Violência doméstica

Começar de novo e contar comigo

Como é que as vítimas de violência ultrapassam o trauma? José Sarmento Matos quis saber a resposta e apresenta O Virar da Página.     

Maria, 49 anos. “Tive ali Deus e a minha mãezinha que está no céu, a minha salvação foi estar com o telemóvel na mão e conseguir ligar ao 112. Ninguém chamava uma ambulância.” Em Outubro de 2014, Maria foi a casa do seu pai. Quando estava a sair, o irmão avançou pela porta da cozinha, com uma faca, a dizer “é hoje que vou para a cadeia”. Esfaqueou-a no pescoço, na cabeça e nas costas. Maria ainda tentou fugir mas não teve tempo. O pai assistiu ao ataque e não chamou ninguém. São João da Madeira, Abril 2015
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Maria, 49 anos. “Tive ali Deus e a minha mãezinha que está no céu, a minha salvação foi estar com o telemóvel na mão e conseguir ligar ao 112. Ninguém chamava uma ambulância.” Em Outubro de 2014, Maria foi a casa do seu pai. Quando estava a sair, o irmão avançou pela porta da cozinha, com uma faca, a dizer “é hoje que vou para a cadeia”. Esfaqueou-a no pescoço, na cabeça e nas costas. Maria ainda tentou fugir mas não teve tempo. O pai assistiu ao ataque e não chamou ninguém. São João da Madeira, Abril 2015

Há Nicole, que desde os 11 anos foi agredida e violada pelo ex-namorado — engravidou aos 12 e a família dele fechou-a em casa; batia-lhe e obrigava-a a fazer o serviço doméstico. Há uma porta de casa arranhada por uma mulher que continua a perseguir João e a exercer abusos psicológicos sobre ele. Há Hasina, uma senegalesa que foi vendida como esposa a um homem que vivia em Portugal, de quem foi escrava. Há Angelina, que durante 29 anos teve uma relação violenta com “Palito”, que um dia disparou contra ela e matou-lhe a mãe e a tia. Há muitas outras histórias em O Virar da Página, um projecto do fotógrafo José Sarmento Matos. E há muitas respostas para a pergunta que lhe serviu de ponto de partida: Como é que as pessoas que são vítimas de crimes violentos recomeçam uma nova vida?

Entre Setembro de 2014 e Abril de 2015, José Sarmento Matos fotografou 30 pessoas vítimas de violência doméstica, tráfico humano, perseguições e outras que ficaram traumatizadas pelo assassinato de alguém que lhes era próximo. Mas antes de fotografar, fez entrevistas, horas e horas de entrevistas. No final das conversas, ouviu várias vezes: “Parece que fui ao psicólogo.” Só semanas depois é que Sarmento Matos começava a disparar.

“É um tema delicado”, que não se centra necessariamente no passado, mas no presente, “na mudança, no ponto de viragem, para uma vida mais estável”, diz o fotógrafo à Revista 2. “Fotografei com película para haver um espaço de tempo maior porque não queria um instantâneo.” Ao contrário do digital, o filme permitia pausas: abrir a máquina, trocar de rolo, disparar de novo. Esse era o tempo em que a aproximação com os entrevistados voltava a acontecer.

Sarmento Matos, de 26 anos, foi um dos vencedores do concurso da agência Magnum Photo 30 Under 30, que distingue 30 fotógrafos internacionais abaixo dos 30 anos (na lista está também o português Mário Cruz). Concorreu a esse prémio com cinco fotografias que fazem parte deste projecto, que nasceu depois de um trabalho com a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. A APAV, que comemora o seu 25.º aniversário, é parceira deste O Virar da Página (todas as pessoas fotografadas receberam ajuda da associação), a que Sarmento Matos chama “documentário fotográfico”. A exposição estará no espaço Novo Banco Arte, em Lisboa, até 30 de Dezembro. Francisca Gorjão Henriques     

