Auditoria às audiências dá razão à RTP: novo painel não representa a população

Com a mudança para a GfK, a RTP foi o operador mais prejudicado, vendo as suas audiências cair Foto: Adriano Miranda

A auditoria ao sistema de medição de audiências televisivas conclui que o painel usado pela empresa GfK "não é representativo da população portuguesa", afirmou ontem o presidente da RTP.

Por isso, os resultados de audiências que têm sido apresentados desde o início de Março "não são credíveis e este sistema de medição de audiências não serve o sector", aponta Guilherme Costa.

Entre os problemas detectados no painel da GfK estão a sub-representação de pessoas com mais de 45 anos e das classes mais baixas (C, D e E), erros na renovação do painel (dos 1106 lares, 322 foram renovados e não seguem as exigências iniciais) e problemas técnicos na leitura do som (o sistema funciona com base no registo do som e posterior identificação do canal e programa).

Mas não é só a auditoria encomendada à PricewaterhouseCoopers (PwC) que conclui pela inadequação do painel. Os pareceres pedidos pela RTP a três universidades alinharam pelo mesmo diapasão: o uso de amostras não probabilísticas (não representativas do total da população) não permite uma medição rigorosa das audiências.

A solução? "O painel tem que ser substituído urgentemente", exige o presidente da RTP. Guilherme Costa diz ter "legitimidade para reivindicar uma solução urgente" porque alertou desde o início a Comissão de Análise de Estudos de Meios (CAEM), a associação de auto-regulação do sector, para os problemas que o sistema da GfK levantava.

A auditoria ao sistema de audiências foi encomendada pela CAEM à PwC em Maio, depois das sucessivas queixas da RTP e da ameaça da TVI de rescindir contrato com a GfK, que substituiu a Marktest. O processo de escolha da nova medição fora decidido depois de a TVI ter colocado em causa a credibilidade da Marktest. A entrada em vigor do sistema da GfK foi tomada por unanimidade, na CAEM, em Fevereiro.

Com a mudança para a GfK, a RTP foi o operador mais prejudicado, vendo as suas audiências cair em média cinco pontos percentuais. Houve mesmo situações em que parte dos seus programas teve uma medição de zero espectadores. Na informação, em que era líder, caiu entre 8% e 10%, tendo o Telejornal perdido cerca de 300 mil espectadores, contabiliza o director de Informação da RTP, Nuno Santos.

Guilherme Costa quer sentar-se à mesa da auto-regulação para discutir o problema, mas não exclui um recurso aos tribunais. Aliás, em Março, avisou a CAEM que "a RTP não deixará de exigir a reparação dos prejuízos já sofridos". Segundo cálculos do PÚBLICO, tendo em conta os cerca de 50 milhões de euros que a TV pública factura em publicidade, a RTP poderá perder este ano cerca de 12 milhões de euros.

Ontem, Guilherme Costa confirmou ter os prejuízos quantificados mas recusou falar em números. Questionado sobre a repercussão do caso na eventual privatização de um canal, respondeu em forma de pergunta: "Algum concorrente sério quer entrar numa indústria que não sabe como o pilar dos seus proveitos é medido?"

A CAEM recusa disponibilizar o relatório por se tratar de um "documento interno de trabalho" que está a ser analisado pelos associados - operadores, anunciantes e agências de meios. A SIC não faz comentários por estar ainda a examinar o documento e da TVI não foi possível obter reacção.

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