A guerra de palavras entre a Comissão de Trabalhadores (CT) da RTP e o jornalista da SIC Mário Crespo, por causa dos custos da estação pública, já chegou aos ecrãs de televisão. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) só poderá envolver-se no assunto se alguém apresentar uma queixa, mas sabe-se agora que Crespo veiculou por escrito a sua disponibilidade para o lugar de correspondente da RTP nos Estados Unidos.
Questionado pelo PÚBLICO, o vice-presidente da ERC, Arons de Carvalho, diz que o regulador só intervirá se alguma queixa lhe for apresentada. Não o fará por sua iniciativa porque para já não existe matéria que o justifique.
A CT da RTP acusou Mário Crespo de mentir sobre os custos do grupo público de rádio e televisão ao dizer, por diversas vezes, no final dos blocos informativos da SIC Notícias, “mais um dia passou e a RTP custou mais um milhão de euros”. Por isso, o órgão representante dos trabalhadores ameaçou fazer queixa do jornalista à Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas e à ERC.
Na terça-feira à noite, no final do Jornal das 9, que costuma apresentar, Mário Crespo usou quatro minutos para falar, num tom crítico e irónico, sobre o seu diferendo com a CT da RTP, reiterando que não se vai calar com o assunto e apresentando os números recorrendo a uma tabela com as receitas do grupo público.
Crespo justificou que se tem referido ao custo de um milhão de euros por dia que a RTP representa no âmbito do “grande debate nacional que se levantou – e bem – sobre os modelos a adoptar para a RTP: concessão, privatização”. Que os números a que alude são de fontes “inteiramente abertas, oficiais, e ao acesso de quem a quiser ir ler: são números compilados do relatório de contas da RTP e do OE”.
“Montantes muito grandes”, considera Crespo
Em 2009, o custo da RTP “em dinheiros públicos foi de 376,8 milhões, o que dá francamente mais do que o tal milhão por dia”. Em 2011 e 2012 atinge “montantes muito grandes: 596,3 milhões e 579,5 milhões de euros, o que dá bastante mais, bastante mais mesmo, do que um milhão por ida, aquele milhão que eu referi”, vinculava Mário Crespo, enquanto a imagem mostrava uma tabela impressa em papel. Montantes que, garantiu, continuará “a referir sempre que seja editorialmente apropriado”.
“Calar ou matar mensageiros é uma táctica de séculos mas que raramente resulta quando se quer alterar a realidade ou realidades. E no caso deste mensageiro, se me permitem, dado o entendimento claro da função de jornalista e pelo ambiente que me rodeia, aqui, na SIC, não tem resultado de todo. E já houve várias tentativas”, avisou Mário Crespo.
“Aqui fica o facto: a RTP custa bastante mais do que um milhão de euros por dia do pouco dinheiro público disponível em Portugal neste momento. Boa noite e muito boa sorte. Até amanhã”, rematou o pivô.
O PÚBLICO contactou o director da SIC Notícias, António José Teixeira, que recusou este diferendo entre o jornalista e a CT da RTP, assim como a resposta que Mário Crespo deu em directo. Mas adiantou não ter recebido qualquer pedido de direito de resposta a corrigir esse valor de um milhão de euros de custos por dia.
Pressões de Crespo junto de governantes
Em 2010, Mário Crespo era colunista do Jornal de Notícias quando a publicação de um texto seu foi recusado pela direcção daquele diário, por atacar o então primeiro-ministro, José Sócrates, sem que houvesse contraditório. O jornalista foi então ouvido na comissão parlamentar de ética que, na altura, estava a fazer uma longa lista de audições sobre a liberdade de imprensa em Portugal. Crespo fez uma apresentação teatral aos deputados: distribuiu uma crónica e um poema, mostrou uma t-shirt onde se lia “Eu ainda não fui processado pelo Sócrates” e clamou que foi censurado.
Pouco tempo depois, Arons de Carvalho revelou na mesma comissão ter sido pressionado, quando era secretário de Estado da Comunicação Social, por Mário Crespo, que lhe pediu para ser colocado novamente como correspondente da RTP nos Estados Unidos. Arons de Carvalho conta agora ao PÚBLICO que o ex-ministro da Saúde, Correia de Campos, lhe deu autorização para revelar publicamente que também ele, quando ministro, foi interpelado por Mário Crespo que lhe pediu para interceder por ele junto de quem tutelava a RTP para voltar ao grupo.
Já este ano, Mário Crespo também viu ser suspensa a sua crónica no semanário Expresso – que tal como a SIC pertence ao grupo Impresa de Francisco Pinto Balsemão.
Mário Crespo queria lugar de correspondente da RTP
Nesta quarta-feira, o Diário de Notícias publicou uma carta escrita por Mário Crespo e endereçada, a 1 de Janeiro deste ano, ao então presidente do Conselho de Administração da RTP, Guilherme Costa. Na missiva, o jornalista dava conta da sua disponibilidade para o lugar de correspondente da estação pública nos Estados Unidos.
O jornalista afirmava na carta que “seria com grande entusiasmo e motivação que aceitaria a tarefa”. “É função que conheço bem e que desempenhei entre 1991 e 1997”, recordava, sublinhando que foi “até hoje o único jornalista português com acreditação permanente simultaneamente na Casa Branca, Departamento de Estado, Pentágono e Congresso dos Estados Unidos.”
Mário Crespo, de 65 anos, sugeria na carta que a sua experiência seria uma mais-valia no lugar, num “ano de eleições presidenciais nos Estados Unidos e dado o melindre da situação económica e financeira mundial”. No entanto, a RTP acabou por destacar, em Junho, a sua então editora de Política Internacional para o cargo – Márcia Rodrigues.

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