentes, é que nunca foi aceite e continua a não ser aceite.

Em 2001, quando fiz o primeiro tratamento para a hepatite C, contestei qualquer coisa sobre o comportamento da ILGA com as questões trans.

Responderam-me que estava a barafustar porque queria protagonismo. Percebi que não havia mais mensagem para passar e encerrei o assunto.

Em dez anos, fiz dois tratamentos para a hepatite C com Interferon, cujos efeitos secundários são idênticos aos da quimioterapia. Durante um ano, não fiz nada e fechei-me em casa em Paris.

Já tinha um ritual. À segunda-feira fazia as compras para a semana inteira e cozinhava para três ou quatro dias. Tomava as injecções e durante dois dias já sabia que ia ficar de cama. Nunca vi tantos filmes e séries repetidos como naquela altura. Mas tudo isto para no fim chegar à conclusão de que não tinha resolvido nada.

No segundo tratamento, já tinha 48 anos e a recuperação ainda foi mais difícil. Tive de interromper passado dez meses porque, se não morresse da doença, morria da cura.

Só no final de 2013, com o terceiro tratamento, é que consegui livrar-me da hepatite C. Surgiu um novo fármaco, Sovaldi, e garantiram-me que não tinha efeitos secundários como os anteriores. Parece que agora está resolvido o problema. Mas a recuperação é lenta.

Em 1999, comprámos um espaço no Príncipe Real e abrimos a primeira livraria gay em Portugal, a Esquina Cor-de-Rosa. Na altura, pedimos a várias personalidades para nos fornecerem livros sobre a temática LGBT para nos ajudar.

O pintor Mário Cesariny chegou a entrar na livraria. Cumprimentou-me e sentou-se num sofá que lá estava. A certa altura, olhando para a estante, disse: “Aquele livro é meu.”

A livraria subsistiu não graças ao movimento LGBT, mas graças a pessoas privadas que não faziam parte desse movimento. Cheguei a ter uma proposta de um activista LG para colocar cortinados na montra da livraria, para a tapar. E não de um estranho.

Cada vez se vendiam mais vídeos ou livros pornográficos e eu comecei a fartar-me. Passados sete anos, fechámos a livraria, com a mesma rapidez com que a abrimos.

Em 2013, fui viver para a Murtosa com o Alexandre. Concluí que a minha fase de activista estava encerrada. Encerrada não está porque fica no sangue... Tenho trabalhado com algumas associações e fui convidada para colaborar na Conferência Internacional sobre Sida deste ano, em Paris. Já começam a aparecer algumas pessoas desta nova geração que exigem sobretudo o respeito e o direito à diferença. Com garra e vontade para lutar.

A Murtosa de certa forma é o meu... Está a tornar-se o meu porto de abrigo, eu sei que aqui encontrei, reuni parte da minha vida, da nossa vida, minha e do Alexandre. E há uma paz, uma tranquilidade que eu não tinha, que eu nunca tive e que me permite de certa forma agora lidar com as mágoas e com a amargura que todas estas guerras me trouxeram, porque ninguém sai indemne destes processos, ninguém. E de certa forma foi ele que me empurrou para aquela situação em que, quando não há mensagem a passar, o melhor é ficar calada.

Ter o consolo de chegar aos 50 anos e dizer que “sou eu própria” é pouco.

Acho que merecia mais.

Recomeçar

Vídeo, ilustração e texto:
Sibila Lind

Webdesign:
Miguel Feraso Cabral

Produção:
PÚBLICO
Bagabaga Studios

Música:
Accordion Dirge, Dana Boulé
I should have been more human, Chris Zabriskie
Parisian, Kevin MacLeod
We were never meant to live here, Chris Zabriskie

Agradecimentos:
Jó Bernardo
Alexandre Almeida
Vera Moutinho
Frederico Batista
Hugo Torres
Rita Pimenta
Rui Azevedo

Em 2015, foi realizado o documentário “Chá da meia-noite” sobre a vida de Jó Bernardo, produzido pelos Bagabaga Studios. O documentário estreou-se no festival XV Encontros de cinema de Viana do Castelo, em Maio desse ano, e recebeu o Prémio do público para melhor curta-metragem no QueerLisboa19, em Setembro. O documentário, que nunca foi disponibilizado em meios de comunicação social, tendo sido apenas apresentado em festivais e mostras de cinema, é agora publicado como narrativa multimédia no PÚBLICO e na revista digital DIVERGENTE. Para além do material original, captado em Outubro de 2014, esta nova versão conta com conteúdos inéditos produzidos entre 2016 e 2017.