Newsweek gera polémica com capa de Obama, o “primeiro Presidente gay”

Barack Obama é o primeiro Presidente dos Estados Unidos a apoiar o casamento entre homossexuais DR

O casamento entre pessoas do mesmo sexo continua a dar que falar nos Estados Unidos. A Newsweek acrescentou uma auréola com as cores do arco-íris a uma fotografia de Barack Obama e publicou a imagem na capa desta semana, com uma provocação por manchete: “O primeiro Presidente gay”. Muitos leitores não gostaram.

A capa da Newsweek foi partilhada no domingo, no Facebook, e os comentários de indignação não tardaram.

A abrir, a leitora Ngeri Nnachi-Azuewah não contém o espanto: “A sério…?!” Pouco depois, a portuguesa Maria Henriques reage de forma idêntica: “Oh, vá lá!” Charline Charles, outra leitora, vai mais longe: “Que desrespeitoso!” Peter Lee, ainda mais: “Tão errado. Esta manchete foi escrita por uma criança de cinco anos? Muito juvenil.” Joe Estep dá início ao desprezo: “Engraçado! Quando as vendas estão em baixo, faz-se qualquer coisa.”

Este género de opinião estende-se por quase de 600 comentários, sobretudo a condenar a opção da revista dirigida por Tina Brown. Mas nem todas as críticas são genéricas. Há quem considere a manchete uma “má ideia” por poder enganar os leitores desprevenidos (Rafe Cantrell), quem diga esperar tratar-se de “uma piada” (Kelsey Lynn Feaster: “Não sabia que a Newsweek era um tablóide.”), ou preferisse ver a mesma capa mas só com a imagem (Jacob Williamson: “O título é idiota.”), ou ainda quem peça um uso mais capaz do Photoshop quando se concretiza uma “ideia estúpida” como esta (John Lewinski).

E de onde vem tudo isto? Do facto de, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um Presidente ter apoiado publicamente a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Quando o tema já estava há muito na ordem do dia, o Presidente norte-americano foi à estação de televisão ABC dizer que a sua opinião tinha “evoluído” desde a sua eleição, em finais de 2008. “É importante para mim afirmar que penso que as pessoas do mesmo sexo devem poder casar”, disse, na passada quarta-feira. A Newsweek, como todos os outros jornais, revistas, rádios, televisões e sites, não passou ao lado desta revelação ímpar.

O artigo é assinado por Andrew Sullivan, autor e jornalista que no início dos anos 1990 mudou a forma como a histórica revista The New Republic cobria a política nos Estados Unidos. De nacionalidade britânica e ascendência irlandesa, Sullivan é um convicto católico. E um homossexual assumido, casado em Provincetown, Massachusetts, em 2007. Naturalizou-se cidadão norte-americano em 2011, depois de passar anos sem se puder candidatar ao “green card” por ser seropositivo. Escreve sobre política interna e externa, e sobre temas LGBT.

Nenhuma destas gradações biográficas, que estão na base do artigo da Newsweek que conduziu à controversa manchete, foi tida em conta pelos comentaristas. A maioria achou de mau gosto – e pronto. No máximo, fizeram a comparação com a capa da New Yorker (que só chega às bancas para a semana), mais contida: é uma ilustração da Casa Branca em que as colunas da frente estão pintadas com as cores do arco-íris, usado como bandeira LGBT. A comparação foi feita no Twitter – onde a discussão também foi prolífica – por Steve Silberman, autor ligado à ciência cuja conta naquele rede está associada à Time.

No entanto, a provocação por que agora a Newsweek é condenada – provocação porque, como escreve no Facebook o leitor Peter Lee, Obama é “gay-friendly, e não gay” – foi feita, de forma idêntica, em 1998, pela distinta New Yorker. Em Outubro desse ano, já depois do escândalo Monica Lewinsky, a Nobel da Literatura Toni Morrison escrevia nas páginas da revista norte-americana que Bill Clinton era “o primeiro Presidente negro” dos Estados Unidos. Porquê? Porque, segundo a escritora, afro-americana, Clinton apresentava “quase todas as características dos negros: família monoparental, nascido pobre, classe trabalhadora, toca saxofone, rapaz do Arkansas que gosta de McDonald's e comida de plástico”. O que levava Morrison a afirmar que Clinton era “mais negro do que qualquer negro que consiga ser eleito no tempo de vida dos nossos filhos”.

O caso é recordado por muitos órgãos de comunicação norte-americanos, que nos últimos dias também se têm questionado sobre a validade da capa da Newsweek. Na costa oeste, o Los Angeles Times pergunta se existe uma “guerra” entre revistas informativas (para ver qual consegue a mais controversa). Na costa leste, o Washington Post é mais directo nas suas dúvidas: “a controvérsia vende?”

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