Elisa. “O que eu trouxe mais essencial foi para os meus filhos, o que eles me pediram, brinquedos deles, alguns… poucos.”  Elisa, depois de anos a sofrer de abusos físicos do seu marido, conseguiu o apoio da APAV, que a colocou, com os seus filhos, numa casa de abrigo. 
Norte de Portugal. Outubro de 2014.
Elisa. “O que eu trouxe mais essencial foi para os meus filhos, o que eles me pediram, brinquedos deles, alguns… poucos.” Elisa, depois de anos a sofrer de abusos físicos do seu marido, conseguiu o apoio da APAV, que a colocou, com os seus filhos, numa casa de abrigo. Norte de Portugal. Outubro de 2014.
Angelina, 53 anos. “Fiquei tão aliviada quando ele foi apanhado pela polícia. Mas ainda tenho medo que ele me tente matar depois dos 25 anos de pena. A única esperança que tenho é que Deus se lembre de mim.” Angelina viveu uma relação de 29 anos na qual sempre sofreu de duros abusos físicos e psicológicos. Depois do divórcio, foi para uma casa de abrigo da APAV. No entanto, o seu ex-marido continuou a procurá-la durante anos. Em Abril de 2014, matou-lhe a mãe e a tia, e tentou matar a filha. Angelina foi então baleada na perna por duas vezes. “Palito” conseguiu fugir durante 34 dias. Valongo dos Azeites, Outubro de 2014
Angelina, 53 anos. “Fiquei tão aliviada quando ele foi apanhado pela polícia. Mas ainda tenho medo que ele me tente matar depois dos 25 anos de pena. A única esperança que tenho é que Deus se lembre de mim.” Angelina viveu uma relação de 29 anos na qual sempre sofreu de duros abusos físicos e psicológicos. Depois do divórcio, foi para uma casa de abrigo da APAV. No entanto, o seu ex-marido continuou a procurá-la durante anos. Em Abril de 2014, matou-lhe a mãe e a tia, e tentou matar a filha. Angelina foi então baleada na perna por duas vezes. “Palito” conseguiu fugir durante 34 dias. Valongo dos Azeites, Outubro de 2014
João, 44 anos.
“Tento ter tranquilidade ?e paz de espírito diariamente para viver nesta situação.” João tem sido perseguido e sofrido de violência psicológica por parte da sua ex-mulher, que neste momento está com uma pena suspensa mas continua a persegui-lo. Recentemente, riscou-lhe a porta de casa por não o ter encontrado lá. Almada, Outubro de 2014
João, 44 anos. “Tento ter tranquilidade ?e paz de espírito diariamente para viver nesta situação.” João tem sido perseguido e sofrido de violência psicológica por parte da sua ex-mulher, que neste momento está com uma pena suspensa mas continua a persegui-lo. Recentemente, riscou-lhe a porta de casa por não o ter encontrado lá. Almada, Outubro de 2014
Teresa, 45 anos. “Eu e os meus filhos tivemos de nos adaptar a uma vida nova. Qualquer coisa seria melhor do que aquilo pelo qual estávamos apassar.” Teresa foi fisicamente abusada pelo seu ex-marido durante dois anos. Era totalmente controlada por ele: para comer, dormir ou até tomar banho. “Se adormecesse, ele batia-me.” Um dia, conseguiu fugir com os filhos. Ficaram num hotel durante uma semana e depois mudaram-se para o Norte de Portugal, onde foram acolhidos numa casa de abrigo da APAV. ?Norte de Portugal, Outubro de 2014
Teresa, 45 anos. “Eu e os meus filhos tivemos de nos adaptar a uma vida nova. Qualquer coisa seria melhor do que aquilo pelo qual estávamos apassar.” Teresa foi fisicamente abusada pelo seu ex-marido durante dois anos. Era totalmente controlada por ele: para comer, dormir ou até tomar banho. “Se adormecesse, ele batia-me.” Um dia, conseguiu fugir com os filhos. Ficaram num hotel durante uma semana e depois mudaram-se para o Norte de Portugal, onde foram acolhidos numa casa de abrigo da APAV. ?Norte de Portugal, Outubro de 2014
Hasina, 29 anos. “Comecei uma vida nova. Agora estou legal em Portugal. Os meus filhos podem ir ao hospital. Devagar, a minha vida tem mudado para melhor. Estou a aprender português e estou à procura de trabalho.” Hasina, originalmente do Senegal, foi vendida pelos seus pais para se casar com um cidadão senegalês que vivia em Portugal. Quando chegou aqui, foi forçada a trabalhar como empregada doméstica sem receber qualquer remuneração monetária. Foi também abusada fisicamente pelo ex-marido. Esteve presa em casa durante os meses da sua gravidez, até que conseguiu fugir com o apoio do SEF e foi acolhida numa casa da APAV. Algarve, Setembro 2014
Hasina, 29 anos. “Comecei uma vida nova. Agora estou legal em Portugal. Os meus filhos podem ir ao hospital. Devagar, a minha vida tem mudado para melhor. Estou a aprender português e estou à procura de trabalho.” Hasina, originalmente do Senegal, foi vendida pelos seus pais para se casar com um cidadão senegalês que vivia em Portugal. Quando chegou aqui, foi forçada a trabalhar como empregada doméstica sem receber qualquer remuneração monetária. Foi também abusada fisicamente pelo ex-marido. Esteve presa em casa durante os meses da sua gravidez, até que conseguiu fugir com o apoio do SEF e foi acolhida numa casa da APAV. Algarve, Setembro 2014
Catarina, 25 anos. “Se o ataque na garagem não tivesse acontecido, eu provavelmente nunca teria tido liberdade. Depois disto a minha vida mudou imenso. Estou a viver com o meu namorado e acho que nunca estive tão feliz. Foi mesmo um ponto de viragem.” Depois de muitos anos de abusos físicos e psicológicos, o namorado de Catarina tentou matá-la na sua garagem. Às 8h00 de um domingo a sua mãe ouviu um baralho estranho e sentiu que alguma coisa estava a acontecer. Foi a mãe que a conseguiu salvar. Alverca, Outubro de 2014.
Catarina, 25 anos. “Se o ataque na garagem não tivesse acontecido, eu provavelmente nunca teria tido liberdade. Depois disto a minha vida mudou imenso. Estou a viver com o meu namorado e acho que nunca estive tão feliz. Foi mesmo um ponto de viragem.” Depois de muitos anos de abusos físicos e psicológicos, o namorado de Catarina tentou matá-la na sua garagem. Às 8h00 de um domingo a sua mãe ouviu um baralho estranho e sentiu que alguma coisa estava a acontecer. Foi a mãe que a conseguiu salvar. Alverca, Outubro de 2014.
Beatriz.
“Nunca imaginamos que isto é algo que nos possa acontecer e temos vergonha de partilhar com os outros.” Beatriz sofreu de stalking. Foi perseguida por uma colega de trabalho e foi ameaçada várias vezes. “Eu não conseguia dormir, não tinha paz. Estava com medo que alguma coisa me acontecesse. Comecei por me culpar pela situação e procurava uma razão para o comportamento dela.” Viu-se obrigada a mudar de casa e já mudou de trabalho quatro vezes. Lisboa, Setembro de 2014
Beatriz. “Nunca imaginamos que isto é algo que nos possa acontecer e temos vergonha de partilhar com os outros.” Beatriz sofreu de stalking. Foi perseguida por uma colega de trabalho e foi ameaçada várias vezes. “Eu não conseguia dormir, não tinha paz. Estava com medo que alguma coisa me acontecesse. Comecei por me culpar pela situação e procurava uma razão para o comportamento dela.” Viu-se obrigada a mudar de casa e já mudou de trabalho quatro vezes. Lisboa, Setembro de 2014
Nicole, 20 anos.
“Há uma grande diferença entre o presente e o passado. Há uma grande diferença entre ser feliz e estar em sofrimento.” Nicole foi abusada sexual e fisicamente pelo ex-namorado quando tinha 11 anos. Aos 12, engravidou e foi forçada a ficar na casa da família dele, onde a obrigavam a trabalhos domésticos e abusavam dela. “Não podia falar com a minha família, estava presa. Não me deixavam descansar. Batiam-me na cabeça e queimavam cigarros nos meus braços. Desmaiei várias vezes.” Três meses depois do parto, a irmã conseguiu tirar Nicole e a filha, Joana (à direita na fotografia), da casa da família do ex-namorado. Nicole casou-se anos depois com um homem que a ama e que a trata bem (na moldura, ao seu lado, no meio da fotografia). Rabo de Peixe, Açores, Outubro de 2014
Nicole, 20 anos. “Há uma grande diferença entre o presente e o passado. Há uma grande diferença entre ser feliz e estar em sofrimento.” Nicole foi abusada sexual e fisicamente pelo ex-namorado quando tinha 11 anos. Aos 12, engravidou e foi forçada a ficar na casa da família dele, onde a obrigavam a trabalhos domésticos e abusavam dela. “Não podia falar com a minha família, estava presa. Não me deixavam descansar. Batiam-me na cabeça e queimavam cigarros nos meus braços. Desmaiei várias vezes.” Três meses depois do parto, a irmã conseguiu tirar Nicole e a filha, Joana (à direita na fotografia), da casa da família do ex-namorado. Nicole casou-se anos depois com um homem que a ama e que a trata bem (na moldura, ao seu lado, no meio da fotografia). Rabo de Peixe, Açores, Outubro de 2014
Maria, 49 anos.
“Tive ali Deus e a minha mãezinha que está no céu, a minha salvação foi estar com o telemóvel na mão e conseguir ligar ao 112. Ninguém chamava uma ambulância.” Em Outubro de 2014, Maria foi a casa do seu pai. Quando estava a sair, o irmão avançou pela porta da cozinha, com uma faca, a dizer “é hoje que vou para a cadeia”. Esfaqueou-a no pescoço, na cabeça e nas costas. Maria ainda tentou fugir mas não teve tempo. O pai assistiu ao ataque e não chamou ninguém. São João da Madeira, Abril 2015
Maria, 49 anos. “Tive ali Deus e a minha mãezinha que está no céu, a minha salvação foi estar com o telemóvel na mão e conseguir ligar ao 112. Ninguém chamava uma ambulância.” Em Outubro de 2014, Maria foi a casa do seu pai. Quando estava a sair, o irmão avançou pela porta da cozinha, com uma faca, a dizer “é hoje que vou para a cadeia”. Esfaqueou-a no pescoço, na cabeça e nas costas. Maria ainda tentou fugir mas não teve tempo. O pai assistiu ao ataque e não chamou ninguém. São João da Madeira, Abril 2015